O dia em Chicago amanheceu envolto em uma mortalha de névoa cinzenta, uma dessas manhãs em que o céu parece descer sobre os arranha-céus, sufocando a cidade com uma umidade fria e persistente.
Dentro da cobertura, o clima não era diferente. Kenji Sato estava sentado atrás de sua imensa mesa de ébano, os olhos fixos em uma série de documentos digitais que ele m*l conseguia processar.
Sua mente, normalmente uma máquina de precisão cirúrgica, estava presa a poucos metros dali, no escritório onde Hana permanecia submersa em sua própria busca.
A imprevisibilidade do clima de Chicago era algo a que Kenji já havia se acostumado; ele aprendeu cedo que a única constante na vida era a mudança brusca.
No entanto, a imprevisibilidade do coração de Hana era um território que ele ainda não sabia como mapear.
Ele estava mais preocupado com o rastro de destruição emocional que a conversa de Akira poderia ter deixado do que com a logística de seu próprio império.
Yuri, que permanecia em pé diante da mesa com a postura de um guarda pretoriano, observava o Oyabun com uma atenção silenciosa.
Ele notou o modo como Kenji girava a caneta entre os dedos, um tique nervoso que ele raramente demonstrava.
— Se o senhor não se concentrar, vai demorar mais ainda nesta tarefa e, automaticamente, vai ficar mais tempo longe dela — Yuri disse, sua voz calma cortando o silêncio. Ele usou o único argumento que sabia que traria Kenji de volta à realidade: o tempo.
Kenji parou o movimento da caneta e soltou um suspiro pesado, recostando-se na cadeira de couro.
— Sabe se Akira já foi embora? — ele questionou em um sussurro, quase como se temesse que as paredes inteligentes da cobertura pudessem registrar sua vulnerabilidade.
— Sim, senhor. Ela partiu há pouco. Veio apenas conversar brevemente com a senhora. Ela me pediu para levar uma bebida forte para Hana, mas acabei optando por algo leve. Não conheço a resistência da senhora para álcool e achei prudente não turvar o julgamento dela neste momento — Yuri explicou, sua eficiência indo além do protocolo militar; ele era um observador da natureza humana.
— Fez bem, Yuri — Kenji assentiu, sentindo um alívio momentâneo. Ele sabia que Akira tinha uma língua afiada e que, embora fosse leal, não possuía os filtros de proteção que ele tanto se esforçava para manter.
Eles voltaram ao trabalho burocrático, mergulhando em relatórios financeiros, cronogramas de treinamento de soldados e a integração de novos membros.
Kenji era meticuloso nessa parte. Ele não via o clã apenas como uma organização, mas como um organismo vivo onde cada célula precisava estar saudável.
Ele escolhia cada soldado a dedo, examinando históricos, lealdades e fraquezas. Sabia que, no xadrez mortal da máfia, uma peça m*l posicionada não apenas perdia o jogo, mas causava a morte de todos os jogadores.
No entanto, o trabalho administrativo era apenas uma fachada para o que realmente queimava em sua agenda. Kenji mudou o semblante, e a temperatura da sala pareceu cair alguns graus.
— Fez o que pedi sobre o setor norte? — ele perguntou, a voz agora gélida.
Yuri endireitou a postura, sua expressão tornando-se severa.
— Sim, senhor. Como prévia das investigações, o cenário é desolador. O cassino de Wanderson está operando fora de qualquer radar ético, mesmo para os nossos padrões. Está cheio de meninas que ainda não atingiram a maioridade. O tráfico humano tornou-se recorrente e as condições são horrendas. Elas são tratadas como mercadoria descartável, jogadas à própria sorte em quartos imundos nos subsolos.
Kenji sentiu uma onda de fúria genuína subir por sua espinha.
Ele fechou os olhos por um segundo, tentando conter o desejo de sair dali e reduzir o cassino a cinzas naquele exato momento.
Na hierarquia de valores de Kenji Sato, havia pecados que eram imperdoáveis.
O abuso de menores e o tráfico de pessoas estavam no topo da lista. Ele herdou um clã violento, mas fez regras de ferro: a Yakuza sob seu comando não lucrava com a miséria das crianças.
— Elas têm famílias? — perguntou ele, a voz baixa, sem olhar para Yuri.
— Grande parte delas sim, senhor. Mas a realidade é mais c***l do que imaginamos. A maioria não tem para onde voltar. Algumas foram vendidas pelos próprios pais por dívidas de jogo; outras eram abusadas em casa e viam na fuga uma saída que acabou sendo uma armadilha. Muitas simplesmente não têm mais ninguém no mundo.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pelo peso das vidas despedaçadas que Yuri acabou de descrever.
Kenji refletia sobre a ironia de seu papel. Ele era chamado de monstro por homens como Lorenzo Moretti, mas eram os "homens de honra" como Wanderson que cometiam as verdadeiras atrocidades nas sombras.
Ele precisava resolver o problema. Precisava ser o carrasco que a justiça comum não conseguia ser.
Mas havia o conflito. O conflito que agora tinha nome e cabelos ruivos.
A ideia de deixar Hana sozinha, mesmo protegida por Yuri e pela tecnologia de ponta da cobertura, deixava seu peito em chamas.
Ele acabou de conquistar uma trégua com ela. Acabou de vê-la defendê-lo diante de seus pais. O vínculo entre eles era um fio de seda precioso e frágil, e ele temia que, ao se afastar para cumprir seu dever sangrento, esse fio pudesse se romper.
Ele desejava desesperadamente não sair do lado dela. Queria estar lá quando ela finalmente encontrasse as respostas em seus monitores. Queria ser o ombro onde ela choraria quando a imagem de Haru terminasse de desmoronar.
Mas ele também era o Oyabun. E adolescentes estavam sendo destruídas em seu nome, sob a bandeira de seu clã, por um traidor que ele mesmo um dia confiou.
— Prepare tudo o que for necessário, Yuri — Kenji disse finalmente, levantando-se e caminhando até a janela panorâmica. Ele olhou para a névoa de Chicago, sentindo-se parte dela. — Daqui a uma semana, faremos uma visita pessoal a Wanderson. Ele vai aprender que as regras do clã não são sugestões. Ele vai aprender que passar por cima da dignidade humana tem um preço que ele não pode pagar. Quero que essa operação dure o mínimo de tempo possível. Tenho alguém me esperando em casa agora, e não pretendo deixá-la por mais tempo do que o estritamente necessário.
— Uma semana é o tempo que preciso para coordenar a extração das vítimas e o cerco tático, senhor — Yuri respondeu, fazendo uma breve reverência. — Irei providenciar tudo para que sua ausência seja cirúrgica.
Quando Yuri saiu da sala, Kenji permaneceu imóvel diante do vidro. Ele via seu reflexo na superfície escura: o rosto de um homem que carregava o pecado de gerações, mas que lutava para manter uma única luz acesa dentro de casa.
A angústia em seu peito era uma novidade.
Antes de Hana, ele teria ido para a guerra sem olhar para trás, com o coração frio e a mente focada apenas na aniquilação do inimigo.
Agora, a responsabilidade como líder da Yakuza parecia um fardo amargo que o arrancava de onde ele realmente queria estar.
Ele sabia que precisava ir. Não era apenas uma questão de negócios; era uma questão de quem ele era. Se ele permitisse que Wanderson continuasse com o tráfico humano, ele se tornaria exatamente o monstro que Hana acreditava que ele fosse.
Para ser digno de protegê-la, ele precisava primeiro limpar a sujeira que crescia sob seu comando.
Ele pensou no escritório ao lado, onde a CIPHER trabalhava incansavelmente. Hana estava cavando o passado dele e de Haru, procurando por podridão.
E enquanto ela cavava, ele teria que sair para sujar as mãos de sangue mais uma vez, garantindo que o mundo dela permanecesse seguro, mesmo que ela nunca soubesse o que ele teve que fazer para mantê-lo assim.
— Me perdoe, Kitsune — ele sussurrou para o vidro frio. — Eu preciso ser o demônio deles para poder continuar sendo o seu homem.
O peso da coroa nunca foi tão grande.
Kenji Sato sabia que a próxima semana seria um teste de resistência para ambos.
Ele enfrentaria os traidores e os abusadores nas ruas, enquanto Hana enfrentaria os fantasmas e as mentiras em seus códigos.
Quando ele voltasse, nada mais seria o mesmo. A verdade estaria exposta para os dois, e restaria saber se, em meio a tanto sangue e decepção, ainda haveria espaço para o que estava nascendo entre as sombras da Fortaleza de Vidro.
Com um suspiro final, ele se afastou da janela.
Tinha uma semana para preparar sua partida e o máximo de tempo possível para passar com ela antes que o dever o chamasse para as trevas de onde ele viera.