20. Manuela

1390 Words
O dia amanheceu pesado, o tipo de manhã em que o céu parece carregar o mesmo cansaço da gente. Eu acordei com o som distante da cidade, buzinas, o barulho de algum caminhão passando, vozes que vinham da rua lá embaixo. O quarto do hotel ainda estava mergulhado num silêncio estranho, desses que incomodam porque são diferentes do que a gente está acostumado. Nenhum rádio ligado, nenhum tiro estourando, nenhum vizinho brigando por causa do barulho. Era o tipo de paz que não existia no morro, e por isso me soava artificial. Ítalo dormia ao meu lado, com o rosto afundado no travesseiro e o ursinho preso entre os braços. Olhei pra ele por um tempo, tentando acreditar que estávamos seguros, que tudo aquilo fazia sentido. Mas não fazia. Eu não sabia por que aquele homem me tirou de casa, não sabia o que ele realmente queria, e, pior ainda, não sabia se ele voltaria. Levantei, lavei o rosto e abri as cortinas. O sol já batia forte lá fora, iluminando os prédios, as ruas, os carros. Nada ali lembrava o morro. Parecia outro mundo, um onde as pessoas tinham tempo pra respirar. Por um instante, senti raiva. Como podia existir um lugar assim, enquanto lá em cima, a poucos quilômetros, tanta gente ainda lutava pra sobreviver? Peguei o controle da televisão. A tela se acendeu com o som alto, e o coração gelou antes mesmo da imagem aparecer. Era o noticiário da manhã. O letreiro vermelho no rodapé da tela gritava o que eu já temia: “OPERAÇÃO NO VIDIGAL: BOPE INICIA CERCO EM AÇÃO CONTRA TRÁFICO". O corpo travou. A repórter falava rápido, a voz firme, as imagens cortando de helicópteros a becos, soldados subindo, fumaça cobrindo os telhados. Era o meu morro. Minhas ruas. As casas que eu via todo dia. A viela onde eu cresci. O portão da Dona Inês, o beco onde o Ítalo brincava com os meninos. Tudo cercado, engolido por fumaça, correria e medo. — Mãe? — a voz pequena do Ítalo me puxou de volta. Ele se sentou na cama, os olhos ainda meio fechados. — Tá acontecendo o quê? Eu desliguei a TV rápido demais. — Nada, meu amor. Só barulho da cidade. — A gente vai pra casa? Engoli seco. — Ainda não. Ele assentiu devagar, aceitando sem entender. Eu sentei na beira da cama, tentando respirar. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto da Dona Inês, o barulho das portas batendo, os gritos. Eu sabia o que uma operação significava, sabia o som que o morro fazia quando a polícia entrava. O som das mães chorando, o som das balas, o som da vida se escondendo. E o capitão. Lá em cima, no meio daquilo tudo. Lembrei do jeito que ele saiu do quarto horas antes, frio, confiante, como se nada no mundo fosse capaz de atingi-lo. Mas o morro não perdoava arrogância. Ele podia ser o homem mais duro, mais armado, mais preparado... ainda assim, o morro engolia até os que achavam que mandavam nele. Andei de um lado pro outro, sem saber o que fazer. A janela mostrava uma cidade calma, e dentro de mim o caos só crescia. Não dava pra ouvir sirenes, não dava pra sentir o cheiro da fumaça, mas eu sabia. Era como se o corpo reconhecesse o barulho mesmo à distância. Peguei o celular, mas não tinha número pra ligar. Ele nunca me deu. Nenhum contato, nenhum aviso. Só a promessa seca: "Amanhã eu volto." Mas ele não voltou. E o relógio marcava quase meio-dia. O medo vinha em ondas: primeiro, pelo morro. Depois, por ele. E, no fundo, por mim também. Porque eu sabia que, se ele não voltasse, tudo aquilo ia continuar vivo dentro de mim: a voz, o olhar, o toque, a confusão que ele deixava por onde passava. Voltei pra cama e abracei o Ítalo, que já cochilava de novo. A respiração dele era calma, diferente da minha, que vinha em soluços curtos e disfarçados. Lá fora, o sol seguia brilhando, indiferente. E na TV, mesmo com o som desligado, as imagens continuavam passando, o morro, as casas, o fogo, os homens de preto. Ele estava lá. E eu, aqui. Longe o bastante pra estar viva, perto o bastante pra sentir o peso de tudo. Fechei os olhos e murmurei um pedido mudo, sem nomear pra quem: que ele voltasse. E que o morro sobrevivesse a mais um dia. A tarde foi se arrastando, lenta e pesada, como se o tempo tivesse medo de seguir. Eu não consegui sair de perto da televisão, mesmo com o som desligado, o silêncio entre cada imagem era pior que qualquer palavra. O noticiário mostrava o mesmo quadro repetidas vezes: helicópteros sobrevoando o morro, fumaça subindo de becos, gente correndo com as mãos na cabeça. A legenda mudava, mas o conteúdo era o mesmo “A operação continua. Prisões. Apreensão. Mortes." Ítalo brincava no tapete com o ursinho, alheio àquilo tudo. A inocência dele era o único fio que me segurava de pé. Eu dizia pra mim mesma que estávamos longe, seguros, que aquele barulho não ia chegar até aqui, mas o coração não acreditava. Eu conhecia aquele tipo de silêncio que vinha antes da notícia r**m. Quando o sol começou a se esconder, o céu ficou laranja, e a cidade lá fora parecia indiferente ao que acontecia do outro lado do mapa. Gente indo e vindo, carros, risadas, um casal discutindo na calçada. A vida continuava normal enquanto o meu mundo inteiro ardia em algum canto da tela. Por volta das sete da noite, a repórter apareceu de novo, o microfone tremendo na mão. A voz dela vinha tensa, mas havia algo diferente no tom, uma urgência contida, uma tentativa de encerrar a tragédia com alguma ordem. "Após mais de doze horas de cerco, a operação no Morro do Vidigal chega ao fim. Segundo informações da Polícia Militar, o comandante da ação, Capitão Alex Buarque, liderou pessoalmente a incursão." Meu corpo travou. O nome dele atravessou o ar como um soco. A imagem mudou. E lá estava ele. Fardado, o rosto suado, as luvas ainda manchadas de poeira. O colete marcava o tamanho do corpo, o porte dele inconfundível. Mesmo diante das câmeras, ele parecia o mesmo: frio, firme, quase intocável. O olhar fixo, a voz baixa, segura. — A operação foi bem-sucedida. — ele dizia. — Retiramos do território uma quantidade significativa de armamento e entorpecente. Infelizmente, há feridos. O morro reagiu, como sempre reage, mas o controle agora é nosso. A repórter tentou insistir: — Capitão, há relatos de civis atingidos. A população local reclama da violência das ações. O senhor tem algo a dizer sobre isso? Ele a encarou por um segundo. O silêncio dele era mais pesado do que qualquer resposta. Depois, respondeu com aquela calma que sempre me deixava inquieta: — O morro é um campo de batalha. Quem puxa o gatilho escolhe o risco. O sangue gelou nas minhas veias. Aquele era o mesmo homem que, horas antes, tinha me tirado de casa dizendo que era pra me proteger. O mesmo que olhou pro meu filho dormindo e falou com voz baixa, quase doce. Agora ele falava como quem não tinha alma. Mas havia algo no olhar dele, um detalhe pequeno, quase imperceptível. Um cansaço. Uma sombra. Ele olhou direto pra câmera por um instante, e eu juro que por um segundo pareceu que olhava pra mim. Meu peito apertou. Ítalo puxou a barra da minha roupa. — Mãe, é o moço da bota. Assenti, sem conseguir responder. A imagem mudou, voltando pra âncora do jornal, mas eu continuei parada, encarando o reflexo da tela apagada depois que desliguei a TV. O rosto dele ainda estava ali, impresso na mente, junto com o som da voz firme, a calma que não era humana. Passei as mãos no cabelo, tentando respirar. A cabeça latejava, o coração parecia preso na garganta. Ele tava vivo. Mas a sensação de alívio não veio. Porque no fundo, algo em mim sabia que aquele homem que apareceu na TV, aquele soldado frio, calculista, não era o mesmo que me olhou no quarto do hotel, horas antes, e disse que voltaria. E por algum motivo, isso me deu mais medo do que qualquer tiro que já tinha ouvido no morro.
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