Capítulo 3: Confiança

1731 Words
Scarlett prendeu o ar quando, enfim percebeu, que o homem m*l educado estava ali, na mesma sala que ela, com o corpo parado ao lado da porta, observando tudo tranquilamente. — Bem, Scarlett esse é o... — Não se dê ao trabalho Mary, já nos conhecemos, você sabe. Scarlett a cortou de repente, ajeitando-se na poltrona e lhe entregando a pasta, a fim de continuar a conversa e não ter que olhar para o homem elegante que ainda a observava. Landon pigarreou e se aproximou, sentando-se ao lado de Pietro. — Meu nome é Landon Archer, senhorita Blackstock, caso queira fugir um pouco das formalidades. Scarlett virou a cabeça para olhá-lo. O sorriso desafiador estampado no rosto. Ela cruzou as pernas, sorrindo educadamente, com o coração em disparate, mas totalmente impassível em sua expressão. — Não posso dizer que é um prazer revê-lo, detetive Archer. Landon estreitou os olhos para ela, a ponto de lhe dizer algo a altura, quando a detetive Thea limpou a garganta e deu um passo a frente. — Ahn, bem, melhor eu ir direto ao ponto e explicar como pode nos ajudar. Maryam revelou brevemente o que poderia ser feito para pegar o assassino e como Scarlett entrava nisso. Landon fixou seu olhar na ruiva, que apesar de prestar atenção no que a amiga dizia, conseguia sentir um par de olhos em sua direção. Talvez até dois. Homens a olhavam o tempo todo e, ela odiava a sensação de estar sendo observada tão de perto e tão intimamente, mas com o devido tempo, aprendera a lidar com esse fato, afinal, para sua infelicidade, a maioria dos homens tinha a mesma mania de perscrutá-la como se pudesse despi-la. Quando Maryam enfim terminou de explicar, Scarlett respirou fundo e recostou-se na poltrona. O ambiente estava aquecido, mas o ar pareceu sufocante para ela. Ficara em choque com a morte repentina de seu paciente, como qualquer outra pessoa ficaria, mas a ideia de colocar seu conhecimento recente em prática, lhe deixava insegura. Afinal, as mortes precisavam de justiça, e vidas corriam perigo. Ou seja, um ser humano estava sob a mira de um assassino, e ela precisava arrumar uma forma de capturá-lo antes que o número de corpos aumentasse. Era uma responsabilidade maior para o que ela fora preparada. Seu dever era tratar mentes, fazer as pessoas se entenderem, ajudá-las a superar traumas e trilhar seus próprios caminhos para a liberdade emocional, coisa que ela precisava adquirir, e não capturar assassinos em série. — Podemos conversar a sós, Mary? — O que for dizer, pode ser dito com todos nós aqui. Landon interferiu, antes que Maryam pudesse responder. Scarlett o fuzilou com o olhar, enquanto ele mantinha a expressão impassível e a sobrancelha erguida em sinal de desafio. Ela suspirou e cruzou os braços. — Muito bem. Eu não acho que possa realmente ajudar. Sou psicóloga, não detetive. Também não sei se quero me responsabilizar por tamanha função. Poderia facilmente indicar algum colega mais experiente e qualificado. — Isso seria fantástico. Comentou Landon, levantando e ajeitando o casaco em seu corpo. Scarlett o olhou, ainda mais irritada. Sua ideia de convocar outra pessoa era muito plausível, pra situação atual, mas se pensasse bem, seria adorável irritar o detetive m*l educado e ainda resolver o caso dele. — Eu confio apenas em você, Scar. Não temos muito tempo e eu sei o quão empenhada você é, quando quer uma coisa. Sinceramente, é a melhor pra nos ajudar agora, mas se acha que não é capaz... — Oh Mary, não diga essas palavras. Scarlett a cortou, fechou os olhos e balançou a cabeça. Maryam a conhecia tão bem. — Que palavras? Que você não é capaz de... — Certo, eu vou ajudá-los, ok? Pegaremos este assassino antes que ele mate de novo, se é o tipo de desafio que está propondo. Maryam sorriu satisfeita. Scarlett revirou os olhos e recolheu suas coisas. Mary sabia bem como convencê-la a fazer algo. E no fundo, ela queria provar para si mesma, e mais ainda para o detetive, que era capaz de resolver aquilo. E não era nenhum grande sacrifício. Ela sempre teve fascínio pela mente humana, desde a escola, e um estudo sobre o psicológico de criminosos, em especial assassinos, sempre fora um tema que lhe chamou atenção. Claro que a prática é bem diferente da teoria. Afinal estamos lidando com humanos. Há uma variedade de personalidades. Mas ela costumava idealizar o pensamento de que há um padrão para alguns comportamentos. Um tipo de conjunto de características que, mesmo sendo seres diferentes, tornam algumas mentes muito semelhantes. Seja no modo de falar, de como convivi socialmente, de como anda, se sempre observando tudo ao seu redor ou com a tranquilidade de quem não teme a morte. Scarlett perguntou onde poderia colocar suas coisas e organizar-se, para estudar e se aprofundar na mente do assassino. Cedric sugeriu que ela ficasse ali mesmo, era confortável, seguro, e não haveria interrupções. Erin colocou as mãos no trabalho assim que obteve as informações das mortes. Pietro e Maryam haviam saído, deixando apenas Landon e Cedric no local. — Precisa de ajuda com alguma informação? Cedric se pronunciou, prestativo. — Vocês disseram que o assassino é um profissional, de acordo com o relatório final, já que ele não deixa rastros ou vestígios. Já procuraram pessoas que foram da lei ou trabalharam no governo, que está fora do radar, ou que possa ter alguma ligação com os crimes? — Não somos tão burros, senhorita Blackstock, é claro que procuramos. Landon respondeu, a frente do jovem. Ela girou a cabeça para olhá-lo. Pensou em diversas coisas para dizer, no entanto, necessitava de sua concentração ao máximo naquele caso. Ela voltou a ler os relatórios dos crimes, tentando entender como um homem podia ser tão aleatório, ou indeciso, já que matava suas vítimas de duas formas: ou tiros no peito ou no estômago. E eram pessoas sem qualquer conexão. O único ato em comum, era o fato de que todos vieram de orfanatos, passaram por um período de difícil adaptação, com ficha criminal e tudo, e depois de um tempo, transformaram suas vidas. Ela ainda não sabia como, mas de alguma forma, sabia que isso estava ligado ao responsável pelos crimes. Apenas não tinha estabelecido uma linha clara de raciocínio ainda. Mas aquilo com certeza tinha a ver com o criminoso. A noite chegara e ela nem percebeu. Maryam entrou no local e depositou uma xícara de café, enquanto os outros detetives procuravam outras informações. — Melhor ir pra casa descansar. Está há horas aqui. — Só saiu daqui quando tiver alguma coisa. — Scar... — Você mesmo disse, Mary, sou muito empenhada quando quero uma coisa. Ela não tirou os olhos dos papéis por nenhum segundo, nem mesmo para respondê-la. Mary assentiu, em silêncio. Afinal, não iria impedir Scarlett de passar a noite ali se necessário. A mesma estava convicta de que podia ajudar com alguma informação, só precisava arranjar uma forma de montar o quebra-cabeça. Maryam saiu, deixando-a sozinha. O que não durou muito. Landon logo entrou. Erin continuava analisando. — Está empenhada mesmo nisso. — Quanto antes resolver isso melhor. — Não tivemos um primeiro encontro agradável, senhorita Blackstock, mas não guardo rancor. Gosto de ter uma boa convivência com as pessoas. Landon encostou-se ao lado da porta. Tudo que poderia fazer já tinha feito. No momento, a melhor jogada para achar o criminoso era a mulher a sua frente, que erguia a cabeça com destreza. Seu olhos, de um azul brilhante e intenso, pareciam reluzir as chamas do inferno e o beijo do vento frio. Ambos os elementos se cruzavam, e dominavam cada célula de seu ser. — Não precisa ficar preocupado com isso, detetive Archer, pretendo fazer minha parte o quanto antes e, me livrar deste ambiente. Landon encostou a cabeça na parede e suspirou. Aquela mulher era impenetrável? A arrogância e prepotência, eram suas armas? Porque por mais que ela recusasse, por mais que tentasse afastá-lo, sentia que causava algum efeito do qual ela tentava evitar. Ele costumava pensar que, todos temos passados que podem nos condenar. Algo que muda nossa personalidade, para melhor ou pior. Nos torna quem somos, de certo modo. E talvez, o que ele já vira muitas vezes, seja o caso de Scarlett. Seu passado, contém algum fato, que se tornou um bloqueio para ela. Era como ganhar um novo escudo, de alta blindagem, sem necessariamente estar correndo um perigo iminente. Apenas por já ter passado por tal situação, e agora viver com o medo constante. Ele passou a mão no cabelo e sentou-se novamente no sofá ao lado da poltrona. — Não precisamos passar as próximas horas com esta hostilidade, sabe. Eu não vou machucá-la ou tentar, de algum modo, seduzi-la. Então, não precisa temer. Scarlett gargalhou e recostou-se na poltrona. Ele continuou com seu rosto sereno, mas com uma leve pitada de curiosidade em sua sobrancelha erguida. Ela parou de rir e continuou encarando-o. Aquele homem realmente achava que ela o temia? Ele realmente não a conhecia. Bem, não podia culpá-lo, ela jamais permitiria tal aproximação, por mais que houvesse um desejo ardente a envolvendo lentamente. Scarlett colocou uma mecha atrás da orelha e inclinou-se sobre o braço da poltrona, olhando-o com a mesma intensidade que ardia nos olhos azuis do outro. — Primeiro, eu não tenho medo de você, detetive. Segundo, com o vasto tempo e uma terrível experiência, eu aprendi uma coisa que a maioria das mulheres descobrem tarde demais; não se pode confiar na palavra de um homem. Landon a escutou atentamente. Sua voz não tremeu, ela não piscou, não deu nenhum sinal claro de excitação que ele estava acostumado a ver. Ele então se inclinou, ficando muito próximo do rosto redondo, dos fios escarlate, do olhar intenso e obscuro. O coração disparou, pela ânsia da proximidade, assim como seu m****o latejou, pelo desejo do toque. Scarlett não negaria para si mesma, quando ele chegou tão perto, sentiu o aroma inebriante de masculinidade misturada com cavalheirismo, da essência do desejo, do perfume do mistério agregado a impetuosidade. Algo naquele homem, de cabelo castanho escuro, barba rala, olhos profundamente azuis, lhe atraía com veemência. Mas como ela mesma dissera, não podia confiar na palavra de um homem. E muito menos em seus gestos. Aprendera há muito tempo, das piores formas possíveis, que isso poderia ser sua ruína.
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