O despertador toca exatamente faltando dez minutos para as seis da manhã.
Ainda com os olhos fechados, lembro da noite anterior com exatidão. A visita repentina de Marco, havia me feito ir dormir completamente excitada e desejando que morasse sozinha, para o convidar para entrar.
Sabia que era completamente antiético, me envolver com meu cliente, mas eu tentei. Tentei manter o profissionalismo e não me apaixonar por ele. Só que acabou acontecendo e agora estava em uma situação que, não sabia muito bem o que significava ou o rumo que tomaria.
Tiro a coberta de cima de mim levantando, olhando para Renata que dormia ao meu lado, em sono profundo.
- Renata, vamos, acorda - digo saindo da cama, puxando a coberta para dobrar. Renata se mexe na cama resmungando, tentando voltar a dormir - Renata - insisto um pouco mais alto, conseguindo acordar a menina que, ergue a cabeça sonolenta me olhando - Pro chuveiro.
Ela sai da cama devagar, arrastando os pés para fora do quarto. Termino de arrumar a cama, guardando os travesseiros e o cobertor, forrando a cama por último.
Feito isso, pego o uniforme limpo de Renata e as roupas que eu vestiria naquele dia, indo para o banheiro em seguida, a encontrando ainda sentada na privada.
Depois do banho e de arrumar ela, vou para a cozinha, aonde minha avó já passava o café.
- Bom dia, vó - digo pegando um copo de plástico no armário.
- Bom dia, Gabi - diz sem me olhar, continuando a coar o café - Ontem ouvi alguém bater palma. Era aqui?
- Não ouvi não - minto com naturalidade - Deve ter sido na vizinha.
- Um pouco tarde para alguém ir na casa de uma pessoa - Ela continua - Sei que era tarde por que já tinha acabado a novela e eu e seu avô já estávamos deitado.
Não digo nada, temendo me complicar.
Renata vem do quarto, após arrumar sua mochila, se sentando na frente do copo com café com leite.
Meu avô chega com o pão, tiro um da sacola o dividindo em duas partes, passando margarida, colocando em um prato.
Renata tomava seu café junto com vó Marta, vô Alceu tomava dois dedo de café em frente a Tv e eu as observava quando escutamos palmas.
As mesmas palmas da noite anterior. Vó Marta ergue a cabeça no mesmo instante, me olhando.
- É aqui - diz arrastando a cadeira para trás se levantando.
Que não seja aqui. Que não seja aqui, repito em minha mente o mais rápido que posso, a seguindo para fora da cozinha.
- Bom dia, tia - diz uma voz masculina alegre, familiar.
- Bom dia, meu filho. No que posso ajudar?
- Gabriela tá ai?
Na porta da frente, ela vira a cabeça me olhando.
- Tá sim - Ela se vira para mim, sem transparecer nenhuma emoção - É pra você, Gabi.
Assinto, engolindo em seco, passando por ela, encontrando perto do muro baixo, Marco.
Sim, era o Marco, com seu largo sorriso e olhos brilhantes, vestido em uma camisa vinho que, ficava bem justa em seus braços, bermuda jeans e havaiana branca.
Por alguns segundos, só soube sustentar seu olhar, esperando que dissesse alguma coisa. Mas isso não acontece e acaba que sou obrigada a falar alguma coisa, sob o olhar da minha vó, que continuava em minhas costas.
- Oi.
- Oi - Ele responde, continuando a sustentar meu olhar, mordendo o lábio inferior de um jeito sexy. Sinto meu rosto esquentar, quando minha mente lembra com clareza, os dedos de Marco sendo colocados dentro de mim.
Fico grata mais uma vez, por não ser branca e minhas bochechas ficarem como dois pimentões.
- Vocês se conhecem de onde? - Minha vó pergunta de repente, elevando a voz.
- Gabriela foi minha advogada. Me tirou da cadeia - diz sem diminuir o sorriso, orgulhoso pelo feito - É a melhor advogada que já conheci.
- Gabi - diz minha vó com surpresa - Tirou ele mesmo da cadeia? - Olho para ela, abrindo e fechando a boca.
- Tirei.
Assim como Marco, ela sorri orgulhosa, se inclinando em seguida na minha direção.
- Fala pro menino entrar - murmura, entrando para dentro em seguida.
Olho para Marco, andando até o pequeno portão, o abrindo.
- Entra - Convido. Ele mantém o sorriso ao passar praticamente roçando em meu corpo, deixando para trás o perfume meio adocicado que usava. Que perfume!
Mostro o “caminho” com ele logo atrás, tirando o chinelo antes de entrar.
- Aceita dois dedos de café? - Minha vó oferece na porta da cozinha.
- Aceito sim - diz ele, os olhos vagando pela pequena sala.
- Esse é meu avô, Alceu - digo apresentando o idoso ranzinza, sentado no sofá com uma perna cruzada sob a outra.
Meu vô olha para ele, não esboçando nenhuma reação. Gio vem do corredor que dava nos quartos, parando abruptamente com a expressão se tornando surpresa, ao ver Marco.
- E essa é a minha irmã Gio - digo.
- A que também é advogada e tem um escritório - Ele lembra, para minha surpresa.
- Ela mesma - digo baixo.
- Oi - diz Gio, erguendo uma das mãos.
- Este é o...
- Eu sei quem ele é - diz indo para a cozinha. Claro que ela sabia, tinha estudado o caso dele junto comigo e sabia muito bem o motivo pelo qual foi preso.
Minha vó volta segurando um copo de café e um prato com um pão com margarina.
- Senta, meu filho - diz indicando o outro sofá. Marco senta, colocando o prato sob o colo, bebericando o café.
- Gabi, não tá na hora de levar a Renata pra escola? - Ela lembra, enquanto mantinha meus olhos fixos em Marco. Ainda não acreditava que ele estava ali, na sala de casa.
- É mesmo.
- Quer que leve vocês? Vim de carro - Marco se oferece.
- Não - digo rapidamente - Toma seu café, a escola é perto - Não tanto, minha mente lembra - Renata, pega a mochila. Vamos - Chamo, caminhando em direção da porta, sob o olhar de Marco.
Saio de casa, notando que nossa vizinha mais outra, que morava em frente, olhavam para o carro e cochichavam. As ignoro, segurando a mão de Renata, quando começamos a andar pela calçada.
- Aquele homem, é aquele que a gente foi ver no hospital? - Renata pergunta, pouco tempo depois.
- É sim.
- O que ele veio fazer em casa? - Era uma boa pergunta. O que Marco foi fazer em casa? A noite anterior podia até entender, mas hoje...
- Eu não sei - digo distraída com meus pensamentos.
Depois de deixar Renata na escola, praticamente corro para casa, me recompondo rapidamente quando viro a esquina, encontrando o carro de Marco ainda estacionado em frente de casa.
Entro em casa, o encontrando ainda sentado no sofá, porém sem o copo e o prato, e minha vó sentada ao lado de meu avô, numa conversa que parecia bem interessante, já que até meu avô estava prestando atenção.
Olho para Gio na porta da cozinha, secando o suor do meu rosto com as costas da mão.
- Sabe, você me é familiar - diz meu avô - Acho que já vi você - Claro que já tinha visto. A cara de Marco ficou estampada em todos os jornais na televisão, penso, mordendo o lábio inferior.
- E por quê você foi preso, meu filho? - Minha vó pergunta, inclinada um pouco para frente.
- Me meti no que não devia, em coisa errada - diz Marco, pela primeira vez sério.
- Mas agora já deve ter aprendido a lição. Essa vida só tem dois caminhos, a prisão ou o cemitério.
Queria acreditar que Marco não se envolveria novamente com o trafégo, que depois das vezes que havia sido preso, recomeçaria sua vida do zero.
- Se acabou de sair da cadeia, tá fazendo o quê aqui? - Meu vô pergunta sem rodeios, me matando de vergonha.
Marco dá um meio sorriso, erguendo o olhar do chão para me olhar.
- Vim pedir pra namorar com a Gabriela.
Um silêncio repentino se instala. Eu olhava para Marco com as sobrancelhas erguidas, completamente pega de surpresa.
Ele havia mesmo me pedido em namoro?!
Vó Marta coça a cabeça surpresa.
- É cada uma logo de manhã - diz vô Alceu levantando, indo pegar seu segundo copo de café.
- Meu filho, não é para mim que você tem que perguntar isso não. Gabi já é de maior, sabe o quê quer para a vida dela - diz minha vó. Marco me olha, fazendo com que ela fizesse o mesmo - O que você diz, Gabi?
O certo era dizer que não. Criar um distanciamento entre nós dois. Era o certo a se fazer, principalmente sob o olhar da minha avó e de Gio, que dizia claramente, para não aceitar aquele pedido.
Entretanto, na hora de dizer não...
- Sim - digo com a voz firme, fazendo com que Gio bufasse, passando por mim.
- Deixa eu ir trabalhar, que ganho mais - diz antes de sair.
- O que foi o negócio aí? - diz vô Alceu, voltando da cozinha, colocando uma mão na cintura.
- Gabi aceitou namorar com ele, Alceu - diz vó Marta calmamente.
- É o quê, menina? - Ele me olha chocado, me olhando de cima a baixo.
- Alceu - Ela o repreende, impedindo que começasse a soltar suas asneiras.
Volto a olhar para Marco, que agora sorria, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
Ela suspira, se preparando para levantar.
- Espero que vocês tenha juízo - diz, me olhando em seguida - Principalmente você, Gabi - Inclino a cabeça para o lado. Ela não iria começar a falar de sexo ali, não é?
- Vou tomar banho pra ir trabalhar. - digo, sentindo meu corpo quente demais e meus pensamentos num grande emaranhado.
- De novo? Já não tomou quando levantou? - Ela pergunta com o cenho franzido.
Engulo em seco sem jeito.
- Lá fora tá quente demais - Antes da sala, olho para Marco.
Ele era meu namorado.
Estávamos namorando!