Prólogo
Quando se é criança, se tem uma percepção diferente da realidade do mundo, principalmente das pessoas.
Acreditamos que o lugar mais seguro, é ao lado dos nossos pais, ingênuos, sem saber que as vezes o pior pode acontecer conosco dentro de casa.
O primeiro fato que marcou minha infância, foi o fato de nos mudarmos bastante. Sempre estávamos em uma casa nova, em uma casa pior do que a outra e sempre quando estava já habituado a uma casa, e feito amigos, era a hora de ir embora novamente.
O começo do meu pesadelo, começou quando nos mudamos para a Rocinha. De princípio, como sempre, não gostei da casa que dividia o quintal com mais três, praticamente ficando nos fundo do quintal. Não era grande, mas pelo menos dessa vez, tinha dois quartos e pouco lugar para brincarmos, além do campo de futebol descendo a rua.
Éramos em três irmãos.
Júlio, Carlos e eu. Eu era o mais velho, seguido de Júlio, que era o do meio e Carlos, o mais novo, com dois anos.
Minha mãe, Jussara, trabalhava como empregada doméstica. Costumava sair ás cinco e meia da manhã e voltar por volta das 7 da noite.
Josué, era o nosso pai, trabalhava fazendo b***s, dessa forma, passando mais tempo em casa. Quando não estava na escola, estava no campo, com Carlos, que eu e Júlio nos revezava em cuidar.
Tudo estava indo bem, pelo menos, era o que achava, até que meu pesadelo começou.
Meu pai, nunca foi de beber frequentemente, ele bebia, mas não para chegar a ficar completamente debilitado por causa do álcool.
Num dia, quando voltei da escola, aparentemente ao me aproximar de casa, tive a impressão de não ter ninguém em casa, pelo silêncio que estava mas, ao me aproximar, ouvi o choro abafado de Carlos e logo entrei.
A sala que fazia divisa com a cozinha, com poucos móveis, estava uma verdadeira bagunça, apesar da minha mãe sempre deixar tudo arrumada antes de sair e o almoço já pronto. Deixando minha mochila de lado, me aproximo de um dos quartos, sentindo meu corpo paralisar, ao ver meu pai, introduzir seu pênis em meu irmão mais novo, que se debatia e tinha o rosto vermelho e suado, devido a dor que deveria estar sentindo.
Não demorou muito para que Josué me notasse e se afastasse bruscamente da cama, o largando ali sozinho, passando por mim. Hesito em me aproximar, sem saber o quê fazer, conseguindo finalmente forçar minhas pernas a me obedecerem quando o choro de Carlos se torna ainda mais intenso.
Me aproximando, noto que havia sangue e que a todo instante, ele queria que o segurasse e assim fiz, o apertando contra meu corpo, ainda tentando entender o que havia acontecido.
Pouco tempo depois, dou banho nele, o ouvindo chorar e comida. Josué dormia no chão, com um braço sob o rosto, completamente alheio ao que estava acontecendo.
Carlos não quis mais ficar longe de mim o restante do dia, se segurava em mim com todas suas forças, não querendo ficar sozinho nem por um minuto.
Naquela tarde, quando Júlio chegou, ainda pensei em contar o quê tinha visto. Mas o quê ele faria? Assim como eu, temia levar umas das temidas surras de Josué, que nos batia sem dó alguma, até ver o sangue brotar de nossos corpos.
A noite quando minha mãe chegou e não entendeu o comportamento de Carlos, pensei em lhe contar o quê aconteceu mas, temia que não acreditasse em mim. Josué me olhava a cada instante, me fuzilando com seu olhar, de modo que descartei a possibilidade, com receio que me batesse.
Dois dias depois, uma forte febre se instalou em Carlos, fazendo com que minha mãe faltasse no trabalho para o levar até o médico e de lá ele nunca mais voltou.
Carlos morreu. Segundo o médico, devido a uma infecção generalizada, na qual não conseguiram conter com antibióticos.
Minha mãe não deixou fazer a autopsia, não querendo prolongar mais o sofrimento que estava sentindo, muito menos o de Carlos, que em meio ao que estava sentindo, acreditava que ele podia ainda sentir dor.
Foi o primeiro pior dia da minha vida, ter que ver meu irmão em um caixão branco simples, dado por uma das patroas da minha mãe, já que não tínhamos dinheiro suficiente nem para comprar uma coroa de flor.
Não o reconheci quando o vi. Sua pele n***a, que antes estava tão vivida, estava pálida, com um leve acinzentado. Os lábios um pouco roxos, assim como as pontas de seus dedos e seu corpo pequeno, frio.
Soube o que era morte naquele instante, ao tocar sua mão e sentir a frieza, pois até então, achava que estava só dormindo.
Minha mãe não aguentou ficar no velório, passou m*l, desmaiou, ao ver Carlos naquela situação, precisando ser levada as pressas para o hospital.
Josué só ficava de longe, uma boa distância do caixão, observando os conhecidos se aproximar do caixão, fazendo o sinal da cruz ao ver o falecido. Poucos deles, falava comigo e Júlio, parecia que estávamos invisíveis.
Antes da tampa do caixão ser colocada, no final do velório, Júlio se aproximou de Carlos, colocando em sua mão um pequeno carrinho de plástico vermelho, no qual costumava brincar horas seguidas, enquanto conversava sozinho em um canto.
Lado a lado, observamos nosso irmão sendo enterrado, com minha mente gritando, enquanto se perguntava se o quê Josué fez, não tinha o levado à morte.
Minha mãe não voltou a ser a mesma. Seus dias eram resumidos em ficar deitada na cama, praticamente dopada, sendo obrigada a dormir o dia inteiro.
Josué não passava muito tempo em casa, a boa parte do tempo, passava na rua, no bar da esquina ou jogando bola. Precisei aprender a cozinhar, assim como Júlio e preparar nossa própria comida, que quando ficava pronta, sempre levávamos para nossa mãe, que mesmo grogue, ainda comia um pouco.
Chegou uma hora, que não havia mais o que cozinhar, nos obrigando a fazer nossa única refeição na escola. Josué não se importava em por comida dentro de casa, a impressão que dava, era que não era mais casado, muito menos tinha filhos e assim se seguiu por pelo menos um mês.
Emagrecemos, a casa, por mais que tentássemos a manter “arrumada” nunca ficava e só íamos para a escola, para comer.
Numa tarde, minha mãe levantou. Foi uma surpresa para mim, diferente dos outros dias, que só ia até o banheiro e voltava. Neste dia, ela parou diante da sala e da cozinha, os olhos vagando pelo cômodo.
Levanto do chão imediatamente, indo abraçá-la, não recebendo afeto de volta. Não me importei, pelo menos ela estava em pé e tudo iria voltar ao lugar.
Pelo menos, era o quê pensava.
Ela limpou a casa, lavou toda a roupa que estava suja, passando praticamente a noite toda para isso e foi até uma vendinha que tinha na outra rua, trazendo comida para cozinhar.
No outro dia, sem dizer nada, levantou e foi trabalhar, deixando nosso almoço feito e a casa arrumada.
Mesmo querendo acreditar que tudo voltaria ao normal, sentia que não voltaria. A ausência de Carlos era dolorosa, suas roupas ainda continuava nas caixas no canto do quarto, assim como seus brinquedos e vê-las só fazia meu coração apertar, fazendo me culpar por não ter dito nada.
Um dia, quando voltei da escola, fui surpreendido pelo meu pai. Estávamos sozinhos, não havia mais Carlos, minha mãe estava trabalhando e tinha encontrado Júlio indo para a escola no caminho.
- Se contar pra tua mãe. Acabo com você - diz ele entre dentes, tampando minha boca com força, usando a outra mão para abaixar o short que vestia da escola.
A dor era dilacerante e por uma fração lembrei de Carlos. Apesar de gritar contra sua mão e as lágrimas molharem meu rosto, ele continuou, me forçando contra a parede, se colocou dentro de mim.
Achei que depois disso, pararia, mas ele não parou, começou a se mexer e a investir contra meu corpo. Os minutos que se seguiram foram os mais longos e dolorosos, até que tudo acabou de repente e fui liberto.
Josué arruma o short, fechando o zíper, indo até a geladeira pequena para beber água.
Em choque, saio dali, indo para o quarto que dividia com Júlio, sentindo uma dor persistente.
Apesar de Júlio me perguntar o quê tinha de errado comigo horas depois, continuei em silêncio, continuando depois que minha mãe chegou do trabalho, acreditando que estava tudo bem.
Os dias se seguiriam e achei que aquele episódio não voltaria a acontecer, mas voltou, perdurou por muito tempo, tanto tempo que acabei perdendo a noção de quando começou.
Comecei a ficar arisco, não conversava mais, muito menos ia para a escola. Minha mãe foi chamada pela diretora, que quis saber o que havia de errado por não parecer as aulas.
Minha mãe não sabia que havia deixado de ir para a escola, e naquela noite, enquanto fazia a janta, me perguntou por quê não estava indo e a única coisa que consegui responder, sobre o olhar penetrante do meu pai, era que não queria mais ir.
Ela não aceitou essa desculpa e quis saber se alguém estava mexendo comigo na escola e, só consegui responder que não, voltando minha atenção para a pequena televisão.
A única resposta que tenho para o que aconteceu depois daquele dia, foi que o sexto sentido da minha mãe apitou e ela teve certeza que havia algo errado.
Um dia, quando Josué estava me estuprando, ela chegou em silêncio .Sem fazer barulho algum e o pegou no ato. Sua reação foi pegar um machado que tínhamos em casa e desferir sem dó contra as costas de Josué.
Josué soltou um grito longo, com o machado cravado em suas costas. O sangue saia rapidamente pelo corte, ensopando suas roupas em instantes.
Me afasto rapidamente da cama, tentando entender o quê estava acontecendo, sendo puxado para perto da minha mãe que, não hesita em sair dali correndo comigo.
Na rua, grita para uma vizinha chamar a polícia, olhando a todo momento para trás, temendo que Josué aparecesse a qualquer momento.
A polícia não demora para chegar e ali mesmo na calçada minha mãe conta o que aconteceu. Os policiais me olham e entram no quintal, indo para a nossa casa. Um deles volta instantes depois, pedindo por uma ambulância no rádio.
A ambulância demora para chegar, mais quando chega, os socorristas correm para dentro, voltando com Josué em uma maca desacordado.
Naquele momento, quase sorri aliviado, imaginando que tudo estava acabado. Mas a surpresa foi maior, quando os policiais voltam e diz que teriam que levar para minha mãe para a delegacia.
Eles a levam e fico em casa, em meio ao sangue por toda parte, esperando Júlio chegar. Até que ele chega e minha mãe não.
Nem no dia seguinte.
Uma vizinha, preocupada por estarmos sozinhos, resolve ir até a delegacia e descobrir o que havia acontecido. Voltando horas depois, para dizer que nossa mãe havia sido presa por tentativa de homicídio, enquanto meu pai, por sua vez, estava internado no hospital.
Apesar de tudo, ele estava vivo.
Não demorou para que o conselho tutelar nos tirasse de casa, nos levando para uma casa, que servia para abrigo para outras crianças. Em outras palavras, um orfanato. Já que meus avós e a mãe de Josué, não moravam naquela cidade, praticamente no interior e por não terem uma boa situação financeira, acabou que ficamos sob a tutela do governo, que era a mesma coisa de dizer, que estávamos no inferno.
Comecei a odiar os policiais que tiraram minha mãe de mim. Todos. Não os via como pessoas que estavam ali para manter a ordem e ajudar quem precisava. Deviam ter prendido meu pai e não minha mãe.
Acabou que fui separado de Júlio, uma família o adotou, não querendo me levar, mesmo eu sendo irmão dele e a última lembrança que tenho do meu irmão, é o vendo sair daquele lugar, olhando para trás com os olhos marejados.
Eu, por outro lado, não fui adotado. Era velho demais, arisco, receoso e não gostava de muito contato com ninguém. Só queria minha mãe.
Algumas tias daquele lugar, funcionárias, tentavam fazer meus dias melhores ali. Mas não conseguiam. Algumas crianças pegavam no meu pé, me batiam ou me xingavam, só conseguindo alimentar toda a raiva que estava dentro de mim, me deixando mais agressivo.
Um dia, tomado pela raiva, consegui por fogo em uns papéis e o fogo se alastrou por todo cômodo. Comecei a roubar pertences das funcionárias só por roubar, os jogando fora em seguida e a bater antes de me baterem.
Na minha cabeça, sabia que um dia sairia dali e no dia que isso acontecesse, iria atrás do meu pai, aonde quer que ele estivesse e terminaria o que minha mãe começou e depois tocar o terror. Faria todo mundo me respeitar.
Gael