2:34 mp do dia 4 de janeiro de 2020.
Norman entrava em sua casa, com uma loira belíssima em seus braços. Eles riam alegremente, andando e tropeçando nos móveis.
Ele a levou para o quarto, no total escuro da casa, e lá se divertiram por longos minutos. Quando a bela mulher dormiu, ele foi para a cozinha beber água.
— Se divertindo?
Norman deu um sobressalto e olhou para uma sombra que se ressaltava no escuro. Parada na porta da cozinha, o homem o encarava com certo desdém.
O homem ficara ali, durante todo aquele tempo, aguardando, ansiando. E era isso que ele mais adorava em m***r. A espera, a ânsia pelo ato. O som dos últimos minutos de alegria. Da risada do outro, do gemido, da felicidade absoluta, em seus últimos suspiros de vida.
A expectativa suprida, era uma sensação deliciosa. Tão preciosa quanto o ato de apertar o gatilho, e ver o choque, a vida desvaindo-se, a dor sendo transmitida pelas últimas respostas do corpo.
— Quem é você? O que faz aqui? Eu vou chamar a polícia!
— Shhh. Vai acordar a dama.
O homem acendeu à luz da cozinha, que estava logo ao lado, com uma Colt que estava apontada para Norman.
Naquela fração de segundo, Norman pegou uma faca, mas colocou no lugar de imediato, vendo a arma em sua direção, e o olhar do homem que a segurava.
— Bom menino.
As pernas dele tremiam, a garganta ficara ainda mais seca do que quando se levantou. E ele não fazia ideia do porquê aquele sujeito estava ali, apontando uma arma para ele em sua cozinha. Não devia, não tinha problemas com drogas ou coisas do tipo. Sua vida antiga não voltaria para assombrá-lo. Voltaria?
Respirar era difícil, e raciocinar mais ainda. Ele parou de pensar em motivos para estar naquela situação.
— O-o que você quer? Olha, eu tenho dinheiro guardado no cofre, posso pegar pra você e esqueço que isso aconteceu!
O homem sorriu. Aquilo fez Norman quase se mijar nas calças. Não havia nada mais tenebroso do que aquele sorriso. Que parecia tão doce e cordial, mas era a pura maldade, como a casa doce de bruxas, do João e Maria.
A frase as aparências enganam nunca coube tão bem em um sujeito.
— Você teve o que eu nunca tive. E agora vou tirar tudo de você.
— Do que você está falando? Pelo amor de Deus, me deixa em paz, leva tudo que quiser!
Norman se encolheu no canto da cozinha, choramingando, pedindo clemência com a voz e com o corpo.
O homem ergueu a cabeça sobre ele. Respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, e aproveitou aquele instante. O desespero mediante a morte, a sensação de impotência do outro, que aumentava seu Poder sobre o destino daquele homem, tudo parecia se misturar no ar e ainda vir acompanhada de uma pitada sútil de medo.
As sensações que o faziam cometer aquele ato, eram puramente primitivas, experiências que apenas aqueles cujo não tinham mais humanidade, ousaria tentar.
— Poucas coisas no mundo não tem preço. A vida é uma delas.
O homem fez Norman se levantar, apenas para atirar-lhe contra o peito, de forma brutal e precisa.
O silenciador não deixou que o som escapasse, e o sorriso final no rosto do assassino denunciava sua satisfação em mais um trabalho feito.
Agora era hora de desenhar, limpar o local e ir repousar. Afinal, teria um longo dia pela frente.
Landon estava há menos de cinco minutos do trabalho quando recebeu uma ligação. O assassino das borboletas havia matado outra vez.
Ele respirou fundo e dirigiu-se para a cena do crime.
O dia não tinha começado nada bem para ele. E para completar, a ruiva ainda não tinha saído totalmente de sua cabeça.
A intensidade que ela lhe olhou, nunca vira em outros olhos. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu o desejo ou a admiração exagerada que costumava ver nas mulheres. Ela tinha sido diferente. E provavelmente era isso que o deixava tão intrigado.
Landon passou a mão pelo cabelo e tentou relaxar.
Aquela era a quarta vítima do assassino das borboletas, o apelido que a mídia havia lhe dado, por m***r as vítimas com quatro tiros e desenhar uma borboleta, usando cada ponto dos tiros como limite para as curvas do desenho. Eles estavam tão perto de pegá-lo quanto no primeiro crime, que parecia aleatório, ou até mesmo algum tipo de retaliação a facção criminosa ou máfia. Mas de acordo com o banco de dados, não havia qualquer relação do inseto a estes tipos de crime.
Landon estava sendo pressionado, junto com seu parceiro, Pietro, a resolverem o crime antes que a cidade da música e do futebol se tornasse um verdadeiro caos.
Mas não era nada fácil. O criminoso não deixava pistas ou rastros. Recolhia as cápsulas, usava silenciador, entrava e saía das casas sem ser visto. Certamente era um profissional, alguém que sabia bem como cometer um crime sem ser detectado. E isso era a única coisa que eles sabiam até então, com exceção das informações que o assassino deixava que eles soubessem.
A cena do crime estava infestada de repórteres e câmeras. A impressa em peso estava ali.
Ele passou pela multidão desviando das perguntas e contendo sua irritação com algumas insinuações e os comentários negativos.
— A polícia local está realmente empenhada em resolver isto?
— Vocês ao menos sabem a metodologia do assassino?
— Estão tomando chá e comendo rosquinhas enquanto o assassino mata novamente?
Perguntas do tipo, faziam Landon ficar vermelho de raiva. Mas o auto controle sempre fora uma de suas melhores qualidades.
— Eu sei que é h******l, mas melhora essa cara! Parece que não tomou seu chá matinal.
Pietro se aproximou, oferecendo uma caixa com rosquinhas, que Landon logo tratou de recusar.
— O que você acha? Estamos tão perto de pegá-lo quanto no primeiro crime!
Pietro deixou a caixa com uma policial da área e agarrou o amigo pelo ombro.
— Positividade meu amigo. A esperança é a última que morre. Não, espera, esse daqui foi o último.
Eles pararam diante do corpo, que encontrava-se estendido no chão da cozinha. Landon balançou a cabeça e procurou se informar junto a perícia.
Mais tarde, Scarlett estava reorganizando sua lista de pacientes. Quando o homem alto e de cabelos castanhos atravessou sua mente.
Ela soltou um suspiro e balançou a cabeça. Este era o tipo de coisa da qual não podia se dar ao luxo de fazer. Pensar em um homem estava fora de cogitação. Não tinha espaço na sua rotina para tal trivialidade.
Erin respirou fundo, e quando menos esperava seu telefone tocou.
— Mary? Tudo bem? Não apareceu pro almoço.
— Preciso que venha no distrito, com urgência. E traga os dados de Norman Harle.
— Norman? Como sabe que ele é meu paciente? O que está acontecendo?
— Scar, ele está morto.
Landon recebera informações de seu chefe, Charles Royce, que a detetive Thea e o detetive novato, Cedric Alton Heath, participaria efetivamente das investigações sobre o assassino das borboletas. O prefeito pressionava o comissário, que por sua vez fazia o mesmo com o superintendente, e assim por diante, trazendo o caso para a responsabilidade total dos detetives da Homicídio.
— Qual sua ideia Maryam?
— A psicóloga que está vindo, não apenas conhece muito bem nossa vítima, como também tem Mestrado em Criminologia com Psicologia Forense, que pode ajudar a montar um perfil mais completo do nosso assassino.
— Criminal Minds agora?
Questionou Pietro, com um sorriso sarcástico. Landon repreendeu-o com o olhar. O mesmo se encolheu e sussurrou um pedido de desculpa.
— A ideia é que, dessa forma, conseguimos reduzir o número de suspeitos e descobrir sua identidade.
— Acha mesmo que isso pode ajudar, detetive? Quer dizer, é um método diferente do qual trabalhamos.
Um homem incitou, começando alguns murmúrios pela sala principal.
— Se alguém tiver uma ideia melhor para capturá-lo, fale agora.
O silêncio tomou conta do local. Ela mediu-os com o olhar, vendo que ninguém falaria mais nada. Apesar de não ser muito alta, seu salto preto ajudava-a quando precisava confrontar algum homem, em especial aqueles que gostavam de diminuí-la por ser mulher e estar no meio de tantos homens.
— Ótimo. O detetive chefe vai informá-los sobre o que temos.
Assim que ela saiu do foco principal, e Landon começou a falar, uma mulher de salto alto, bem agasalhada e de olhos intensos entrou no departamento, despertando olhares de alguns homens.
Landon continuou falando, até se deparar com a dama que entrava no local. A mesma que coincidentemente ele se esbarrou no café, e que não saía de sua mente desde então. Ele limpou a garganta e voltou a falar.
Scarlett viu vários homens e mulheres reunidos perto de suas mesas, enquanto um homem falava. Seu pé travou quando reconheceu a voz insolente e o olhar despreocupado do homem. Ele falava bem, em detalhes, pausadamente, os ombros bem alinhados, mas ela detectava a tensão posta sobre os mesmos, assim como o cansaço que ele tentava esconder.
Respirou fundo, buscou um corpo pequeno, mas bem posicionado entre a multidão. Seus olhos percorriam a pequena parte do distrito, a procura de sua melhor amiga, que dissera estar a sua espera com certa urgência. Mas acabava sempre parando os olhos no homem alto que ainda explicava detalhadamente o assunto em questão.
— Erin.
— p**a que pariu, que susto!
Scarlett levou a mão ao coração, ao olhar para o lado e deparar-se com Maryam.
— Desculpe, não quis assustá-la. Está tudo bem?
— Sim. Me explica isso melhor. O Norman realmente está morto?
— Vem, precisamos perguntar algumas coisas e, pedir sua ajuda.
— Minha ajuda?
Maryam a guiou até uma das salas. Landon desviou o olhar para observá-la andar, enquanto finalizava suas explicações. Logo o chefe dispensou a todos e informou que traria novidades. Por enquanto, precisavam ficar atentos a qualquer tipo de pista que pudesse ter.
Landon, Pietro e Cedric partiram para a sala onde Maryam entrara com Scarlett.
A psicóloga estava em choque. Não era apegada a Norman, mas saber que o mesmo tivera um fim tão trágico, lhe causava certo desconforto.
Os detetives entraram na sala.
Maryam adiantou-se.
— Esta é a Scarlett Erin Blackstock, a psicóloga da quarta vítima. E muito boa em estudar mentes criminosas.
Scarlett abaixou a cabeça, com um sorriso constrangido, olhando a pasta em seu colo.
— Não exagere Mary, me formei faz pouco tempo, apenas venho me dedicando a estudar o assunto.
— Falta do que fazer então?
Pietro indagou, fazendo-a erguer a cabeça e semicerrar os olhos.
— Seu nome é?
— Detetive Pietro Ridley.
Ele sentou no grande sofá de couro, ao lado da poltrona onde ela se encontrava, e cruzou as pernas, olhando-a com um sorriso sagaz e nada profissional.
— Detetive Pietro. A vida é apenas uma. Já ouviu falar na frase, conhecimento é poder? Pois bem, deveria, e vai aprender, que esta frase é muito mais do que um motivo para os alunos permanecerem na escola e estudarem para se tornar alguém cujo seus pais admiram e desejam se orgulhar.
Pietro estreitou os olhos, encarando-a com um ar desafiador.
Maryam pigarreou e novamente tomou a frente.
— Detetive Cedric Heath, nosso nerd praticamente.
— Senhora Blackstock, é um prazer conhecê-la.
Ele fez menção de se aproximar, mas ela estendeu a mão e apenas lhe sorriu cordialmente, a distância.
— Obrigada detetive. Pode me chamar apenas de senhorita, ou de Scarlett, por favor. Mas sem contato físico.
Ele assentiu, ajeitando seus óculos.
Landon observava tudo, esperando sua vez de ser formalmente apresentado.
Não havia outra escolha. O destino a pusera em seu caminho e, talvez fosse de grande ajuda. Tinha ousadia, destreza, inteligência, saberia lidar com o tipo de trabalho que fariam e, não duvidava de sua capacidade de ajudá-los a resolver os crimes. E talvez, de fazer uma visita a sua cama.
Landon não resistiu ao pensamento, por mais ante profissional e complicado que pudesse ser.
Não faria da ideia um objetivo de vida, afinal havia coisas mais importantes em jogo, mas jamais negaria para si mesmo, que conseguia enxergar e, até mesmo desejar, algo diferente em Scarlett Blackstock. Ele só não fazia ideia do que.