CAPÍTULO 05

1004 Words
O fim da tarde finalmente chegava e com ele o fim do expediente de trabalho e Juliana poderia subir o morro, pelo o que tinha visto na televisão pela manhã as coisas tinham sido resolvidas e ela poderia voltar em paz, sabendo que seus pais e que os poucos amigos da infância que tinham permanecido no lugar estariam vivos e que durante um tempo poderia dormir tranquila, pois eles nunca faziam duas operações seguidas, nem os policiais e nem os traficantes, era como se eles dessem o tempo do luto, para que os seus familiares pudessem chorar por quem havia morrido e planejar a vinganças contra quem os tinha matado, apenas saindo dali era possível quebrar esse ciclo vicioso de ódio e morte que anos após anos acontecia nas comunidades em todas as partes, pois em quase todas as famílias pelo menos uma pessoa servia ao tráfico, portanto em quase toda família tinha morte, o que limitava o índice de vida nas comunidades onde a maioria das pessoas envolvida com o tráfico não viviam mais do que cinquenta anos, no passado eles eram assassinados, mas no presente outro agravante os matava que era o enfarto. Juliana não sabia o motivo, mas a cada dia a mais os velhos do morro iam morrendo e os mais novos passavam a assumir sendo cada vez mais jovens que largavam a escola e caminhavam no tráfico, no morro o sonho da criança era servir ao crime, e se fosse necessário matar e roubar para isso, eles cresciam dispostos a fazê-lo. — Está séria de novo- disse Eduardo aproximando-se- Você está muito misteriosa hoje, não vai me contar o que está acontecendo já estou ficando curioso? — Não é nada de mais, acho que a noite m*l dormida me deixou pensativa, mas e aí você vai à igreja hoje à noite? - Perguntou ela enquanto andavam para o ponto de ônibus. — Estou cansado mas vou sim, você também vai? — Estou meio cansada, desanimada hoje, eu não sei se vou a igreja ou se reponho todo esse sono, a noite foi terrível sabe? Tudo que eu queria era sair daquele lugar e morar numa casa comum, igual uma pessoa comum e não ficar desse jeito, não consegui dormir porque não sei se vou acordar viva, eu não temo morrer, temo deixar os meus pais sozinhos naquele lugar, temo acender a luz e encontrar um dos dois caídos no chão com uma bala alojada em alguma parte dos seus corpos, as coisas são terríveis. Hoje quando estava vindo aqueles corpos que passaram na reportagem estavam lá no meio do baile de comemoração, ou seja, estavam jogados na rua, estavam sujos e roxos a hora que sai para vir trabalhar, eu não entendo como uma pessoa que faz algo desse tipo consegue ficar numa festa como se nada tivesse acontecido e depois dormir tranquilo a noite. — Tem coisa que é melhor não entender mesmo e apenas interceder, por isso a bíblia fala que o amor de muitos esfriaria, uma coisa é ver na televisão e outra é ser nossa realidade, mas você não sai de lá e vem morar perto de mim- disse ele com um sorriso maroto na intenção que ela não levasse como uma brincadeira o que havia dito. - A única coisa que mudaria-disse ela sarcástica- de ir morar perto de você é que não conheço ninguém onde você mora, que diferença faz trocar um morro pelo outro? Que conversa boba. Eles sentaram no ponto enquanto ela bebia agua em sua garrafinha Eduardo não achava que era uma conversa boba, mesmo sabendo que era verdade o fato da violência ser quase o mesmo onde ele morava, a única coisa que mudava era onde estava sua casa, estando num ponto onde quase não havia trocas de tiros, ele pensava que se ela morasse com ele o risco diminuiria, mas ela achava que ele falava de uma casa de aluguel e não de se tornar sua mulher, Eduardo partilhava uma infância parecida com a dela, criado na favela desde que nasceu, mas diferente de Juliana na adolescência ele teve envolvimento com as drogas e o tráfico, saindo apenas quando sua mãe faleceu, ele sentia-se culpado por isso e desde então procurava uma vida diferente, pensando que assim conseguiria amenizar o sofrimento, não apenas dele, mas também de seu velho pai; a mãe tinha morrido de derrame e desde a morte dela o pai nunca mais dirigiu nenhuma palavra se quer ao filho, motivo pelo o qual ele achava que era a causa da morte, que tinha matado a mãe de nervoso. O convívio com ele era estranho, pois os dois moravam numa minúscula casa e não se falavam, congregavam na mesma igreja se esbarravam a toda hora, mas não conversavam e m*l se olhavam, mas ele pensava em ficar com o pai enquanto ele tivesse vida, não pensava em o abandonar, mas pensava em trazer Juliana para morar com eles se um dia ela o quisesse. Eduardo sabia que para que isso acontecesse teria que ter uma casa fora do morro, para ser aceito por ela, mas com se juntasse o salário dos dois até conseguiriam pagar um aluguel, mas não comprariam mais nada, ainda assim ele tinha esperança de que Deus tinha o melhor para os dois, só bastava ela observar que o amor de sua vida estava bem ao seu lado. — Parece que hoje- disse ela sorrindo, enquanto apontava para o ônibus- Você vai primeiro hein. Eduardo olhou para frente e viu que era seu ônibus, sua vontade era de ficar mais tempo com ela, mas ele não sabia se o ônibus dela passaria logo depois do dele, no entanto, se perdesse aquele iria embora só depois de quase uma hora ou mais, ele levantou e depois deu um beijo no rosto dela se despedindo e sentindo um pouco do perfume doce da sua pele macia, pensando em como queria que Juliana percebesse logo o seu interesse nela e entrando no ônibus com esse pensamento.
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