Capítulo 5: Coração Corroído

1896 Words
Scarlett percebera que não podia confiar em ninguém. Arranjaria outra forma de fazer o que era necessário, pelo bem maior, mas não confiaria o que descobrira a mais ninguém. Havia apenas uma pessoa que poderia confiar. — Não, na verdade não, pelo menos não agora. Eu preciso ir pra casa, tirar um cochilo e repôr as energias. Acho que fiz o suficiente. Landon arqueou uma sobrancelha, a observando. Seu instinto dizia que Scarlett revelava menos do que realmente gostaria. Ela tinha descoberto algo, ele só não fazia ideia do que. — As informações foram muito úteis, senhorita Blackstock. Voltaremos a entrar em contato, obrigado pela sua ajuda. — Não foi nada Capitão. Eu faço questão de vir depois saber como anda as investigações e se ainda poderei ajudar. — E será muito bem-vinda. Cedric, Pietro e Charles saíram da sala. Scarlett começou a arrumar suas coisas. Landon a observava. Não acreditava que já tinha acabado. Não queria que ela fosse embora. — Tem certeza que temos o suficiente? Que nos contou tudo? — Sim. — Scarlett. Ela parou de arrumar suas coisas e o olhou. Landon a olhava como se soubesse de algo. Ela respirou fundo. — Eu sou um detetive, espera mesmo que acredite nisso? — É um detetive, não um detector de mentiras humano. Mas está certo, tem algo a mais. Porém quanto menos pessoas souberem melhor. — Eu sei que não tivemos uma boa impressão um do outro logo de cara, mas se tem algo que pode fazer, é confiar em mim. Scarlett olhou para Maryam, que assentiu. Bem, se sua amiga confiava, havia uma razão. E como ela não tinha motivos para desconfiar do homem, apenas concordou. Ela então contou-lhe sobre suas suspeitas e a ideia que tivera. Parecia bem mais insana depois de dita em voz alta. Mas fazia mais sentido do que ela gostaria. Se realmente um homem naquele local matava as pessoas por prazer e uma espécie de vingança, ela sentia repulsa apenas por saber que estivera no mesmo ambiente que ele. Quando terminou, Landon levantou da poltrona, indignado. — Isso é loucura! — Se não acredita em mim, paciência. Não vou tentar convencê-lo. — Não, o seu plano é loucura. — Tem uma ideia melhor? Landon e Maryam se encararam. Infelizmente, a ideia de Scarlett não parecia tão r**m, considerando que era a única para achar o assassino. Mesmo com todas as informações, se o homem estivesse mesmo infiltrado na polícia, ou em alguma outra força policial ou militar, seria bem mais difícil chegar até ele, em especial se o mesmo soubesse o que eles sabem. Sabendo que estaria sendo vigiado, investigado, que cada passo poderia estar com atenção total. Seria arriscado demais cometer outro crime. E da forma como ele poderia estar, sabia que errar não seria improvável. Estaria tenso, nervoso, não seria divertido como costumava ser. Mas o assassino podia fazer exatamente isso, se tivesse auto confiança o suficiente e soubesse que não haveria formas de chegar até ele, com o desaparecimento da psicóloga. Sem a ajuda dela, de seu raciocínio profundo sobre a mente humana, talvez os detetives levassem muito tempo, e até mesmo, jamais o encontrassem. E esta era a ideia central de Scarlett. O homem por trás daquilo, sabia exatamente da importância dela. E se queria m***r de novo sem preocupação, talvez fosse preciso eliminá-la antes. E este seria o seu erro. Ela despediu-se, visivelmente, de Maryam e do Capitão, antes de ir para casa, aparentemente sozinha e exausta. O detetive Landon observou o Capitão passando a informação do perfil do assassino. Cedric começou a busca no banco de dados, de acordo com as informações recebidas. Com muita sorte, poderia achar alguém com a descrição que Scarlett dera em algumas horas, ou algo similar. Scarlett chegou em casa, jogou a bolsa no sofá e foi até a cozinha. Preparou um chá e tomou, vendo um pouco de Criminal Minds, antes de ir para o quarto e tomar um longo banho. Ela realmente precisava de um repouso absoluto, no entanto, não dormiria enquanto sua vida estivesse em perigo. Aquilo de certo modo, fazia parte de sua rotina. Claro que horas mais tarde, naquele instante ela estaria no escritório. Mas decorrente a todos os acontecimentos, era mais do que justo uma folga. Depois do banho, Scarlett deitou em sua poltrona, confortável e quente, respirou o ar puro que entrava pela pequena janela da sala, e apenas se aconchegou. Aquele instante de tranquilidade, paz interior, parecia semelhante ao que algumas pessoas deviam pressentir antes de morrer. Talvez não as que são brutalmente assassinadas, de surpresa, com tanto a viver, mas aquele que dorme e não acorda mais. Ou que ficou tanto tempo em coma, que sabe que quando sua hora chegar, irá em paz, com a serenidade de quem nunca temeu a morte. A única certeza da qual temos e não podemos escapar, é que a morte virá para todos. Não há como driblar este fato, não há como vencer esta corrida, não há como escapar do fim. Scarlett imaginava que não seria exatamente sua hora. Não se o plano desse certo. E caso não desse, ela não estava preocupada se morreria. O que tinha ali? Seus pais pouco lhe falavam ou se importavam. O único homem que amou, era um verdadeiro monstro do qual ela desejava veemente se manter longe. Não tinha filhos ou animal de estimação. As únicas pessoas que poderiam sentir sua falta seria Maryam e sua irmã. Mas como a maioria das coisas na vida, tudo passa, então não faria tanta diferença se aquele fosse seu último dia. Não poderia dizer que morreria em paz. Havia um demônio interno, preso em algum lugar no fundo, que não a permitiria sentir essa sensação. Mas morreria serena, com a consciência de que tinha ajudado a prender um assassino. Teria feito justiça para inúmeras vítimas que sofreram de sua mente perturbada e evitara futuras mortes. Scarlett foi ao quarto, pegou outro casaco e um caderno pequeno de desenho. Colocar a tensão pra fora junto com a imaginação ao desenhar a fazia relaxar. Ao chegar na sala, no entanto, havia um homem parado próximo a porta. — Pietro? O que faz aqui? Como entrou? Pietro era um homem belo, intrigante, de altura mediana e cabelos castanhos. Tinha um sorriso engraçado, com barba e bigode ralos. Tinha um rosto único demais para ser esquecido. Naquele instante, ele ergueu o olhar para ela. Os olhos marrons fulminavam, sua respiração ofegante, a raiva quase exposta. — Você sabe demais, senhorita Blackstock. Ela arregalou os olhos, balançou a cabeça e suspirou. Não devia estar surpresa, pois já imaginava que o assassino era alguém profissional, que estava mais perto do que gostariam, mas logo ele? — Eu pensei que seria mesmo alguém muito próximo do departamento, mas não você. Ah, não você. — Por que? Não consegue me imaginar como um tão inteligente, esperto, tão furtivo a ponto de enganar os melhores detetives de Manchester? O sorriso que cortava seus lábios era assustador, instigante, desafiador e mortal. Pietro sentia-se vitorioso, orgulhoso de tudo que fizera. Era como uma criança vendo seu castelinho de areia brilhar. — Porque é legal, divertido, muito bonito pra fazer uma besteira como essa. Ela respondeu, enquanto caminhava tranquilamente até sua poltrona. — Besteira? Estudar, observar as pessoas e m***r, é uma arte! Pietro deu um passo a frente. A arma em mãos, porém abaixada. O brilho em seus olhos indicava a empolgação e a satisfação de suas palavras. — Vê-las implorar pela vida. Assistir seus últimos minutos de existência. Vê sua alma se esvaindo de seu corpo conforme a morte a alcança. É o conjunto da obra prima mais majestosa que a humanidade transformou em um crime bárbaro. — Falando assim, quase tenho desejo de me juntar a você. — Por que está tão tranquila? A morte não preocupa você? Scarlett cruzou as pernas ao seu sentar e respirou fundo. Não é como se não temesse a morte, mas não pensa nela constantemente, não mais, e, sabe que mais cedo ou mais tarde, ela chegaria. Entretanto, não esperava que esse fosse o caso. — Sabe Pietro, eu passei por situações complicadas na minha vida. E como suas vítimas, passei por uma transformação muito positiva. No entanto, ainda tenho demônios que habitam em mim. E não, não me preocupo com a morte. Ela é inevitável. Pra que me preocupar quando sei que ela chegará? Como pode ver, não tenho nada de valor, ninguém para se preocupar. Estou apenas vivendo e, minha morte não será nada satisfatória pra você. — É, mas você não vai ficar dando palpites. Quem pensa que é, Scarlett? Ajudando a polícia de Manchester, acha que vai se tornar melhor do que todos? Melhor que eu? Apenas porque tem um maldito diploma e muita sorte! Pietro começou a tremer a mão que segurava a arma. Ele mantinha sua postura impassível, mas o rosto demonstrava a tensão e ódio que lhe dominava. Ele estava ficando com medo e com um desejo quase sufocante. Não podia parar de m***r. Era como uma compulsão. Um vício. Não apenas o ato, mas toda a preparação, a ânsia, o divertimento. Tudo se tornara um vício como uma d***a. Mas a morte de Scarlett era algo fora de sua rotina. Era necessário, para poupar preocupação para si mesmo. Pietro ergueu a arma, olhando-a friamente. Scarlett se remexeu na cadeira e fechou o casaco em volta de seu corpo. — Posso dizer uma última coisa? — Seja rápida. — Eu entendo você, Pietro, entendo mesmo. Não deve ter sido fácil crescer em lares adotivos, ser rejeitado tantas vezes, ver os outros sendo felizes em suas casas enquanto você era jogado de um lugar para o outro, como um brinquedo. E eu conheci muitas pessoas que também foram adotadas. Pietro arqueou uma sobrancelha e até parou de mexer o corpo constantemente, olhando-a com curiosidade. — Muitas vezes, eu tenho a sensação de também ter sido. Meus pais nunca demonstraram qualquer sentimento por mim. Minha irmã me tratou da melhor forma possível. Me amou de verdade. Mas nunca me senti parte de verdade daquela família, o que acabou me incentivando a cometer a loucura de ir morar com o primeiro namorado que me prometeu segurança, amor e um futuro promissor. Não é a justificativa perfeita, eu sei, mas poderia ter sido diferente se tivesse alguém de verdade pra cuidar de mim. E eu tenho certeza, que é só isso que você precisa. De alguém pra cuidar de você. Scarlett se levantou, devagar, sem fazer nenhum movimento brusco para não assustá-lo. Pietro piscou algumas vezes, ainda perplexo com o que ouvira. Atordoado, tentava assimilar as palavras da psicóloga, como se pudesse sentir no fundo de seu peito que realmente desejava aquilo. Como uma voz interior lhe gritando e implorando por isso. Durante toda a sua vida sempre fora rejeitado, tratado como uma coisa que pode ser pega e depois devolvida. Sem contar que viver em orfanato não era bem o paraíso. Por vezes, parecia mais o próprio inferno. Havia garotos como ele, rejeitados e oprimidos, que humilhavam e também rejeitavam, como uma forma de vingar-se e proteger a si mesmo da dor que sofrera. O famoso e tão pouco falado: Bullying. Aquilo havia sido apenas um fator, que acendera a chama assassina que Pietro mantinha escondida dentro de seu pequeno, pobre e corroído coração.
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