CAPÍTULO 4

1276 Words
CONTINUAÇÃO... A porta se abriu e ela entrou. — Com licença. A voz saiu meio travada, contida, como quem se esforça pra parecer mais segura do que realmente está. Reparei na hora. Maju tava nervosa. Os dedos apertavam a alça da bolsa com mais força do que o necessário. Os olhos não paravam quietos em um único lugar, e o jeito como entrou no escritório, com passos curtos e hesitantes, denunciava tudo o que a postura tentava esconder. Fiquei parado atrás da mesa, sem levantar e sem oferecer uma cadeira. Não era frieza gratuita. Era meu jeito de trabalhar. Quem entrava na minha sala com um pedido entrava sabendo que, ali, quem mandava era eu. — Fala — disse, direto. — O que você quer comigo? Ela respirou fundo antes de responder. — Fiquei sabendo do contrato. Ergui uma sobrancelha. — Que contrato? Ela engoliu em seco. — O contrato de barriga de aluguel. — E? — Vim me oferecer. Fiquei olhando pra ela por alguns segundos. Talvez tempo demais, porque ela começou a se mexer no lugar, claramente incomodada com o silêncio. Confesso que aquilo me pegou de surpresa. Maju nunca foi o tipo de mulher que eu imaginaria pra esse acordo. Não porque não servisse. Pelo contrário. Ela era exatamente o perfil que eu tinha descrito quando coloquei minhas exigências: saudável, discreta, sem escândalos, sem histórico de confusão no morro. Uma mulher que parecia ter a vida própria. Estudava. Trabalhava. Não vivia metida em problema. Justamente por isso, eu nunca imaginei que ela fosse aceitar. Mulher como Maju costuma ter os pés fincados no chão. Sonhos. Planos. Uma vida pela frente. Não costuma colocar o próprio corpo à disposição de um homem como eu em troca de dinheiro. E ali estava ela. Na minha frente. Se oferecendo. Mantive o rosto fechado. Não era bom deixar ninguém enxergar o que eu estava pensando. Muito menos demonstrar interesse rápido demais. Interesse rápido demais é fraqueza. E fraqueza é a primeira coisa que esse mundo aprende a explorar. — Vou pensar se você serve — falei, sem tirar os olhos dela. — Agora pode sair. Era mentira. Eu já sabia que ela servia. Mas não ia mostrar isso. Homem desesperado por um acordo perde poder de barganha. E eu não cheguei até aqui sendo um homem desesperado. Ela, no entanto, não se moveu. Em vez disso, deu um passo à frente. — Por favor... A voz saiu mais apertada agora. Quase um pedido. — Você pode me dar a resposta agora? Ela respirou fundo. — Eu preciso muito desse dinheiro. Aquilo mudou alguma coisa. Passei a prestar mais atenção nela. Não era qualquer coisa que fazia uma mulher como ela largar o orgulho e praticamente implorar na frente de um homem que m*l conhecia direito. Alguma coisa tinha acontecido. Alguma coisa séria. Mas eu não perguntei. Ainda não. Preferi seguir por outro caminho. — E tu sabe quanto eu estou oferecendo? Ela hesitou por um instante. — Eu só preciso de vinte mil. Vinte mil. Um número exato. Direto. Sem enrolação. Não pediu a quantia toda que eu havia colocado no acordo. Só o que precisava. Aquilo me chamou atenção. A maioria das mulheres que tinha aparecido nos últimos dias estava interessada na bolada inteira. Maju não. Ela tinha um número específico na cabeça. O que significava que o dinheiro tinha destino certo. — E pra que tu quer esse dinheiro? — É um motivo pessoal. Respondeu rápido. Cortou o assunto na mesma hora. Não insisti. Cada um tinha direito aos próprios motivos. Eu, mais do que ninguém, sabia o peso de não querer explicar suas dores pra um estranho. Peguei o contrato que já estava separado sobre a mesa, junto com uma caneta. — Lê. Coloquei o documento na direção dela. — Se estiver de acordo, assina. Ela nem abriu. — Eu não preciso ler. Franzi a testa. — Como é? — Eu aceito. Aquilo me surpreendeu novamente. A pressa em assinar sem sequer conferir as cláusulas dizia muito sobre o tamanho do desespero dela. E, apesar de eu não gostar de gente desesperada assinando algo que não leu, não falei nada. Ela tinha vindo por vontade própria. — Então assina. Maju pegou a caneta e se curvou sobre a mesa. Fiquei observando enquanto ela assinava. Os cachos caíam pro lado do rosto, soltos, indisciplinados, como se tivessem vontade própria. A boca tava franzida de concentração. Foi só então que reparei melhor nas curvas do corpo dela. Bonita. Essa foi a primeira palavra que me veio à cabeça. Não era a primeira vez que eu reparava em uma mulher bonita. Mas fazia muito tempo que uma mulher não conseguia tirar meus pensamentos do lugar. Desviei os olhos. Não gostei da sensação. — Pronto. A voz dela me trouxe de volta. Maju endireitou o corpo e devolveu a caneta. Peguei o contrato. Conferi página por página. Assinaturas. Rubricas. Tudo no lugar. Satisfeito, levantei. Fui até o cofre atrás da estante e abri. Comecei a separar o dinheiro. Um maço. Depois outro. Mais um. — Eu só preciso de vinte mil — ela comentou, observando a quantidade. — Tu vai levar o valor que tá no contrato. Continuei contando. — Trato é trato. Ela ficou quieta. Terminei de contar, coloquei o dinheiro dentro de um envelope e entreguei a ela. Maju segurou o envelope com as duas mãos. — Toma cuidado — falei, sério. — Não fica dando mole por aí com esse dinheiro. Ela assentiu. Virou e caminhou em direção à porta. — Deixa tuas coisas arrumadas — falei antes que ela saísse. Ela parou. — Por quê? — Amanhã vão passar pra te buscar. Ela se virou lentamente. — Me buscar? — Tu vai morar lá em casa. Os olhos dela se arregalaram. — Mas eu pensei que seria só depois do procedimento. Soltei uma risada curta. — Que procedimento, garota? Ela ficou me olhando, confusa. Então pareceu entender. — Você não está falando sério... Cruzei os braços. — Meu filho vai ser gerado pelo método que eu determinei. O rosto dela perdeu a cor. — Mas... — Mas nada. Apontei para o contrato sobre a mesa. — Tu assinou. Ela ficou parada. — Eu achei que... — Achou errado. Vi a confusão tomar conta do rosto dela. Talvez ela tivesse imaginado que aquele seria um acordo simples. Dinheiro. Gravidez. Fim. Mas comigo não funcionava assim. — A partir de amanhã, tu vai ficar sob o meu teto durante o período que for necessário. Ela apertou o envelope contra o corpo. — Eu não sabia disso. — Tava no contrato. Ela olhou pros papéis sobre a mesa. Pela primeira vez, pareceu se arrepender de não ter lido. — Eu... — Agora vaza. Maju ficou me encarando por alguns segundos. Depois virou as costas. Dessa vez, saiu com passos mais pesados do que quando entrou. Esperei a porta fechar. Só então voltei a olhar pro contrato. O nome dela tava ali. Maria Júlia. Maju. A mulher que eu nunca imaginei escolhendo entrar naquele acordo. A mulher que tinha aparecido na minha frente precisando de dinheiro com uma urgência que eu ainda não entendia. E, pela primeira vez desde que tive aquela ideia, senti que aquele acordo talvez não fosse ser tão simples quanto eu tinha imaginado. Mas uma coisa tava certa. O papel tava assinado. O dinheiro tava nas mãos dela. E, a partir daquele momento, cada cláusula daquele contrato seria cumprida. Palavra por palavra. Cláusula por cláusula. Eu só não sabia que, enquanto eu achava que tava controlando aquele acordo, Maju já tinha começado a bagunçar uma parte de mim que eu mantinha trancada havia anos.
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