CAPÍTULO 3

1201 Words
DOM NARRANDO Meu nome é Domênico. Mas faz tempo que ninguém me chama assim. Aqui em cima, todo mundo me conhece apenas como Dom. Tenho vinte e nove anos, um metro e oitenta e seis e um corpo marcado por histórias que eu não gosto de contar. Uso os cabelos raspados nas laterais, a barba sempre alinhada e um jeito de olhar que, segundo dizem, gela até quem não me deve nada. Não nasci assim, frio. Fui feito. Minha mãe morreu no dia em que eu nasci. Complicações no parto, disseram. Eu nunca ouvi a voz dela. Nunca senti seu colo. Nunca soube o que era ter uma mãe. Cresci sabendo apenas que minha chegada ao mundo tinha custado a vida de alguém. E esse é um peso que ninguém deveria carregar desde pequeno. Mas eu carreguei. Fui criado pelo meu pai. Um policial. Só que não desses que a comunidade respeita. Meu pai vestia farda durante o dia e vendia proteção durante a noite. Fechava os olhos pra quem pagava, batia em quem não tinha como pagar e usava o distintivo como quem usa uma faca: pra ameaçar, extorquir e conseguir o que queria. Cresci vendo dinheiro sujo passar de mão em mão dentro de casa. Homens entrando de madrugada pra "resolver umas paradas" com ele. E vi minha própria criação virar moeda de troca. Ele nunca me bateu por raiva. Batia por método. Achava que estava me ensinando a ser homem. Só me ensinou a não confiar em ninguém. Fugi de casa aos catorze anos. Não levei nada além da roupa do corpo e uma raiva que eu nem sabia nomear direito. Fui parar na boca porque foi o único lugar que me deu comida, teto e um motivo pra levantar da cama no dia seguinte. Comecei como vapor. Entregando droga. Decorando esquina. Aprendendo a reconhecer rostos de longe. Depois passei pra outras funções. Fui subindo. Cada função que eu assumia, eu assumia inteiro. Nunca fiz nada pela metade. Nunca dei motivo pra desconfiarem de mim. O chefe da época era Seu Ronaldo. Um dos únicos homens que eu realmente respeitei nessa vida. Ele não tinha filhos. Dizia que eu tinha "cabeça fria e coração ocupado". Segundo ele, era exatamente o que faltava pra comandar aquilo tudo sem deixar a bagunça tomar conta. No dia em que me chamou pra conversar, eu já sabia que alguma coisa ia mudar. — Domênico — ele falou, sério, daquele jeito que só ele conseguia ser —, chegou minha hora de descansar. E eu não vou entregar esse morro pra qualquer um. — Seu Ronaldo... — Vou entregar pra você. Lembro do peso daquelas palavras até hoje. — Eu sempre te olhei como filho — ele completou. — Não me decepciona. Jurei pra ele, naquele momento, que não ia decepcionar. E não decepcionei. Assumi o comando e fiz tudo do meu jeito. Aqui, quem trabalha comigo sabe: lealdade se paga com respeito. Traição tem consequência. Não existe espaço pra moleza. Mas tem uma coisa que Seu Ronaldo me disse naquele dia que ficou martelando na minha cabeça desde então. — Você teve pai, Domênico. Só que teve o errado. Um dia, se Deus quiser, você vai ser o certo pra alguém. Eu ri na hora. Disse que filho não estava nos meus planos. Mentira. A vontade de ser pai continua crescendo dentro de mim. Quietinha. Teimosa. Como fogo aceso debaixo da terra, que não desaparece só porque ninguém consegue enxergar. Eu quero criar um moleque diferente do que eu fui criado. Quero ensinar sem usar a mão fechada. Quero que ele saiba, desde pequeno, que tem valor. Coisa que eu só fui descobrir sozinho, na marra, no meio da rua. Só que ser pai de verdade não é apenas gerar. É criar. É ficar. E eu não confio em mim pra ser o tipo de homem que consegue ficar ao lado de uma mulher do jeito que ela merece. Não sei ser o parceiro que elas sonham. Não sei prometer amanhã. Aprendi cedo que apego é uma fresta. E fresta é onde a vida entra pra te cortar. Por isso vivo do jeito que vivo. Sem compromisso. Sem raiz. Sem promessas. Sempre deixei claro pras mulheres que passam pela minha vida que ali não existe amor. Prefiro ser sincero e parecer frio do que mentir e quebrar o coração de alguém que não tem culpa da minha história. Foi por isso que tive a ideia. Se eu não consigo — ou simplesmente não quero — construir uma família do jeito tradicional, eu construiria do meu jeito. Um acordo. Dinheiro alto em troca de uma mulher disposta a gerar meu filho e, depois, seguir a própria vida. Sem correntes. Sem cobranças. Sem fingir sentimentos que não existem. Simples assim. Ou era isso que eu pensava. Coloquei minhas exigências. E não foram poucas. Quero uma mulher saudável, discreta, sem vícios, responsável e que entenda exatamente o que está aceitando. Nada de exposição. Nada de fofoca. Nada de aparecer depois querendo transformar o acordo em outra coisa. Sou exigente mesmo. Sempre fui. Quem me conhece sabe que não abro mão facilmente do que decido. Nesse caso, eu tinha decidido que faria aquilo do jeito certo ou não faria. O problema é que mulher disposta a entrar em um acordo desses não aparece todo dia. Faz três dias que a notícia começou a circular pelo morro, de maneira discreta, através de gente de confiança. Até agora, algumas mulheres apareceram. Mas nenhuma serviu. Umas estavam interessadas apenas no dinheiro. Outras queriam saber quanto receberiam antes mesmo de ouvir qualquer condição. E algumas simplesmente não tinham o perfil que eu procurava. Comecei a pensar que talvez aquela ideia não fosse dar certo. Hoje de manhã, eu estava no escritório do QG, resolvendo umas questões financeiras e conferindo alguns números, quando o rádio em cima da mesa chiou. Reconheci a voz do vapor da entrada. — Chefe? Peguei o rádio. — Fala. — A Maju tá aqui querendo falar com o senhor. Parei o que estava fazendo. Maju. Confesso que aquilo me pegou de surpresa. Conheço ela de vista. De ouvir falar. Não tem quem more nesse morro há mais de seis meses e nunca tenha ouvido falar da menina certinha que desce cedo pra faculdade e sobe tarde carregada de livros. Sempre andando na dela. Sempre educada com todo mundo. Sem se meter em confusão. Sem participar de fofoca. Do tipo que a gente respeita só de olhar de longe. E agora ela estava ali. Na porta da minha boca. Fiquei imaginando o motivo. Não era da natureza dela aparecer em um lugar daqueles. Alguma coisa muito forte tinha que ter acontecido pra Maju deixar a postura de sempre de lado e vir bater na minha porta. Segurei a curiosidade. Não deixei nada transparecer na voz. — Deixa ela entrar. Larguei o rádio sobre a mesa e me ajeitei na cadeira. Meus olhos ficaram presos na porta. Eu não fazia ideia do que vinha a seguir. Só sabia de uma coisa: fosse o que fosse que Maria Júlia tivesse pra falar comigo, eu ia escutar com atenção. Porque uma garota como ela não sobe até aqui à toa.
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