MARIA JÚLIA NARRANDO
Saí daquela boca de fumo em passos rápidos, quase corridos, apertando o envelope contra o peito como se ele fosse desaparecer se eu afrouxasse os dedos por um segundo.
O peso dele nas mãos ainda não fazia sentido pra mim.
Desci o resto do morro sem olhar para ninguém, sem cumprimentar seu Antônio, sem parar para conversar com Dona Célia. Só conseguia pensar em chegar em casa antes que alguma coisa acontecesse — antes que alguém percebesse o que eu tava carregando, antes que a realidade do que eu tinha acabado de fazer me alcançasse no meio da rua e me derrubasse ali mesmo, na frente de todo mundo.
Cheguei em casa, destranquei a porta com as mãos tremendo e entrei rápido, trancando tudo atrás de mim. Atravessei a sala e fui direto pro quarto. Fechei a porta.
Só então respirei.
Foi um respirar fundo, cheio, o tipo de respiração que a gente segura sem perceber quando o corpo inteiro tá em alerta. Encostei as costas na porta e deixei o ar sair devagar, enquanto minha cabeça começava, finalmente, a processar o que tinha feito.
Eu tinha ido até o Dom.
Eu tinha me oferecido pra ser barriga de aluguel do homem mais temido desse morro.
Eu tinha assinado um contrato sem nem ler.
A ficha ia caindo aos poucos, como se cada pensamento precisasse de um tempo pra encontrar espaço dentro de mim. Uma parte de mim gritava que aquilo era loucura, que eu tinha acabado de vender um pedaço enorme da minha vida por dinheiro, que eu nem sabia direito no que eu tinha me metido.
Mas outra parte — mais forte, mais teimosa — lembrava do rosto machucado do Lucas. Lembrava da voz dele tremendo atrás das grades.
"Se eu continuar aqui, vão me matar."
Não tinha mais volta.
E, de um jeito estranho, isso quase trazia um alívio no meio de todo aquele caos.
Fui até a cama, sentei na beirada e, com as mãos ainda meio trêmulas, abri o envelope.
Espalhei o dinheiro sobre o lençol.
Fiquei parada, olhando aquilo por um tempo, sem conseguir acreditar no que via. Eram maços e maços de notas de duzentos, empilhados uns sobre os outros, mais dinheiro junto do que eu já tinha visto na vida inteira — mais do que meus pais provavelmente já tinham juntado numa vida inteira de trabalho duro.
Comecei a contar.
Separei os maços, fui somando em voz baixa, tentando manter a linha de raciocínio. Só que, no meio da contagem, me perdi. Recomecei. Me perdi de novo, as mãos ainda tremendo demais pra segurar tanto dinheiro com firmeza.
Respirei, me obriguei a ir mais devagar, e contei uma terceira vez, dessa vez com calma, separando montinho por montinho em cima do lençol.
Duzentos mil reais.
Fiquei olhando para aquele número, repetindo ele na cabeça como se, de tanto repetir, ele fosse fazer mais sentido. Duzentos mil reais. Um valor que eu nunca tinha sonhado em ter nas mãos, muito menos em cima da minha própria cama, numa casa simples de aluguel no meio do Jacarezinho.
Não fiquei olhando por muito tempo. Não podia.
Separei vinte mil reais — o valor exato da fiança, nem um centavo a mais — e guardei dentro da minha bolsa, num compartimento interno que eu fechei com cuidado redobrado.
O resto voltou pro envelope.
Levantei, peguei a mala velha que ficava em cima do guarda-roupa, guardei o envelope lá dentro, no fundo, embrulhado numa blusa para disfarçar o volume, e coloquei a mala de volta no lugar de sempre.
Só depois disso peguei o celular.
Liguei para o advogado. A ligação foi rápida, direta — eu não tinha paciência nem cabeça pra rodeios naquele momento.
— Doutor, consegui o dinheiro.
Ouvi o alívio na voz dele do outro lado.
— Já?
— Já. Estou indo te encontrar agora.
Desliguei antes que ele pudesse perguntar como.
Peguei a bolsa, ajeitei a alça no ombro e fiquei parada por um instante na porta do quarto, olhando para o nada, antes de sair.
"Só espero que o Lucas tome jeito depois disso", pensei, e aquele pensamento veio carregado de um peso que eu não soube nomear direito. Não era só esperança. Era quase uma cobrança silenciosa que eu fazia pro meu irmão, um pedido mudo pra que tudo aquilo que eu tinha acabado de fazer não fosse em vão.
Saí de casa.
O caminho até o ponto de encontro com o advogado pareceu mais curto do que o normal — talvez porque minha cabeça tava tão cheia que nem percebi direito o trajeto. Quando cheguei, ele já me esperava.
— Aqui está — falei, entregando o dinheiro.
Ele conferiu o valor rapidamente, guardou numa pasta e assentiu.
— Vou fazer os trâmites agora mesmo. A papelada eu entrego para você depois. Se não houver nenhum imprevisto, a ordem de soltura deve ser expedida ainda hoje.
— Hoje?
— Hoje.
Senti um misto de alívio e ansiedade tomar conta do meu peito.
— Muito obrigada, doutor.
— Vá com calma, Maria Júlia. Logo o Lucas estará em casa.
Assenti, sem confiança para falar mais nada, e voltei pra casa com passos mais leves do que os de antes — não porque o peso tinha diminuído, mas porque, pela primeira vez em vinte e quatro horas, eu sentia que finalmente tinha feito alguma coisa.
Cheguei em casa e me joguei no sofá, exausta de um jeito que não era só físico.
Fiquei ali, olhando para o teto, revivendo cada detalhe do dia. A ligação da delegacia. O rosto machucado do Lucas. A audiência no fórum. A conversa com Laila que voltou à minha cabeça no momento certo — ou errado, ainda não sei dizer qual das duas. A subida até a boca. O olhar do Dom me avaliando de cima a baixo enquanto eu assinava aquele contrato sem nem saber direito no que tava me metendo.
Métodos naturais.
A frase dele voltou como um eco incômodo, mas empurrei aquele pensamento pra depois. Não tinha espaço na minha cabeça pra mais nada naquele momento além de uma única coisa.
Fiquei ali, esperando, contando os minutos, ansiosa como nunca tinha ficado antes, o coração disparando a cada barulho de porta se abrindo na rua, a cada passo que parecia se aproximar de casa.
Só queria uma coisa.
Ver meu irmão entrar por aquela porta.