Landon olhou-a de baixo a cima, comprimiu os lábios e se afastou. Resistir a ela era mais doloroso do que levar um soco.
— Você como psicóloga deve saber melhor do que ninguém que as pessoas não são iguais. Se algum homem fez m*l a você no passado, não significa que acontecerá no futuro. Isso vai depender do tipo de pessoa com quem vai se relacionar.
As palavras lhe trouxeram, por uma fração de segundos, memórias que ela sempre desejou esquecer e preferiu enterrar. Mas ela não deixaria que ele visse seu abalo profundo. O gatilho que havia acionado sem nem dar-se conta.
Scarlett voltou a posição anterior, não apenas analisando as palavras de Landon, mas também sua postura. Ela não era a única a resistir a um sentimento que nascia e flutuava entre eles. Algo estranhamente delicioso e sombrio, que parecia cercá-los. Mas Scarlett não estava disposta a descobrir o que era. Nem sequer poderia dar-se ao luxo de pensar sobre isso.
Sua expressão se tornou ainda mais dura e inflexível, quando novamente se aproximou.
— Se não vai ajudar, por favor, me deixe sozinha.
Ele ficou tentado a continuar ali, questionar-lhe, descobrir o que a afligia, o que a fazia se fechar tanto, mas sabia quando era hora de parar. Quando chegava ao limite de algo. E com certeza não seria dessa forma que descobriria o que queria.
Ele levantou, ajeitou o sobretudo que agora vestia e saiu da sala.
Scarlett respirou aliviada, como se tirasse uma pedra do sapato. Uma pedra que a incomodava, mas também mexia com suas emoções mais primitivas e enterradas, e este era seu maior medo.
Depois de um tempo lendo e procurando conexões, Scarlett sentou no sofá, a fim de tirar um cochilo que pudesse clarear sua mente, mas acabara por dormir pesadamente.
De repente, Scarlett podia se ver de volta ao passado.
“Eu tinha acabado de colocar o jantar na mesa, Luca deveria chegar do trabalho logo. Éramos jovens, mas tínhamos uma estabilidade financeira boa, eu diria. Ele trabalhava em uma loja de carros com o tio. O que ganhávamos conseguíamos sobreviver bem, para dois recém adultos.
De repente a porta abriu, e um homem semi bêbado entrou por ela. Dei um suspiro longo e fui pra cozinha. Não era a primeira vez que ele chegava naquele estado. Estávamos bem, não tínhamos brigado nem nada, não havia o porquê dele beber tanto e chegar quase as quedas em casa. Eu me questionava profundamente sobre isso. Mas no momento, não tinha coragem e nem estômago para questioná-lo. E sempre que fazia no dia seguinte, ele inventava uma desculpa ou me respondia com ignorância.
Ele conseguiu sentar à mesa, arrotou algumas vezes, resmungou de algo e esperou eu voltar para falar mais alto.
— Isso aqui é comida pra um homem como eu? Tá uma m***a!
— Luca, você nem provou.
— Não me responda mulher! Eu sou seu homem, me deve respeito!
Balancei minha cabeça e tentei voltar pra cozinha, ele segurou em meu braço e me puxou.
— Está cheirando a p**a. Andou trazendo homem aqui?
— O quê? Que loucura é essa?
— Não minta pra mim sua v*******a!
— Me solta, está me machucando, Luca!
— Estou é?
Ele apertou ainda mais os dedos brancos em volta do meu braço, os olhos estavam quase vermelhos, ele me olhava como nunca fizera antes. O local onde apertava começava a ficar vermelho e doer intensamente. Luca jamais fizera algo similar antes. Havia tido excessos de raiva, me gritado, xingado, mas jamais me apertara como fazia agora.
— Está doendo Luca, me solta!
Ele olhou-me de cima a baixo, xingou algo em italiano e me jogou no meio da sala, onde se encontrava a nossa nova mesa de centro de vidro.
Eu caí e ela se partiu em vários pedaços pequenos, não era da melhor qualidade, mas não imaginei que isso poderia acontecer. A dor me partiu por dentro, como aqueles pedaços de vidro, e não apenas pelos machucados, mas pelo ato.
Nunca me vi em uma situação como aquela. Sendo machucada e agredida pelo meu próprio marido. Aquele cujo prometeu me amar, respeitar, proteger. Era o que estava me machucando. Transformando nossa vida tão desejada e sonhada, em um verdadeiro pesadelo.”
O distrito continuava a procurar pistas, mesmo sem ter exatamente por onde começar.
O dia amanhecera. Não chovia, e o sol brilhava com esplendor no céu em meio aos nuvens, e as ruas de Manchester pareciam beber o calor do sol e espalhá-lo.
Landon não fora pra casa. Trey estava com a mãe, então não tinha que se preocupar. Ele, assim como muitos, tiraram cochilos em poltronas ou cadeiras do distrito. Ninguém estava disposto a sair até ter alguma coisa para seguir.
Ele foi até a copa, onde se encontrava a máquina de café, e fez duas xícaras. Talvez a ruiva misteriosa e grosseira gostasse de café e gentilezas.
Quando ele entrou, a mesma dormia no sofá. Mas não parecia ser um sono calmo.
Scarlett se revirava no sofá, seu rosto umedecido pelo suor, sua aparência ainda mais esbranquiçada.
Ele deixou as xícaras na mesa de centro e se aproximou, vagarosamente.
— Não... Luca... Não... Por que? Por que está fazendo isso? Luca... Luca!
De súbito, Scarlett abriu os olhos e sentou-se.
A respiração ofegante, os olhos arregalados, o tremor lhe tomando. Uma lágrima molhava seu rosto.
Landon foi até ela.
— Ei, está tudo bem. Scarlett, você está no distrito, segura.
Ele se agachou perante ela, não muito próximo, para não assustá-la.
Erin o encarou por alguns segundos, respirando ofegante, e girou a cabeça em torno do local, constando que não estava mais em sua casinha no interior de Bristol, e sim no distrito de Manchester.
Landon queria abraçá-la, confortá-la mais do que qualquer outra coisa, mas sua razão, em conflito com seu coração, dizia que tal ato poderia assustá-la ou causar uma reação nada boa para ambos.
A respiração foi normalizando, aos poucos, no momento em que Scarlett tentava reorganizar sua mente e acalmar-se do terrível pesadelo, que estava mais para uma lembrança que voltara em forma de sonho.
Landon pegou a xícara de café e lhe ofereceu. Scarlett o olhou, e pegou a xícara silenciosamente, enquanto limpava a lágrima que escorrera involuntariamente.
Ele pegou a sua e sentou na poltrona. Ela precisava de espaço. Tanto para processar o que ocorrera quanto para voltar ao normal.
Ele reparara que, seu casaco estava bagunçado em seu corpo, e deixava exposto parte de seu ombro, onde podia ver pelo menos uma ou duas cicatrizes. Seu olhar fixou naquele local. Por mais que não fosse ético, e soubesse que deveria evitar, não conseguia parar de olhar. Era como descobrir uma parte da vida dela. De alguma coisa que ela guardava. Uma marca profunda, que talvez fosse motivo para sua muralha inquebrável existir.
Antes que pudesse acordar, Scarlett reviveu as lembranças do sonho várias vezes, até enfim sair do tormento que a recordação lhe causara.
Ela ainda podia sentir a sensação da dor, do desespero, do choque. Tudo se misturando, vindo a tona com rapidez e intensidade. Sempre como uma nova forma de sentimentos, que na verdade lhe trazia emoções conhecidas e arrasadoras.
Scarlett ajeitou o casaco em seu corpo e tomou o café. Podia sentir o olhar do outro, mas não estava disposta a enfrentá-lo. Até então, ele não merecia sofrer nenhuma negativa de sua parte, afinal havia sido gentil e mantivera sua curiosidade intacta. Sem perturbar-lhe com inúmeras perguntas dais quais ela não gostaria de responder.
Ele terminou de beber o café, depositou a xícara na mesa e permaneceu quieto, em silêncio.
— Obrigada pelo café.
Scarlett enfim se pronunciou, deixando a xícara na mesa e recolhendo os papéis.
— Você está bem?
Ela colocou uma mecha do cabelo pra trás da orelha e assentiu.
— Vou ficar.
— Conseguiu alguma coisa? Antes de dormir?
— Na verdade, acho que sim. Mas não tenho certeza se será útil.
— Tenho certeza que sim. Não temos muita coisa, então, qualquer informação pode nos levar a novos caminhos. E você parece inteligente demais pra perder tempo sem ter descoberto alguma coisa.
Scarlett desejou sorrir, pela primeira vez depois de muito tempo, mas conteve-se. Não daria aquela vitória a ele.
Apesar dela manter-se distante e não demonstrar qualquer reação, Landon sentia que as coisas poderiam melhorar. Ou pelo menos, não serem tão hostis e grosseiras como estava sendo anteriormente.
Pouco depois das sete, Maryam e Cedric chegaram.
A maioria já havia acordado e tomado uma forte dose de cafeína, para manter-se alerta. O dia seria longo.
O capitão Royce foi até a sala onde Scarlett estava.
— Me diz que tem alguma coisa senhorita Blackstock.
Scarlett olhou para Landon, que retribuiu e assentiu, dando-lhe apoio para continuar com o que havia lhe mostrado.
Assim que Maryam, Cedric e Pietro chegaram, ela começou.
— A borboleta significa transformação, e até então, todas as vítimas passaram por uma grande transformação em sua vida. Mas não apenas isso, como vocês mesmo sabem, ele certamente veio de um orfanato. Sua vida deve ter sido complicada, e só restabeleceu aos 20 poucos anos. Eu poderia dizer, que ele estuda muito bem suas vítimas. Como passou a vida, como vive atualmente, com quem vive e tudo mais. Ele sabe exatamente quando e como entrar. E não só isso, ele curte ver suas vítimas em seus últimos minutos, observá-las em seu momento de prazer, pra canalizar o ódio por elas terem suas vidas maravilhosas.
— Mas ele também não devia ter passado por algum tipo de transformação?
Questionou o Capitão, vendo-se muito interessado e quase dentro da mente do criminoso.
— Provavelmente, mas a transformação das vítimas não se compara a dele. Ele provavelmente sofreu muito até achar um lar. Passou por dificuldades e não viveu o que merecia. E hoje, ele provavelmente tem um emprego infeliz, inferior ao que acha que merece. Veja bem: a primeira vítima era empresário, a segunda advogada, a outra médica, e por fim... O Norman, um dono de restaurante muito querido e requisitado. São pessoas que superaram seus traumas e tinham uma vida feliz. O que ele provavelmente não sabia, era que o Norman ainda tinha alguns problemas, por isso me consultava, mas isso não vem ao caso.
— Na verdade, pode vim sim.
Interferiu Cedric. Todos viraram-se pra ele, que andou pra perto da mesa, onde podia ser visto melhor e continuar sua fala.
— O assassino não sabia sobre essa parte da vida do Norman, significa que talvez ele não o tenha estudado tanto. Ele está gostando mais, se divertindo mais a cada morte. O primeiro homicídio foi há cinco semanas, o segundo a menos de um mês, a terceira há uma semana e o quarto, ontem. Ele está diminuindo o tempo de m***r, está ansiando mais por sangue.
— Ele pode vir a cometer um erro se continuar.
Completou Pietro, atônito com a linha de raciocínio montada.
— Exatamente!
Exclamou Maryam, animada com as novas informações que tinham.
— Mas não podemos esperar que ele cometa um erro para pegá-lo.
Comentou Landon, adorando aquela interação.
— Podemos fazer ele cometer um erro.
Sugeriu Scarlett, depois de um tempo pensando.
— Tem alguma ideia em mente?
Landon a questionou.
Scarlett estava com a testa franzida. Sim, ela tinha algo em mente, mas acabara de perceber que compartilhar qualquer coisa a mais poderia colocar tudo a perder.
De alguma forma, o assassino estava perto, e ela sabia. Podia sentir o arrepio lhe dominando. O palpitar do coração. As lágrimas querendo lhe dominar pelos pensamentos que a possuíam.
O homem que matava, era alguém conhecido, provavelmente do distrito, ou até mesmo daquela sala.