A luz fria dos monitores no escritório de CIPHER parecia sugar a energia vital de Hana a cada minuto que passava.
Suas mãos, antes ágeis sobre o teclado, agora moviam-se com uma lentidão carregada de desânimo.
A busca por provas, que antes era movida por uma sede de justiça e libertação, transformara-se em um exercício de autoflagelo.
Hana queria encontrar algo, qualquer detalhe, que redimisse a imagem de Haru em sua mente, mas a esperança, aquela pequena chama que ela alimentava com memórias de sorrisos e promessas de jardim, já havia se apagado há muito tempo.
Ela já possuía registros de mensagens de texto, logs de chamadas e metadados que pintavam um retrato obscuro.
No entanto, sua mente teimosa ainda sussurrava que tudo aquilo poderia ser uma montagem, um plano maquiavélico de Kenji para destruir seu único pilar de sanidade.
Ela queria mais. Precisava de algo irrefutável para ter certeza de que não estava sendo vítima de uma lavagem cerebral tecnológica.
Mas a realidade era um juiz implacável.
Quanto mais ela cavava nas camadas profundas das contas de Haru, mais percebia que o homem que ela amara nunca existiu de fato.
O Haru heróico e doce foi uma projeção de suas próprias carências, uma construção frágil de uma imaginação que precisava desesperadamente de um salvador.
A cada nova descoberta, uma transação suspeita, um contato com figuras duvidosas, um tom de voz arrogante em mensagens de áudio recuperadas, seu coração se apertava em um nó de culpa.
A vergonha por ter tratado Kenji com um desprezo tão visceral começou a pesar mais do que a própria traição de Haru.
Exausta, Hana sentiu que não conseguiria processar mais nenhum bit de informação naquela noite. Seus olhos ardiam e sua cabeça latejava.
Ela desligou os monitores, deixando o escritório mergulhar em uma escuridão súbita, e arrastou-se até o quarto principal.
O banho quente foi sua única prioridade; ela não teve forças sequer para encher a banheira.
Deixou apenas que a água caísse sobre seus ombros, tentando lavar a sensação de sujeira que as mentiras de Haru deixavam em sua pele.
Ao sair do banheiro, envolta em um robe de seda, Hana sentiu o estômago reclamar.
Estava com fome, uma fome persistente que vinha de horas de negligência alimentar, mas o cansaço era um monstro muito maior.
Ela olhou para a porta, pensando em descer até a cozinha, mas a distância parecia intransponível. Desistiu. Deitou-se na cama, puxando os lençóis de fios egípcios até o queixo, pronta para deixar que o esquecimento do sono a levasse.
No entanto, a porta do quarto abriu-se suavemente. Kenji entrou carregando uma bandeja de prata de tamanho considerável.
O aroma de arroz temperado e peixe grelhado preencheu o quarto instantaneamente.
Ele se aproximou da cama com passos silenciosos, notando que ela já estava pronta para se render à exaustão.
— Sabia que seria capaz de dormir sem se alimentar, mas não pode fazer isso, Hana — Kenji disse, sua voz soando como um bálsamo na penumbra do quarto. — Eu trouxe o nosso jantar. Não aceitei que você passasse mais uma noite em claro com o estômago vazio.
Hana sentou-se devagar, apoiando as costas nos travesseiros. Um sorriso fraco e quase tímido surgiu em seus lábios.
Ela ainda se sentia em choque com a constância dele.
Como um homem que foi alvo de seu ódio mais puro podia continuar cuidando dela com tamanha devoção? Era uma pergunta que a perseguia, deixando-a perdida entre a gratidão e a confusão.
— Parece ótima — ela admitiu, observando a apresentação impecável do Sashimi e dos Uramakis. — Eu não sabia que acabaria me tornando tão apaixonada por comida japonesa. Acho que você me viciou nos seus temperos.
— A culinária japonesa preza pelo equilíbrio, assim como eu tento prezar nesta casa — Kenji respondeu, acomodando a bandeja sobre a cama entre eles.
Hana começou a comer sem a cerimônia que as regras de etiqueta de sua família exigiam.
Naquela cobertura, sob o olhar atento de Kenji, ela sentia uma liberdade que nunca teve na mansão dos Moretti.
Ela comia com vontade, e Kenji a observava com um brilho de satisfação nos olhos. Ele gostava desse lado dela: a Hana autêntica, que deixava de lado a máscara de "senhora da máfia" para ser apenas uma mulher faminta e exausta.
Eles comeram em um silêncio confortável, um tipo de quietude que só existe entre pessoas que estão começando a entender a linguagem um do outro sem a necessidade de ruídos.
Quando terminaram, Kenji recolheu os pratos com uma eficiência silenciosa. Ele levou tudo para a cozinha, organizou a louça na máquina com movimentos precisos e voltou para o quarto pouco depois.
Hana ainda o esperava, sentada na mesma posição, com os olhos fixos nele enquanto ele fechava a porta e se aproximava.
— Tem alguma coisa para falar? — Kenji perguntou, sentando-se na beira da cama. Ele era um observador nato; aprendeu a ler as microexpressões faciais e a linguagem corporal das pessoas como uma tática de sobrevivência como Oyabun.
Com Hana, essa habilidade era usada para entender o que o silêncio dela escondia.
Hana respirou fundo, brincando com a barra do edredom. A pergunta que martelava em sua mente finalmente saiu.
— Se eu desprezei você tão injustamente... se eu fui tão cruel... por que você decidiu não me contar a verdade desde o começo? — Ela levantou os olhos, buscando a honestidade dele. — Isso teria evitado tanto sofrimento. Eu não teria tratado você como um monstro, como se você tivesse tomado o lugar do seu irmão à força. Por que me deixar odiar você por tanto tempo?
Kenji inclinou a cabeça levemente, sua expressão suavizando-se, mas mantendo a seriedade que o cargo exigia.
— Então agora você confia em mim, Hana? — Ele perguntou, e ela pôde ouvir uma nota de esperança contida em sua voz.
— Quase — Hana respondeu com sinceridade, sendo cuidadosa para não entregar todo o seu território emocional de uma vez. — Eu só quero desvendar esse segredo por inteiro. Mas... alguns detalhes que encontrei hoje já me dizem que você não é o único culpado desta história. Na verdade, me dizem que talvez você nem seja culpado de nada.
Kenji soltou um suspiro curto, quase um riso sem som.
— Como eu disse antes, você não confiava o suficiente em mim no início. Se eu tivesse despejado a verdade sobre as falhas do Haru na sua frente no primeiro dia, você teria me chamado de mentiroso e manipulador. Você teria dito que eu estava tentando assassinar o caráter do seu "herói" para validar o meu lugar na sua vida. — Ele fez uma pausa, fixando o olhar no dela. — Palavras de um "monstro" são apenas ruído. Você precisava que a verdade viesse dos fatos, não da minha boca. Somente quando você descobre sozinha é que a verdade se torna real.
Hana sentiu o peso daquelas palavras. Ele tivera a paciência de um estrategista e a resiliência de um mártir. Ele permitira ser odiado para que ela pudesse ser livre para enxergar.
Ela soltou um suspiro de cansaço, sentindo as muralhas ao redor de seu coração desmoronarem um pouco mais.
— Vou precisar me ausentar daqui a uma semana — Kenji mudou de assunto, sua voz tornando-se profissional, mas mantendo um tom baixo. Ele se acomodou no espaço ao lado dela na cama, mantendo uma distância respeitosa, mas permitindo que seus corpos compartilhassem o mesmo calor. — Talvez eu fique fora por alguns dias para resolver pendências do clã. Yuri ficará com você e a segurança da cobertura será triplicada. Não tem com o que se preocupar, você estará segura.
Hana sentiu uma pontada súbita de ansiedade. A ideia de Kenji saindo para o mundo perigoso da Yakuza, onde ele era a "máquina de matar" que todos queriam destruir, fez seu peito apertar de uma forma nova.
— Não vai se machucar, vai? — A pergunta saiu antes que ela pudesse filtrá-la.
O mundo de Kenji parou por um segundo. Ele se virou para ela, os olhos escuros dilatando-se em surpresa.
Foi a primeira vez que Hana demonstrou uma preocupação genuína com a integridade física dele, e não apenas uma curiosidade sobre seus negócios.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma tensão elétrica.
— Vou tentar voltar sem nenhum arranhão, Kitsune — ele respondeu, sua voz soando mais profunda. — Mas, no meu mundo, não posso fazer tal promessa. O risco é o ar que eu respiro. No entanto, farei o impossível para retornar para você.
Hana sentiu o peso daquela promessa. Ela percebeu que, aos poucos, não era apenas a verdade sobre Haru que ela estava descobrindo; era um sentimento novo e assustadoramente real que estava criando raízes em seu próprio coração.
Ela olhou para Kenji, o homem que fora seu inimigo imaginário e que agora era seu único porto seguro.
As barreiras estavam quebradas. O ódio fora substituído por uma dúvida melancólica e a dúvida estava dando lugar a uma semente de afeto que Hana não sabia se estava pronta para cultivar, mas que já não conseguia mais arrancar.
— Apenas volte — ela sussurrou, fechando os olhos e deixando que o sono finalmente a reivindicasse, sentindo a presença protetora de Kenji ao seu lado como a única certeza em um mundo feito de mentiras.
Naquela noite, sob o céu cinza de Chicago, Hana não sonhou com Haru.
Ela sonhou com mãos grandes que a protegiam da queda e com uma voz que a chamava por um apelido que, antes, ela detestava, mas que agora soava como a melodia de um lar.