A escuridão da noite de Chicago pressionava-se contra as janelas de vidro do escritório de Hana, criando um reflexo infinito de luzes LED e códigos binários.
O silêncio da Fortaleza de Vidro era interrompido apenas pelo zumbido quase imperceptível dos servidores que Kenji instalara.
Hana, sob o codinome CIPHER, sentia-se um arqueólogo digital, escavando camadas de mentiras que pareciam fossilizadas no tempo.
No entanto, quanto mais ela avançava, mais percebia que a verdade não era um destino, mas um labirinto onde ela corria o risco de se perder.
Antes que pudesse mergulhar em uma nova sequência de algoritmos de rastreamento, a porta de seu escritório, o santuário que ela acreditava ser impenetrável, foi aberta de forma abrupta, quase violenta.
O som da madeira batendo contra o batente a fez saltar da cadeira, o coração disparando contra as costelas.
— Estou decepcionada com você, Hana. Visitou minha tia e aquele poço de amargura que ela chama de marido, mas nunca apareceu na minha casa para um café — a voz era vibrante, carregada de um sarcasmo afetuoso que só uma pessoa no mundo possuía.
Akira Sato entrou na sala como uma ventania de realidade. Ela não esperou por um convite. Caminhou com a confiança de quem conhecia cada segredo oculto naquelas paredes, jogando sua jaqueta de couro sobre uma das cadeiras de design e sentando-se em uma poltrona de veludo com uma elegância despojada.
Hana, após o susto inicial, sentiu os ombros relaxarem. Um sorriso genuíno, o primeiro em muitos dias, surgiu em seu rosto cansado enquanto ela se levantava para cumprimentar a amiga.
— Akira... eu deveria saber que a segurança da cobertura não significava nada para você — Hana disse, abraçando a amiga calorosamente. O perfume cítrico de Akira trouxe um pouco de ar fresco para o ambiente saturado de ozônio dos computadores.
— Eu sou uma Sato, querida. Tenho as chaves do reino e os códigos para o inferno — Akira piscou, medindo Hana de cima a baixo com olhos analíticos. — Também senti saudade, mas vamos pular as amenidades. Como você está? E não me venha com "estou bem", porque suas olheiras dizem que você está a um passo de um colapso nervoso.
Akira era mais do que uma prima de Kenji; ela era a única âncora de normalidade que Hana possuía.
As duas eram sócias na galeria de arte, mas a conexão ia além dos negócios. Akira, apesar de ter nascido no coração da Yakuza e possuir intelecto para liderar divisões inteiras do clã, escolheu a liberdade das artes e a lealdade a Hana.
Elas eram confidentes de longa data, Hana compartilhava as dores da negligência de Haru, enquanto Akira guardava, sob sete chaves, a verdade sobre o que Kenji realmente sentia.
Hana suspirou, sentando-se novamente e escondendo o rosto entre as mãos por um segundo. A presença de Akira era como um espelho que ela tinha medo de olhar.
— Estou confusa, Akira. Completamente perdida — confessou Hana, a voz falhando. — Todos ao meu redor, inclusive o Kenji, estão sugerindo que direcionei meu ódio à pessoa errada durante toda a minha vida. Mas ninguém realmente se designa a me contar a história inteira. Eles me dão migalhas e esperam que eu monte um banquete de conclusões sozinha. O que eu devo fazer?
Akira inclinou a cabeça, observando as telas brilhantes ao redor. Ela sabia que Hana estava perto de descobrir a podridão de Haru, mas também sabia que o choque da realidade precisava ser gradual para não destruí-la.
— Amiga, escute bem o que vou te perguntar — Akira começou, o tom de voz tornando-se sério e focado. — É sério que você nunca percebeu como o Haru realmente era? Não a versão que você desenhou na sua cabeça de menina apaixonada, mas o homem de carne e osso. Pensa melhor, hum?
Hana abriu a boca para defender Haru, mas as palavras morreram antes de nascerem.
— Ele nunca quis esse casamento de verdade, Hana — continuou Akira, sem piedade. — Lembra de como ele tratou você na reta final, antes daquele baile de máscaras? Lembra que ele sequer respondia às suas mensagens? Você planejava o futuro e ele sequer estava presente no presente. E após o beijo no jardim? Você não disse que ele agiu como se nada tivesse acontecido? Como se o toque dele não significasse nada?
Hana fechou os olhos. A memória do baile voltou como uma onda gelada. O beijo sob a lua foi o momento mais intenso de sua vida, uma conexão que ela acreditava ter selado o destino deles. Mas, no dia seguinte, Haru agiu com uma frieza robótica, evitando seu olhar, tratando-a como uma obrigação contratual.
Na época, ela justificou a atitude dele como "pressão do clã". Agora, a voz de Akira soprava as cinzas daquela ilusão.
E então, como um contraponto inevitável, a imagem de Kenji surgiu em sua mente.
Kenji, o homem que ela foi ensinada a temer.
Ela lembrou-se de cada interação desde o dia do casamento forçado.
O modo como ele nunca invadiu seu espaço pessoal sem permissão.
O cuidado obsessivo com sua alimentação, preparando pratos que respeitavam suas limitações sensoriais.
A paciência com que ele recebia seus insultos, respondendo com um silêncio que ela agora entendia como contenção, não como indiferença.
A segurança que ele oferecia sem pedir nada em troca, nem mesmo um "obrigado".
Kenji e Haru eram duas forças opostas. Haru era a promessa de sol que sempre terminava em eclipse; Kenji era a noite escura que, silenciosamente, guardava seu sono.
A diferença era gritante, dolorosa e impossível de ignorar.
— Meu pai... — Hana sussurrou, lutando contra o último pilar de sua antiga realidade. — Lorenzo sempre disse que Kenji era o monstro impiedoso. Uma máquina de matar sem alma. Eu cresci ouvindo que ele era uma aberração que devia ser evitada a todo custo.
Akira soltou um riso amargo e levantou-se, caminhando até a janela e olhando para a cidade abaixo.
— Seu pai é um Moretti, Hana. No mundo deles, "monstro" é qualquer um que eles não conseguem manipular ou comprar. Kenji é perigoso? Sim, ele é letal. Ele é a lâmina da nossa família. Mas ser uma arma não significa que ele não tenha alma. Significa apenas que ele foi forçado a endurecer para que outros, como o Haru, pudessem brincar de ser humanos.
Hana sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. A traição de seu pai doía tanto quanto a de Haru.
— Eu não sei no que acreditar, Akira. Minha vida inteira parece uma simulação que deu errado — disse Hana, a voz embargada.
Akira voltou-se para ela, ajoelhando-se ao lado da poltrona e pegando as mãos de Hana. O olhar da prima de Kenji era feroz e protetor.
— Sei que ainda não consegue aceitar tudo, mas quando você encontrar a verdade absoluta como CIPHER, tudo ficará mais claro. Eu espero que você não demore a encarar a realidade, Hana. Porque enquanto você não encara, você continua ferindo o homem que está sangrando por você.
Hana engoliu em seco. A frase de Akira foi como uma punhalada.
— Prepare seu psicológico, amiga — Akira avisou, sua voz baixando para um sussurro tenso. — Essa confusão tem ainda mais segredos do que você pode sequer imaginar. O desaparecimento de Haru não foi um acidente, nem um sequestro heróico. Foi uma escolha. E os motivos por trás dessa escolha são mais sujos do que as contas bancárias que você está rastreando.
Hana sentiu seu coração errar uma batida. O abismo sob seus pés parecia abrir-se ainda mais. Ela se perguntava se teria forças para enfrentar o que estava por vir.
No fundo da sua alma, naquela parte que ela tentava manter trancada, Hana já aceitava a verdade: Kenji não era o monstro.
Pelo menos, não para ela. Para o resto do mundo, ele podia ser a máquina de matar, o executor implacável da Yakuza. Mas na i********e daquela cobertura, ele era proteção.
Ele era o homem que a carregava no colo e que enfrentava os próprios pais para defendê-la de um insulto. Com ela, não existia a aberração; existia apenas Kenji, com sua tristeza oculta e sua lealdade inabalável.
Seu coração estava começando a processar o fato de que fora enganada durante toda a sua existência. Seu pai, seu noivo, sua própria percepção, todos haviam conspirado para pintar um demônio onde havia um protetor, e um santo onde havia um traidor.
_ Eu vou encontrar tudo, Akira — Hana afirmou, limpando as lágrimas e voltando-se para o teclado. Seus olhos agora tinham uma determinação gélida. — Eu vou derrubar cada firewall que o Haru construiu. Se ele me transformou em uma moeda de troca, eu vou garantir que ele saiba que eu não sou uma mercadoria barata.
Akira sorriu, um sorriso predatório de satisfação.
— Essa é a minha sócia. Não deixe que o Kenji saiba que eu te dei esse empurrãozinho, ou ele vai me banir da cobertura por "interferir no processo de cura" — Akira levantou-se e caminhou até a porta. — Vou pedir ao Yuri para trazer algo forte para você beber. Você vai precisar de coragem para o que vai descobrir a seguir, Hana. A ponta do iceberg é branca e bonita, mas o que está submerso é o que afunda os navios.
Quando a porta se fechou, Hana ficou sozinha com o brilho de suas telas. O silêncio voltou, mas agora estava carregado com uma promessa de destruição.
Ela já não buscava a verdade apenas para se libertar; buscava a verdade para fazer justiça ao homem que, silenciosamente, estava se tornando o centro de seu universo em ruínas.
A busca de CIPHER não era mais uma investigação técnica. Era uma guerra pessoal.
E Hana estava pronta para queimar a memória de Haru para aquecer a alma de Kenji.