Os dias seguintes correram lentos, como se o morro tivesse prendido o ar desde aquela noite. A imagem dele batendo nos caras ainda me vinha à cabeça às vezes, não por medo, mas pela intensidade. Era como se a presença dele tivesse ficado presa nas paredes da viela, me seguindo onde quer que eu fosse.
Eu tentei seguir a vida. Trabalhei, limpei, fiz unha, ajeitei cabelo, cuidei do Ítalo. Mas o tempo todo sentia aquele peso invisível me observando. Quando o vento batia diferente, eu sabia. Quando a moto subia devagar demais, o coração disparava. Era instinto. O corpo reconhece o perigo mesmo antes da mente admitir.
Naquela tarde, o sol descia quente, o ar pesado. Eu voltava do posto de saúde com o Ítalo pela mão, um saquinho de remédio pendurado no braço. O calor era tanto que o chão parecia respirar. Foi então que vi o carro preto subindo a rua devagar. O mesmo. As janelas escuras, o motor grave. O coração apertou no peito.
Ele parou um pouco mais à frente e desceu. Sem pressa, como se o mundo inteiro tivesse o tempo dele. Camisa preta, calça justa, o porte de sempre: imenso, seguro, perigoso. O olhar veio direto pra mim, sem desviar.
— De novo você aqui? — perguntei, antes que ele dissesse qualquer coisa.
— O morro é meu território. — Ele sorriu de canto, aquele sorriso curto, quase imperceptível.
— E eu não sou.
— Ainda não.
A resposta veio calma, quase como se fosse uma constatação, e não uma provocação.
Fiquei parada, tentando entender se ele queria me irritar ou só gostava de me ver reagir. O Ítalo apertou minha mão, curioso com o homem fardado ali.
— Mãe, é aquele moço que te ajudou?
— Ítalo!
Ele se abaixou, ficando na altura do menino. A expressão endurecida suavizou um pouco.
— E aí, garoto, tá cuidando da sua mãe?
— Sempre. — Ítalo assentiu, com um sorrisinho.
O olhar dele voltou pra mim, mais demorado dessa vez.
— Tá precisando de alguma coisa?
— Tô precisando que o senhor me esqueça.
— Isso não é fácil. — Ele riu baixo, sem humor.
— Nem um pouco saudável também.
— Eu nunca fui um homem saudável, Manuela.
A forma como ele disse meu nome me atingiu como um soco surdo. Ele tinha o dom de fazer até as palavras parecerem toque: lento, calculado, invasivo.
— Por que tá aqui? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Porque quero.
— Não tenho tempo pra jogo.
— Quem falou em jogo? — Ele se aproximou mais um passo. O ar entre nós pareceu diminuir. — Só tô olhando de perto o que não sai da minha cabeça.
Respirei fundo, tentando disfarçar o impacto.
— O que você quer comigo, Buarque?
— Ainda não sei. — Ele me encarou com um olhar tão intenso que tive que desviar. — Mas vou descobrir.
Fiquei sem resposta. Ele era o tipo de homem que preenchia o espaço sem precisar fazer barulho. O corpo dele exalava poder e perigo, e eu odiava o quanto isso me deixava alerta.
— Agradece, pelo menos. — ele disse, baixo. — Aqueles dois não vão mais te incomodar.
— Você acha que eu devia agradecer por isso? Você não deveria defender a população?
— Acho que devia entender que o mundo não é justo. Eu só escolho o lado que vence.
— E eu sou o quê, então?
— O que me tira do eixo.
Por um segundo, fiquei sem saber o que responder. A voz dele não tinha arrogância, era outra coisa. Sinceridade crua, quase absurda.
Ele deu um passo pra trás, os olhos ainda presos nos meus.
— Te vejo por aí, Manuela.
— Tomara que não.
— Tomara que sim.
E foi embora, como se o que tivesse dito não pesasse nada. Mas pesava. Pesava o olhar dele, o jeito como falava meu nome, o silêncio que ficou depois. Quando cheguei em casa, o coração ainda batia acelerado.
Enquanto guardava os remédios e ajeitava o cabelo na frente do espelho rachado, percebi o que mais me assustava: não era o medo dele. Era o fato de que, no fundo, uma parte de mim já esperava que ele voltasse.
Os dias seguintes foram lentos, abafados, quase pesados de tanto silêncio. O morro parecia mais quieto do que o normal, e mesmo assim, o barulho da cidade chegava até aqui: motos, gritos, o funk que subia dos becos lá de baixo. Eu tentava fingir que era só mais uma semana comum, mas tudo dentro de mim sabia que não era.
Desde aquele último encontro, tudo ficou diferente. Não sei se era medo, raiva ou a mistura dos dois, mas eu sentia o peso dele em tudo. Era como se ele tivesse deixado um rastro, um cheiro, uma sombra grudada em mim. Às vezes, eu olhava pra viela e esperava ver o carro preto estacionado, o vulto dele parado lá embaixo. Outras vezes, era só o vento batendo nas latas do telhado e eu achava que era o som do motor.
Tentei ocupar a cabeça. Trabalhei dobrado: unhas, cabelos, faxina, o que aparecesse. De manhã eu levava o Ítalo na creche, de tarde corria atrás de serviço, e à noite, quando o silêncio caía, eu ficava pensando em como a vida tinha virado esse jogo que eu nunca pedi pra jogar.
No domingo, acordei cedo e fui até a venda. O sol batia forte e o cheiro de pão fresco enchia o ar. Cumprimentei o seu Joel, que sempre me olhava com aquele ar de quem sabe demais e fala de menos. Comprei leite, açúcar e umas balas pro Ítalo. O pouco que eu podia dar de mimo.
No caminho de volta, encontrei a Dona Inês na porta, varrendo o chão.
— Tá sumida, menina. Pensei que tinha conseguido um emprego no asfalto.
— Quase isso. Só tô cansada. — Sorri de leve.
— Cansada é quem tenta viver direito nesse lugar. — Ela balançou a cabeça.
Assenti. Ela tava certa. A gente vivia cansada. Cansada de esperar o mês virar, de ver o dinheiro acabar, de fingir que o medo era normal.
Cheguei em casa, fiz café e sentei um pouco na porta, observando o morro acordar. O vento trazia cheiro de comida, de sabão, de vida. Era bonito de um jeito torto, mesmo com toda a dor que carregava.
Olhei pro Ítalo brincando com um carrinho velho e pensei em como ele era a única coisa boa que restava em mim. Prometi pra mim mesma que ele não ia crescer com medo, que não ia aprender a abaixar a cabeça.
Mas, no fundo, eu sabia que promessas aqui duravam pouco. Porque o morro tinha o poder de roubar a calma da gente. E ultimamente, parecia que até minha paz tinha virado alvo.
À noite, sentei na cama e fiquei encarando o teto. Lá fora, o vento assobiava entre os becos, e cada som me fazia prender a respiração por um segundo. O carro preto não apareceu. Mas, de algum modo, a ausência dele doía quase tanto quanto a presença.