Quando a casa surgiu entre as árvores, Marry diminuiu o passo.
Algo naquela propriedade a incomodava.
Era uma sensação estranha.
Difícil de definir.
Como se algo a observasse em silêncio.
— Há quanto tempo eles vieram para cá? — perguntou ela.
— Oito anos. Talvez mais.
Marry permaneceu pensativa.
— Tempo suficiente para alguém investigar.
— Foi o que pensei.
— A vampira descobriu onde Arthur vivia. Descobriu sua rotina. Esperou o momento ideal. Uma noite de chuva. Poucas testemunhas. Menos rastros.
Thiago assentiu.
Então a bruxa parou.
Os olhos permaneceram fixos na casa.
— Há algo errado.
— O quê?
— A menina.
— Constance?
— Sim.
— O que tem ela?
Marry demorou alguns segundos para responder.
— Se essa vingança foi tão meticulosa... por que ninguém procurou a criança?
Thiago franziu a testa.
— Como sabe que não procuraram?
A bruxa virou-se para ele.
Parecia genuinamente confusa.
— Porque estou ouvindo uma história de planejamento. Não de descuido.
Ela voltou a encarar a casa.
— Você disse que a mãe cuidava da horta próxima ao rio.
— Sim.
— E de alguns animais.
— Sim.
— Arthur trabalhava como lenhador.
— Era o que fazia.
— Então passavam boa parte do tempo isolados.
Thiago assentiu novamente.
Marry permaneceu em silêncio.
Então perguntou:
— Foi escolha sua acomodá-los nesta casa?
— Não.
— De quem foi a decisão?
O alpha respirou fundo.
— De Arthur.
Marry ergueu os olhos.
— Arthur?
— Sim.
— Por quê?
Thiago demorou um instante para responder.
— Ele tomou essa decisão quando soube que seria pai.
O vento agitou os cabelos negros da bruxa.
Seu olhar voltou para a residência.
Naquele instante, uma estranha certeza percorreu seu peito.
Arthur sabia de alguma coisa.
Algo importante.
Algo que jamais revelara a ninguém.
Mas havia algo ainda mais perturbador.
Ao fitar a casa, Marry teve a impressão de ouvir vozes.
Não as vozes recentes dos mortos daquela noite.
Nem as vozes comuns que costumava escutar.
Eram vozes antigas.
Muito antigas.
Algo que não pertencia nem a Arthur, nem a Cindy.
A inquietação cresceu.
Mas ela não comentou nada.
Ainda não.
Ao subirem os degraus da varanda, Marry parou novamente.
Observou os dois lados da propriedade.
O silêncio parecia espesso.
Pesado.
Thiago sentiu um vento gelado atravessar suas roupas.
Seu instinto reagiu imediatamente.
Havia algo ali.
Algo que lhe escapava.
Algo que ainda não compreendia.
Então Marry falou:
— Deixe-me entrar primeiro.
Thiago assentiu.
Ia perguntar o motivo.
Mas a bruxa respondeu antes.
— Há choro dentro da casa.
O alpha ficou imóvel.
Marry continuou:
— E existe um guardião na porta.
Os olhos dela permaneceram fixos na entrada.
— Estou sendo aguardada.
Pela primeira vez desde o m******e, Thiago sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Não era medo.
Era respeito.
Respeito por algo que não entendia.
Marry ergueu uma das mãos.
Pronunciou palavras antigas em uma língua que Thiago não reconheceu.
A porta abriu-se sozinha.
Lentamente.
Sem emitir qualquer ruído.
Thiago deu um passo para trás.
Marry avançou.
Parou no portal.
Permaneceu imóvel por alguns segundos.
Como se observasse alguém.
Ou alguma coisa.
Então entrou.
A porta fechou-se atrás dela.
Sozinha.
Thiago permaneceu do lado de fora.
A bruxa não lhe proibira a entrada.
Mesmo assim, seu instinto dizia para esperar.
Era como se aquele lugar não lhe pertencesse naquele momento.
O peso sufocante que sentira ao chegar começou a desaparecer.
Uma brisa suave e morna passou por ele.
As batidas aceleradas do coração diminuíram.
Então ouviu passos.
Virou-se rapidamente.
Ninguém.
Franziu a testa.
Talvez estivesse impressionado.
Segundos depois ouviu novos passos.
Desta vez atrás de si.
Girou o corpo.
Nada.
O silêncio voltou.
Então alguém bateu na porta.
Três vezes.
Thiago olhou imediatamente.
A varanda estava vazia.
— Que diabos...
Outro ruído.
Desta vez mais próximo.
Como se alguém estivesse caminhando ao seu redor.
Mas ele não via ninguém.
Seu lobo não reagia como reagiria diante de uma ameaça.
Aquilo era o mais estranho.
Não havia perigo.
Ainda assim, havia presença.
Então o vento soprou.
Forte.
Repentino.
Passou por ele como uma carícia.
E por um instante teve a sensação de ouvir uma voz.
Distante.
Suave.
Tão suave que não conseguiu distinguir as palavras.
Apenas uma certeza permaneceu.
Uma sensação.
Uma promessa.
Algo que desapareceu antes que pudesse ser compreendido.
Thiago levou a mão à cabeça.
Sentiu-se estranhamente tonto.
Foi nesse momento que a porta se abriu.
Marry surgiu.
— Alpha.
Ele ergueu os olhos para ela.
— Venha. Já está resolvido.
Os dois passaram a abrir portas e janelas.
A brisa fria do outono atravessou a casa.
Enquanto caminhava pelos cômodos, Marry entoava uma antiga canção em latim.
A melodia parecia levar embora algo invisível.
Quando terminaram, ela observou a sala em silêncio.
Então disse:
— Amanhã, depois que Constance partir, peça que lavem toda a casa com chá de flor de laranjeira.
— E então?
— Ela poderá ser habitada novamente.
Thiago cruzou os braços.
Ainda tentava compreender o que havia acontecido.
— Descobriu tudo?
Marry sorriu discretamente.
— Descobri o suficiente.
Enquanto saiam da casa, Thiago relatou o que experimentara do lado de fora.
Os passos.
As batidas.
A sensação de presença.
A voz.
Ou aquilo que acreditava ter sido uma voz.
Mas por mais que tentasse recordar, não conseguia se lembrar das palavras.
Marry ouviu tudo em silêncio.
Quando ele terminou, ela abaixou o olhar.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Mas não comentou o assunto.
— Vamos ver a pequena Constance — disse apenas. — No caminho contarei o que descobri.
Thiago assentiu.
E os dois seguiram pela trilha.
Depois de algum tempo, Marry começou:
— Arthur e Cindy sabiam que esse ataque aconteceria cedo ou tarde.
Thiago voltou-se imediatamente para ela.
— O quê?
— Os dois estavam preparados.
Ela continuou caminhando.
— Iriam lutar quando a hora chegasse.
O alpha permaneceu em silêncio.
— Não foi por acaso que Arthur pediu para viver afastado da matilha.
Marry suspirou.
— Cindy tentou convencê-lo a ficar mais próximo dos outros lobos.
— E ele recusou?
— Sim.
Ela sorriu tristemente.
— E ela recusou abandoná-lo ou deixá-lo ir embora.
O silêncio durou alguns segundos.
Então completou:
— Se fosse para morrer, morreriam juntos.
Thiago parou de andar.
— Não entendo.
A dor apareceu em sua voz.
— Se ele sabia do perigo, por que não me contou? Por que não confiou em mim? Na matilha? Nos nossos guerreiros?
Marry também parou.
— Porque confiava.
O alpha franziu a testa.
— Foi justamente por confiar que tomou essa decisão.
Ela sustentou seu olhar.
— Se você lutasse ao lado dele, a vampira não teria vindo apenas por Arthur.
Thiago sentiu um aperto no peito.
— Ela viria pela matilha inteira.
Marry assentiu.
— Hoje ela é uma mestre.
O silêncio pesou entre eles.
— Arthur sabia disso.
Ela voltou a caminhar.
— Sabia que era um alvo.
Sabia que estava sendo procurado.
Sabia que ela continuava se movendo.
— Então criou um plano.
Thiago ouviu em silêncio.
— Quando Cindy engravidou, ele começou a preparar tudo.
Esconderijos.
Rotas de fuga.
Formas de protegê-las.
Mas sabia que, se a vampira encontrasse Cindy, encontraria também a filha.
— Então ele aceitou morrer e acabar com a perseguição.
Marry assentiu.
— Para que Constance tivesse uma chance.
O coração de Thiago apertou.
Pela primeira vez compreendeu a dimensão daquele sacrifício.
— E a menina? — perguntou por fim. — Eles não irão procurá-la?
Marry ficou séria.
— Não.
— Como pode ter tanta certeza?
A bruxa demorou alguns segundos para responder.
— Porque ela sempre foi protegida.
— Por Luna?
Marry apenas o observou.
— Os vampiros simplesmente esqueceram dela e já não a enxergam como alvo de vingança.
— Por quê?
O instinto do alpha gritou antes mesmo das palavras deixarem sua boca.
Marry sorriu.
Desta vez havia algo misterioso naquele sorriso.
— Porque a Deusa Luna interviu. Constance tem um propósito.
— Um poder?
— Não.
— Uma bênção?
— Não exatamente.
Ela voltou a andar.
— Apenas um coração tão bom que será capaz de iluminar trevas que muitos acreditam impossíveis de alcançar.
Thiago franziu a testa.
— Isso é um enigma?
— Sim.
Ela olhou para a estrada à frente.
— Mas o importante é que ela não enlouquecerá. Não corre perigo imediato. E precisa deixar esta matilha o quanto antes.
— Por quê?
Marry continuou caminhando.
O vento agitou mais uma vez seus cabelos escuros.
Então respondeu:
— Porque a missão dela já começou.