Capítulo 1: O Chá e um Encontro
Janeiro de 2020
Landon colocou os casacos extras e pegou sua pasta com documentos, antes de trancar a porta do quarto e ser recebido na sala com uma pequena ventania de perguntas.
— Pai, poso ir com você? Dexa! Eu me compoto! Poso? Poso? Poso? Em? Pai?
Landon andou até o sofá e deixou a mala em cima, se abaixou diante do menino pequenino e ruivo, herdeiro de seus traços originais no cabelo e da cor esverdeada dos olhos de sua mãe.
— Trey, já conversamos sobre isso. Sua mãe já deve estar chegando pra te pegar.
— Não quelo ir. Mama é chata.
— Ei, o que eu disse sobre falar assim da sua mãe?
— É feiu.
— Exatamente. Agora dá um beijo no papai.
Trey se aproximou e deu um beijo rápido na bochecha do pai, que o agarrou e encheu-o de beijos e carinho, desmanchando o bico e toda a marra que o pequeno havia feito, dando lugar aos risos e o brilho de alegria nos olhos.
Quando Landon pegou sua pasta, a campainha tocou.
— Trey, vai vestir o casaco e pegar a mochila.
O pequenino foi, resmungando baixinho e batendo os pés.
— Esqueceu como se anda Trey?
— Não papai.
Landon suspirou e foi abrir a porta.
Uma loira de olhos ardentes e sorriso doce o esperava. Tais características não combinavam com a sua verdadeira personalidade.
— Indo trabalhar?
— Sim.
— Faça frio ou faça sol, você sempre está apostos.
Ela balançou os cabelos, mordendo o lábio inferior. Landon deu um leve sorriso, mostrando sua ampla covinha do canto direito de sua bochecha.
— O que posso fazer? Adoro meu trabalho.
— Plonto. Peguei tudo.
— Ótimo, eu acompanho vocês.
Landon segurou a mão do filho e saiu do apartamento, acompanhando-os até o carro preto que aguardava na entrada do prédio.
O mesmo acomodou Trey na cadeirinha e se despediu novamente do filho.
— Se quiser dar um pulo lá em casa mais tarde...
A voz carregada de malícia não passou despercebida. Audrey se aproximou, ajeitando o casaco sobre os ombros de Landon. Ele respirou fundo e recuou um passo, erguendo o olhar para ela.
— Audrey, não vou falar novamente sobre isso. Estamos separados e é melhor assim.
— Viu? Você quem viu a maldade. Era só pra vermos um filme juntos.
— Eu passo, bom fim de semana pra vocês.
Ele se despediu do filho outra vez e caminhou para seu carro, estacionado há poucos metros dali. Entrou, deixou a pasta ao lado e respirou fundo. O ar do carro ficara desligado, afinal o frio que fazia em Manchester era suficiente para aquecê-lo.
Landon observou o carro de Audrey partir e então seguiu rumo ao sentido contrário, para o distrito de Manchester.
Antes de ir para o trabalho, estacionou em frente a cafeteria Leblanc, onde sempre tomava um copo de chá gelado e se deliciava de algumas rosquinhas. Desta vez, quando entrava para fazer seu pedido, olhando distraidamente para o painel de opções, esbarrou-se em uma ruiva de intensos olhos azuis, que segurava um copo com algum líquido que fora derrubado em sua blusa branca.
— Oh meu Deus, desculpe!
— Ah m***a. Não presta atenção por onde anda?
— Deveria fazer a mesma pergunta.
Scarlett ergueu o olhar para o homem que havia derrubado seu chá, e por uma fração de segundos ficou sem palavras. O olhar desafiador com que lhe encarava era o mesmo que ela exibia, mas um leve ar de superioridade também lhe dominava.
Ela levantou uma sobrancelha sugestiva e continuou encarando-o. Se estava pensando que ela abaixaria o olhar para ele por ser homem, estava muito enganado.
— Derruba meu chá e ainda quer ser mau educado?
— Eu pedi desculpa, você quem não ouviu.
— Detetive Archer.
Maryam, melhor amiga de Scarlett, que ficara um pouco atrás para pegar seu pedido, o reconheceu e se aproximou.
— Detetive Thea. É bom ver um rosto amigo.
— Vou no banheiro Maryam, volto já.
Scarlett lançou um olhar mortal para o detetive e em seguida para a amiga, antes de ir ao banheiro.
Landon balançou a cabeça e soltou um suspiro baixo.
— Era só o que me faltava.
Disse baixo, mais para si mesmo do que para a mulher a sua frente.
— O que houve aqui?
Ela perguntou-se, olhando para Scarlett entrando no banheiro e em seguida para Landon.
— Eu esbarrei na sua amiga e derrubei o chá dela. Me ajuda com isso?
— Tá, claro.
Landon fez seu pedido e adicionou o chá que derrubara. Estava pronto antes da mulher voltar do banheiro. Ele deixou na mão de Maryam, que agradeceu e despediu-se, sabendo que o encontraria em alguns minutos no distrito.
Scarlett diminuiu o estrago e cobriu a blusa com o casaco que usava, mas aquela era uma de suas poucas roupas que tinha para trabalhar e, seria difícil achar alguma peça parecida com aquela do mesmo valor.
Ela saiu do banheiro em alguns minutos e encontrou Mary sentada na cadeira, observando as pessoas passarem do lado de fora. Ela respirou fundo e foi até ela.
— Conhece aquele sujeito?
— Colega de trabalho.
— Que infelicidade.
— Ele é legal Scar. Até comprou outro chá pra você.
— Era o mínimo que poderia fazer.
Scarlett bufou e começou a bebericar o líquido, enquanto lia algumas informações anotadas.
Era nova na área de psicologia, tinha terminado a faculdade a menos de dois anos, mas gostava do que fazia.
Depois da infelicidade com Luca, ela tentava viver sua vida, com a dor que aquelas marcas lhe causaram.
Passou um tempo focada nos estudos e trabalhando, morando de favor. Conseguiu uma bolsa de estudos, fez o curso de psicologia e ainda conseguiu concluir um Mestrado em Criminologia com Psicologia Forense, um assunto que sempre lhe interessou bastante. Ela tinha a capacidade de estudar a mente humana e também, o comportamento de pessoas relacionadas a crimes. Que cometeram, sofreram, e até poderia dizer que detectaria comportamentos de possíveis futuros crimes. Isso claro, com a ajuda de outros estudos e pesquisas.
Quem dera tivesse a sabedoria que tinha agora. Jamais teria se relacionado com Luca.
Ou talvez tivesse. Ninguém está isento de cometer erros, nem mesmo Scarlett Erin. E se agarrar a esperança seria exatamente o que ela faria, em prol de um sentimento que ela achou que fosse real e verdadeiro. Mas o amor não fora nada além de mais uma ilusão. Nem mesmo seus pais a amaram, tiveram qualquer demonstração de carinho ou afeto para com ela, quem dirás um estranho que conheceu no começo da adolescência.
E era por isso que jamais permitiria que qualquer outra pessoa atravessasse seu caminho. Estava saturada de sentimentos e pessoas falsas, de se iludir e imaginar um final feliz para sua vida. Nem todos os finais são felizes. E nem todos precisam de um homem para tal. Às vezes basta ter a si mesma.
Mas este era um problema que a própria Scarlett não enxergava. Ela passou os últimos meses aconselhando, orientando, fazendo os mais diversos tipos de pessoas se entenderem e encontrarem seu próprio caminho, mas não compreendia a si mesma.
A marca que seu passado deixou, não estava apenas em sua pele, mas também pintada em seu coração e desenhada em sua alma. Ela se trancara completamente para o mundo, para as pessoas, para qualquer sentimento bom que pudesse vim a ter.
Se ela estivesse consultando alguém, diria que é natural que no início, a mulher fique receosa, com medo, assustada, pois não se sabe em quais pessoas confiar. Se deveria permitir se apaixonar outra vez, se outro homem fará o mesmo. Mas ela sendo ela, prefere deixar tudo trancado. E por um tempo até funcionou. Ela permitiu-se realizar seus sonhos, mas as lembranças jamais a abandonaram, até os dias atuais.
No fundo ela sabia, não nascera para o amor. Seus pais nunca lhe demonstraram amor de verdade. A filha indesejada, que passou a maior parte do tempo na sombra da irmã mais velha e bem sucedida, com sua inteligência e jeito doce de ser.
Mas Scarlett não a culpava. Se não fosse Ariana, na última surra que tomou, a que quase a levou à morte, não estaria mais ali. Não teria tido a chance que muitas mulheres não teve; a de um recomeço.
Por mais que seus pais a venerassem pela incrível pessoa que Ariana era, e a odiassem pelos seus erros e as escolhas que a levou até então, jamais seria ingrata por tudo que a irmã lhe fez, pelo amor que lhe deu, talvez o único verdadeiro que ela conhecesse. E no momento, aquilo bastaria para ela.
— Preciso ir, tem um caso que está preocupando o pessoal e preciso estar lá pra ajudar.
— Claro, vejo você no almoço?
— Se não houver nenhuma morte, quem sabe.
Maryam pegou sua bolsa, despediu-se da amiga com um beijo e saiu.
O dia estava frio, nuvens cobriam o céu, ainda estava cedo, mas a dor em sua espinha dorsal parecia querer lhe indicar que, ela novamente ficaria longas horas em pé, ou sentada na mesa de modo desconfortável em frente ao quadro n***o, tentando identificar se havia alguma falha que o assassino das borboletas deixara mais uma vez.