LUCAS NARRANDO
Me chamo Lucas. Tenho vinte e quatro anos, pele clara, e um jeito de sorrir que, segundo minha mãe, sempre me tirou de mais confusão do que eu merecia.
Dessa vez, não vai adiantar sorriso nenhum.
Vim do interior com minha irmã, a Maju, pra fazer faculdade aqui na cidade. Era pra ser o começo de uma vida nova pros dois. Minha mãe chorou o dia inteiro antes da gente viajar, meu pai fez questão de repetir um milhão de vezes pra eu não decepcionar ele, e eu jurei que ia estudar direito, formar, voltar pra casa com um diploma debaixo do braço.
Não foi bem isso que aconteceu.
As coisas aqui são bem diferentes de onde a gente morava. Lá no interior, todo mundo se conhece, todo mundo se cuida, ninguém deixa ninguém se perder de vez. Aqui, a cidade é grande, é anônima, e tem gente, festa e substância em cada esquina esperando pra engolir quem não tem raiz fincada.
Eu não tinha raiz nenhuma.
Me deslumbrei. Não vou mentir nem inventar desculpa bonita. Conheci mulher, conheci bebida, conheci gente que sabia falar bonito sobre coisa que eu nunca tinha visto na vida. E, aos poucos, fui entrando também nas drogas.
A Maju nunca soube.
Ela sempre foi certinha demais, focada demais, trabalhando os fins de semana inteiros fazendo salgado e doce pra pagar as contas enquanto eu ia embora de casa, mentindo que tava na biblioteca, que tava estudando em grupo, que tava resolvendo trabalho da faculdade. Mentira atrás de mentira, tão bem contada que até eu mesmo quase acreditava.
A verdade é que eu virei viciado.
Não da noite pro dia. Foi devagar, do jeito que essas coisas costumam ser — uma vez no fim de semana virou duas, virou toda semana, virou todo dia. E, quando percebi, já não conseguia mais passar muito tempo sem.
Tentei comprar fiado com os moleques do Dom, aqui do nosso morro. Não deu certo. O Dom é conhecido justamente por isso — não deixa ninguém vender fiado, não importa quem seja, não importa a desculpa. Regra é regra pra ele, e os vapores sabem que descumprir regra dele é sentença de morte.
Foi aí que a rapaziada que eu andava começou a me levar pra outro morro, mais afastado, onde tinha gente disposta a vender fiado sem tanta rigidez. Comecei a comprar lá.
E aí o vício me devorou de vez.
Fui acumulando dívida sem perceber o tamanho do buraco que eu tava cavando. Cada semana um pouco mais, sempre prometendo pagar depois, sempre adiando, sempre convencido de que ia dar um jeito antes que virasse problema sério.
Virou.
Quando o dono de lá botou os números na mesa, eu quase não conseguia respirar direito. Era uma dívida grande demais pra um moleque que nem emprego fixo tinha. Falei que ia arrumar, implorei mais um pouco de prazo, mas ele não quis nem saber de conversa.
Mandou me darem uma surra.
Foi isso que deixou meu rosto do jeito que a Maju viu na delegacia. Cada hematoma, cada corte, foi recado — recado de que aquilo não era brincadeira, e que o próximo passo, se eu não pagasse, ia ser bem pior do que um rosto machucado.
Me deram vinte e quatro horas.
Vinte e quatro horas pra levar a grana ou ele terminaria o serviço.
No desespero — e digo desespero porque não existe outra palavra que descreva o que eu senti naquela noite, tentando pensar em qualquer jeito de arrumar dinheiro rápido — acabei tentando roubar uma joelheira. Não pensei direito. Não planejei nada. Só vi a vitrine, vi a peça, e a cabeça já viciada, já desesperada, decidiu por mim antes que eu conseguisse pensar nas consequências.
Fui pego na hora.
E foi assim que acabei aqui dentro, deixando minha irmã no desespero do outro lado das grades, chorando por um irmão que não merecia tanta preocupação.
Sei que fui moleque. Sei que fiz besteira atrás de besteira, que decepcionei todo mundo que confiou em mim, que arrastei a Maju pra dentro de uma bagunça que era só minha. Mas vício a gente não controla do jeito que gostaria. Eu queria muito ser capaz de simplesmente parar, de virar as costas para aquilo, só que não é assim que funciona. A vontade fica maior que a razão, e antes que a gente perceba, já tá enterrado fundo demais pra sair sozinho.
E o pior de tudo — o pensamento que não me deixava dormir naquela cela fria — era saber que o prazo continuava correndo mesmo eu estando preso. Estando aqui dentro ou não, se eu não chegasse com aquela grana no prazo que foi dado, ele ia me matar.
Não sabia como a Maju ia conseguir juntar o dinheiro da fiança. Mas se ela conseguisse, eu tinha decidido: ia fugir com ela desse lugar antes que meu prazo terminasse. Não tinha mais outra saída. Ficar aqui era esperar a morte chegar de um jeito ou de outro.
Passei horas deitado naquele beliche duro, pensando na merda que eu tinha feito, revivendo cada escolha errada que me trouxe até ali, até que um policial bateu na grade.
— Tá livre, moleque.
Fiquei parado por um segundo, achando que tinha ouvido errado.
Depois levantei rápido, o coração disparando.
Porra. Não tava nem acreditando. A Maju tinha conseguido.
Saí daquele lugar sem olhar para trás. Assinei o que precisava assinar na saída, com o acompanhamento do advogado que já esperava lá fora, e fomos embora.
O advogado me deu carona até a entrada do morro. No caminho, ficou quieto a maior parte do tempo, só olhando para a estrada. Perto de chegar, me deu um conselho — falou pra eu pensar direito na vida que eu tava levando, que nem toda sorte se repete duas vezes — e foi embora depois de me deixar.
Subi o morro rápido, quase correndo. Doido pra ver a Maju. A gente tinha que fugir dali o quanto antes, antes que o prazo terminasse, antes que aquele homem mandasse alguém atrás de mim de novo.
Quando cheguei em casa, bati na porta.
A Maju abriu.
Quando me viu, me abraçou forte, com uma força que eu não esperava vindo de alguém do tamanho dela.
— Graças a Deus, Lucas! Já tava nervosa, achando que não tinha dado certo.
— Calma, Maju. Tá tudo certo. Eu tô aqui.
Ela se afastou só um pouco, segurando meu rosto entre as mãos, examinando os machucados, e então a expressão dela mudou. Ficou mais dura.
— O que deu em você pra roubar, Lucas? Você não precisa disso.
— Maju, olha pra mim e escuta. Eu vou te contar tudo, mas agora a gente precisa sair daqui rápido.
Ela franziu a testa.
— Sair pra onde, Lucas? Tá doido? O que você aprontou agora?
Respirei fundo. Não tinha mais como enrolar.
— Maju, eu tô devendo trinta mil de droga. No morro vizinho.
Ela me olhou sem acreditar, como se as palavras tivessem levado um tempo pra fazer sentido dentro da cabeça dela.
— Você... o quê, Lucas? Você tá falando sério?
— Tô, Maju.
— Você tá usando essas porcarias, Lucas? Eu não acredito nisso.
A voz dela quebrou no meio da frase, e aquilo doeu mais do que qualquer surra que eu tinha levado.
— Maju, eu sei que tô todo errado. Mas se a gente não sair daqui agora, eles vão me matar. E pode fazer alguma coisa com você também.
— Eu não vou a lugar nenhum.
— Mas...
— Mas nada, Lucas. Escuta bem o que eu vou te dizer.
Ela ficou parada na minha frente, os olhos vermelhos, mas a voz mais firme do que eu já tinha ouvido dela em muito tempo.
— Eu vou te dar esse dinheiro. Você vai pagar essa dívida, e vai voltar pro interior. Tá me ouvindo?
— Mas de onde você vai tirar esse dinheiro?
Ela hesitou. Só um segundo. Depois respirou fundo, como quem tá prestes a confessar algo que pesa.
— Eu tive que fazer uma loucura para te tirar da cadeia. Me ofereci para ser barriga de aluguel do Dom.
Fiquei parado, processando aquilo devagar.
— Barriga de aluguel... do Dom?
— É, Lucas. Para o Dom. O dono do morro. Tá satisfeito? Você só me arruma problema.
Ela falou aquilo com um misto de raiva e cansaço que eu nunca tinha visto nela antes, e saiu caminhando pro quarto sem esperar minha resposta.
Fiquei ali parado na sala, ainda sem acreditar direito no que tinha acabado de ouvir. Minha irmã. A Maju. Que sempre foi a mais certa, a mais responsável, a que nunca deixava a peteca cair — tinha ido até o homem mais temido desse morro e fechado um acordo daqueles pra me salvar.
Uma parte de mim sentia uma culpa gigante, do tamanho de tudo que eu tinha causado.
Mas, no fundo, num canto meio torto da minha cabeça que eu não tenho orgulho de admitir, veio também outro pensamento.
Então quer dizer que agora o Dom ia ser meu cunhado.
E eu ia ter muitos privilégios com isso.