Capítulo 2

1343 Words
Ainda me vestindo, ouço Marco na sala, o quê fez meu coração bater descompensado.       Após pegar minha bolsa no quarto e voltar para a sala, finjo naturalidade. Marco levanta ao me ver, caminhando em direção da porta. - Obrigado pelo café, dona Marta. - Precisa agradecer não, meu filho. Quando quiser voltar, as portas da minha casa estarão abertas. - Aqui não é cabaré pras portas viver aberta - diz vó Alceu, com os olhos fixos na Tv - E nem casa a mãe Joana, tem hora pra vir aqui. Não é quando você quiser não. - Tô ligado - Marco se aproxima dele, estendendo a mão em sua direção. No momento em que meu vô vai levantara mão, arregala os olhos, notando um certo volume em baixo da camiseta dele, apertando a mão de Marco no automático. - Até mais tarde, vó - digo saindo de casa, imaginando que Marco faria o mesmo, antes que minha vó também visse, que ele andava armado. - Tá indo pra onde? - Ele pergunta, quando caminho para longe do carro. - Pro ponto - digo me virando. - Entra aí. Levo você.        Hesitante, caminho até o carro, me acomodando no banco do carona, colocando o cinto de segurança, antes do carro dar partida, olho para a arma na cintura dele. - Por quê está andando armado? - pergunto séria. - Sempre andei armado - diz dando partida no carro, ligando o ar-condicionado. - E não podia deixar no carro? Poderia disparar - argumento.          Ele ergue um dos cantos da boca num sorriso, sem tirar os olhos da estrada. - Está travada, não iria disparar sozinha - Passo as mãos no rosto. Já havia ouvido muito relato de armas que disparavam sozinhas, para ter ainda mais receio ao ver uma. - O que garante que não iria? - Meu tom de voz faz com que ele me olhe. - Eu. Nenhuma das minhas armas nunca disparou sozinha - Pressiono meus lábios com força, olhando fixamente para fora - Vai ficar assim mesmo? - Vou. E quer saber de uma, me deixa aqui mesmo.         Não gostava de armas, mesmo que estivessem travadas. Poderia parecer frescura da minha parte, mas as estatísticas não mentiam em relação a armas de fogo.        Ele me olha surpreso. - Gabriela. - Para aqui - digo elevando mais a voz, impaciente. Poderia até imaginar, o discurso que vô Alceu deveria estar preparando para quando eu chegasse.         Ele estaciona no meio fio. Tiro o cinto de segurança rapidamente, descendo do carro, batendo a porta.        Me afasto em passos largos do carro, que ainda continua alguns segundos no mesmo lugar, antes de Marco dar partida, passando por mim.           Para nosso primeiro dia como namorados, estávamos nos saindo bem.        Acreditando que o sinal estava verde para pedestres, começo a passar a rua, não percebendo que um carro vinha em minha direção. Quando percebo, o veículo já está em cima de mim, me derrubando.        Algumas pessoas param, olhando a cena surpresa, enquanto outras continuam a andar, olhando para trás.        Um homem n***o sai rapidamente do veículo que quase me atropelou, vindo em minha direção. - Se machucou? - pergunta preocupado, vagando os olhos pelo meu corpo, em busca de algum ferimento. - Estou bem - Respondo de mau humor, levantando. - Tem certeza? Levo você no hospital. - Estou bem - Volto a repetir, passando as mãos em meus braços e roupa.           Carros começam a buzinar e pessoas reclamam, pelo carro dele estar parado na meio da rua.          Ele se vira para a fila de carros erguendo uma mão, pedindo que esperassem.          Olho para ele, me afastando, sob o olhar de algumas pessoas. Aquele realmente não era meu dia.          Ainda precisava andar um bocado, para chegar na Defensoria Pública e meu dia só indicava que iria de m*l a pior.        Meu celular toca na bolsa, me fazendo praticamente a fuçar em busca do aparelho que tocava insistentemente. - Oi - digo quando atendo, após ver o nome de Giulia na tela. - Que história é essa que está namorando com um traficante? - Sua voz era perplexa - Gio não iria perder a chance em contar em primeira mão a última novamente - Já vi que você perdeu mesmo o juízo, Gabi. Pelo amor de Deus, você era advogada dele. - Eu não queria... - Então por que aceitou? - Rebate - Você vai terminar com ele.         Franzo o cenho pega de surpresa. - O quê?! - É. Isso mesmo. Vai terminar com ele, antes que acabe atrás das grades também. - Não é por que ele é traficante, que também vou ser, Giulia - digo séria. - É o quê a maioria diz e tempo depois, está presa na prisão feminina por associação ao tráfico. - Não sou a maioria. Deveria saber disso.       Ela força uma risada. - Você não sabe no que está se metendo. - Sei muito bem no que estou me metendo e não vou terminar com Marco. - Ótimo. Vamos ver até onde isso vai e no que vai dar - diz sarcástica. - Eu não vou vender drogas - Volto a repetir, porém num tom mais baixo. - Espero que também não esconda dentro de casa. Não mate a vó de vergonha - Ela desliga, antes que pudesse dizer mais alguma coisa.         Solto o ar dos pulmões, colocando o celular de volta na bolsa. Giulia queria ser dona da verdade, querendo mostrar que estava certa de qualquer maneira.       Meia hora depois, viro a esquina, avistando o prédio da Defensoria Pública. O suor havia se acumulado em meu rosto, b***o e em baixo dos braços, me fazendo desejar um banho e uma blusa limpa.        Estava prestes a subir na calçada, quando um carro estaciona de repente ao meio fio, quase batendo na minha perna.        Pressiono meus lábios, prestes a xingar dessa vez o motorista, franzindo o cenho levemente, quando o homem que quase me atropelou meia hora atrás, sai do carro.        Sustento seu olhar, caminhando para longe dali, em direção do prédio, contradizendo o ditado que dizia que um raio não caia duas vezes no mesmo lugar. Ah, caia sim.        Entro no prédio, esperando a atendente atender as pessoas que estavam na minha frente. - Me desculpa se estiver sendo incoveniente - Viro meu rosto, me deparando com o homem de lá de fora - Mas tem certeza que não está machucada?        Arranhões não eram considerados como ferimento, não para mim. O susto que levei, foi mais impactante. - Tenho sim - digo baixando a cabeça. - Me chamo César - diz novamente, brincando com o resto da minha paciência. Só queria ficar sozinha, com meus novos problemas que praticamente procurei - Qual seu nome?         Olho novamente para ele. Tentando ser simpática. Eu era, mas aquela manhã não estava ajudando muito. - Gabriela.         Ele assenti, sorrindo levemente. - É um prazer conhecer você, Gabriela, e me desculpe por ter quase atropelado você. - Também fui culpada - Admito - Não estava prestando atenção - Confesso. - Quer saber de uma coisa? - Ele pergunta, se inclinando na minha direção - Eu também não estava. Me distraí com o celular. Uma atitude gravíssima. - Muito - Concordo, sorrindo junto com ele.        Ele arruma a postura, me fazendo notar que vestia um terno azul-escuro e que tinha uma maleta de couro pendurada em um dos ombros. - É advogado? - pergunto, voltando a olhar para seus olhos castanhos-escuros. - Está muito na cara? - Um pouco.       Ele assenti com um sorriso contido. - Sou sim. Passei recentemente no concurso público então... - Eu também.        Ele ergue as sobrancelhas surpreso. - E quase atropelei uma companheira de profissão - diz brincalhão - Mas já aprendi a lição e nunca mais vou atender o celular enquanto dirijo. - E eu vou ver se o sinal está fechado para mim, antes de passar a rua.        Quando chega minha vez, falo com a atendente e a mesma me instruí para a sala da Cintía.        Dou um meio sorriso para César, antes de andar em direção do elevador.
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