CAPÍTULO 1
MARIA JÚLIA NARRANDO
Meu nome é Maria Júlia.
Mas quase ninguém me chama assim.
Para a maioria das pessoas, sou simplesmente Maju.
Tenho vinte e três anos, um metro e cinquenta e nove de altura e cabelos cacheados, cheios e impossíveis de passar despercebido. Minha mãe costumava dizer que meus cachos eram a única coisa em mim que nunca aceitavam ficar no lugar.
Talvez ela tivesse razão.
Eu também nunca fui muito boa em aceitar o lugar que a vida tentava me colocar.
Nasci e cresci no interior, em uma cidade pequena onde todo mundo conhecia todo mundo. Morava com meus pais e meu irmão, Lucas.
Nossa vida era simples.
Não tínhamos luxo, mas nunca nos faltou amor.
Até que uma oportunidade mudou tudo.
Lucas e eu conseguimos uma bolsa de estudos para uma faculdade na cidade grande. Meus pais fizeram o possível para nos ajudar a começar uma vida nova. Juntamos nossas coisas e deixamos para trás a cidade onde crescemos.
No começo, tudo parecia perfeito.
Até Lucas começar a se deslumbrar com a liberdade.
Ele começou a faltar às aulas, conheceu pessoas novas, passou a chegar tarde em casa e, quando percebemos, tinha perdido a bolsa.
Eu continuei firme.
Não podia fazer o mesmo.
Sabia o quanto nossos pais tinham sacrificado para nos dar aquela oportunidade.
Durante a semana, estudo. Nos finais de semana, trabalho fazendo encomendas de bolos, doces e salgados para festas. Não é fácil conciliar tudo, mas eu gosto da minha independência.
Morávamos no Jacarezinho porque foi o único lugar onde encontramos um aluguel que cabia no nosso orçamento.
No início, confesso que tive medo. Eu vinha do interior e tinha uma visão completamente diferente sobre o morro. Mas o tempo me mostrou que eu estava errada em julgar um lugar inteiro. Conheci mulheres que acordavam cedo para trabalhar, pais que lutavam para sustentar os filhos, crianças brincando nas ruas e vizinhos que sempre estavam dispostos a ajudar.
Era ali que eu morava.
E, de certa forma, aquele lugar já tinha virado minha casa.
Naquela tarde, porém, eu não fazia ideia de que tudo estava prestes a mudar.
Saí da faculdade pouco depois das cinco e meia. Estava cansada. Meus livros pesavam dentro da mochila e meus pés doíam depois de um dia inteiro andando de um lado para o outro.
Peguei o ônibus e fiquei olhando pela janela durante o caminho. Quando desci, o céu já estava começando a escurecer. Ajeitei a mochila no ombro e comecei a subir o morro.
Cumprimentei seu Antônio, que estava fechando a porta da mercearia.
— Boa noite, seu Antônio.
— Boa noite, Maju. Faculdade puxada hoje?
— Como sempre.
Ele riu.
— Vai descansar, menina.
Continuei andando. Mais à frente, encontrei Dona Célia regando algumas plantas na porta de casa.
— Boa noite, Maju!
— Boa noite!
Era assim quase todos os dias. Eu conhecia os rostos pelo caminho. Alguns moradores me viram chegar meses atrás, com duas malas e uma caixa cheia de livros. Hoje, já faziam parte da minha rotina.
Quando virei a esquina, ouvi alguém me chamar.
— Maju!
Olhei para trás. Era Laila, minha melhor amiga.
— Finalmente!
— O que você está fazendo aqui?
— Esperando você.
— Esperando por quê?
Ela começou a caminhar ao meu lado.
— Precisava te contar uma coisa.
— Lá vem você...
— É sério.
— Quando você fala assim, normalmente não é.
Ela riu.
— Você ficou sabendo do Dom?
Meu passo diminuiu.
— O Dom?
— É.
— O dono do morro?
— Ele mesmo.
— O que tem ele?
Laila olhou ao redor antes de responder.
— Dizem que ele está procurando uma mulher.
— Para quê?
Ela me lançou um olhar significativo.
— Para ser barriga de aluguel.
Parei por um instante.
— O quê?
— É isso mesmo.
— Laila, você está maluca?
— Estou falando sério.
Voltamos a caminhar.
— Dizem que ele está disposto a pagar uma bolada para a mulher que aceitar.
Arqueei a sobrancelha.
— Uma bolada?
— Uma fortuna.
Soltei uma risada desacreditada.
— Isso é uma loucura.
— Eu também acho.
— Então por que está me contando?
— Porque não é qualquer mulher que ele quer.
Olhei para ela.
— Como assim?
— Dizem que ele escolheu algumas condições. Quer uma mulher saudável, discreta e que aceite todas as condições do contrato.
— Meu Deus...
— E parece que ele recusou várias.
Balancei a cabeça.
— Eu não consigo nem imaginar uma pessoa aceitando isso.
Laila deu de ombros.
— Quando o dinheiro é muito, você sabe como é.
— Não sei, não.
— Você não faria?
— Não.
Respondi tão rápido que ela riu.
— Nem se fosse uma fortuna?
— Nem assim.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Chegamos diante da minha casa. Coloquei a mão no portão.
— Eu prefiro trabalhar até minhas costas quebrarem.
Laila sorriu.
— Eu sabia que você diria isso.
— Porque é verdade.
Meu celular tocou.
Parei antes de abrir o portão e olhei para a tela. Número desconhecido.
— Quem será?
— Atende.
— Deve ser algum cliente.
Apertei para atender.
— Alô?
A voz do outro lado era séria.
— É a Maria Júlia?
— Sim.
— Você é irmã do Lucas?
Meu coração apertou imediatamente.
— Sou. Por quê?
Houve uma pausa curta.
— Estou ligando para informar que ele foi detido e está na delegacia.
Meu corpo ficou imóvel.
— Como assim?
— Seu irmão foi conduzido após ser acusado de furto. Precisamos que um familiar compareça.
— Furto?
Minha voz falhou.
— Onde ele está?
A pessoa passou o endereço. Eu m*l consegui acompanhar.
— Ele está bem?
— Precisamos que um familiar compareça à delegacia.
A ligação terminou.
Fiquei olhando para o celular, sem reação.
— Maju?
Não respondi.
— Maju, o que aconteceu?
Virei para Laila. Minha garganta fechou.
— É o Lucas.
— O que tem ele?
— Ele foi preso.
— O quê?
— Disseram que ele foi preso por furto.
Laila ficou pálida.
— Meu Deus.
Tirei a mochila das costas e entreguei para ela.
— Segura isso.
— Maju, onde você vai?
— Para a delegacia.
— Eu vou com você.
— Não.
— Maju...
— Fica aqui. Eu preciso ir.
— Mas você está sozinha!
Já estava descendo a rua.
— Eu te ligo!
— Maju!
Não olhei para trás. Só conseguia pensar no meu irmão.
Lucas.
Preso.
Aquela palavra parecia impossível.
O desespero tomou conta de mim, e eu corri sem saber exatamente o que fazer, apenas sabendo que precisava chegar até ele.