O Escudo do Dragão.

1645 Words
Hana acordou antes que os primeiros raios de sol conseguissem perfurar a densa neblina de Chicago. Naquela manhã, o silêncio da cobertura não parecia opressor, mas sim um convite à reflexão. Ela permaneceu alguns minutos deitada, observando as sombras no teto, e tomou uma decisão: cessaria suas buscas frenéticas por CIPHER naquele dia. Não porque a verdade não importasse mais, mas porque ela precisava de algo que os códigos não podiam dar. Ela precisava observar Kenji. ​Nos dias que antecediam a partida dele, Hana queria ser uma testemunha ocular de quem era o homem com quem dividia a vida. Queria medir cada gesto, cada olhar e cada palavra dita sem o filtro da tecnologia. Queria, pela primeira vez, confiar em seus próprios instintos. ​Ela levantou-se e escolheu um vestido de algodão leve, de um tom creme suave. O tecido era fluido, flutuando ao redor de suas pernas, uma escolha que rompia com seu guarda-roupa habitual de cores escuras e cortes estruturados. Às vezes, Hana sentia que precisava fugir da rotina, mesmo que fosse através de uma cor. Ela desceu as escadas com passos leves, os pés descalços sentindo a frieza do mármore. Era um hábito de infância, uma pequena rebeldia que Lorenzo Moretti tentou extinguir nela por anos, alegando que "uma dama de sua linhagem nunca caminha sem sapatos". Ali, naquela cobertura que começava a parecer mais um lar do que uma prisão, ela se permitia aquela pequena liberdade. ​No entanto, a sensação de paz evaporou assim que ela atingiu o último degrau. Sentada no sofá de couro da sala, como se fosse a dona do lugar, estava a personificação de todos os traumas de infância de Hana: Isabella Moretti. ​O olhar de Isabella era frio, mas carregado de um veneno que Hana conhecia bem. Ela usava um conjunto de alfaiataria impecável e segurava uma bolsa de grife como se fosse um cetro. ​— Quem deixou você entrar aqui? — A voz de Hana saiu firme, mas seu coração martelava contra as costelas. ​Isabella olhou para cima, um sorriso venenoso curvando seus lábios perfeitamente pintados de vermelho. — Quanta agressividade, querida. É assim que se recebe sua madrasta? Senti saudades da minha enteada... embora pareça que você finalmente desistiu de ser uma Moretti para se tornar uma simples dona de casa japonesa. ​Hana sentiu o estômago revirar. Ela odiava Isabella com cada fibra de seu ser. Odiava o fato de ela ter sido secretária de seu pai e tê-lo "fisgado" enquanto sua mãe ainda lutava para manter a família unida. Odiava a forma como Isabella se infiltrava em tudo o que era dela. ​— Saia da minha casa — Hana ordenou, aproximando-se com os punhos cerrados. — Você não é bem-vinda aqui. Não sei como conseguiu passar pela segurança, mas garanto que não vai conseguir pisar aqui nunca mais. ​Isabella soltou uma risada seca, levantando-se devagar para ficar na altura de Hana. — "Sua" casa, Hana? Que ilusão adorável. Esta cobertura pertence ao Kenji Sato. E pelo que eu sei, você é apenas uma hóspede indesejada que ele foi forçado a aceitar porque o seu precioso Haru fugiu como um covarde. Você não passa de uma impostora, vivendo de caridade em um casamento que odeia. ​Hana ficou em silêncio por um segundo, o impacto das palavras de Isabella atingindo-a com força. A verdade parcial daquela mulher era como ácido; era difícil refutar que, legalmente e tecnicamente, ela ainda se sentia uma estranha naquele território. ​No entanto, o que Isabella não percebeu foi a sombra que se materializou na entrada da sala. Kenji estava parado ali há alguns minutos, observando. Ele viu Hana manter a postura, viu sua coragem, mas no momento em que a palavra "impostora" saiu da boca de Isabella, o Oyabun decidiu que o tempo de observar havia acabado. ​— Desculpe a intromissão — a voz de Kenji ressoou pela sala, profunda e gélida como um inverno siberiano. — Mas não permito que ninguém entre nesta cobertura para insultar a dona deste lugar. ​As duas mulheres viraram-se para ele. Isabella tentou manter a pose, mas Hana notou o leve tremor nos dedos da madrasta. Kenji caminhou até o lado de Hana, e sua presença parecia preencher todo o espaço, reduzindo a sala à sua vontade. ​— Minha esposa não é apenas a dona deste lugar, Isabella — Kenji continuou, sua voz mantendo uma calma perigosa. — Ela é a dona de tudo o que me pertence. De cada empresa, de cada conta bancária e de cada palmo de terra que o nome Sato protege. Se você veio até aqui somente para insultar a minha mulher, peço que saia agora. E serei bem claro: você nunca mais terá permissão para cruzar este limiar. ​Isabella inflou o peito, o ego ferido sobrepondo-se ao bom senso. — Me deve respeito, garoto! — Ela cuspiu a palavra com desprezo. — Eu sou a esposa de Lorenzo Moretti. Se você me tratar assim, meu marido garantirá que sua preciosa Yakuza sofra as consequências. Você não passa de um moleque brincando de mafioso. ​Um silêncio sepulcral caiu sobre a sala. Kenji deu um meio sorriso macabro, um gesto que não alcançava os olhos e que fazia o sangue de quem o via congelar. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre ele e Isabella até que ela fosse obrigada a olhar para cima para encará-lo. ​— "Moleque"? — Kenji repetiu, quase em um sussurro. — É curioso. Ninguém que já me chamou assim sobreviveu para contar a história do que aconteceu depois. Eu sou o chefe da Yakuza, Isabella. Eu não brinco de fazer guerra; eu sou a própria guerra. Se eu tiver que destruir a aliança com seu marido para proteger a honra da minha esposa, eu o farei sem hesitar um segundo. ​Ele apontou para a porta com uma elegância letal. — Saia. Agora. Antes que eu decida que o desrespeito à Senhora da Yakuza exige uma compensação que seu marido não poderá pagar. ​Isabella, percebendo que o blefe de Kenji não existia e que ela estava diante de um homem que realmente poderia matá-la sem mudar a expressão, recolheu suas coisas e saiu apressada, o som de seus saltos estalando contra o chão como tiros em retirada. ​Hana soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e desabou no sofá. A frustração pesava em seus ombros. Ela sabia que Isabella não deixaria aquilo barato; ela correria para Lorenzo e destilaria seu veneno, transformando aquele incidente em uma crise diplomática entre as famílias. ​Kenji aproximou-se e sentou-se na poltrona à frente dela. Ele notou a tristeza palpável nos olhos de Hana, uma melancolia que ia além da raiva da visita. ​— Ela não voltará — Kenji disse, sua voz voltando ao tom suave que reservava apenas para ela. — Já dei ordens para Yuri redobrar a atenção e banir o nome dela da nossa lista de acesso. Durante os dias em que eu estiver fora, ninguém entrará aqui sem que você queira. ​Hana levantou os olhos para ele, sentindo uma mistura de gratidão e temor. — Tudo bem, Kenji... obrigada. Mas eu não sei se posso ser protegida da fúria de Lorenzo Moretti. Isabella vai contar a ele uma versão distorcida. Meu pai não aceita ser contrariado, e ele vê a Isabella como uma extensão de seu próprio poder. ​Kenji inclinou-se para frente, fixando o olhar no dela. — Escute bem, Hana. Se seu pai vai proteger a mulher dele com unhas e dentes, eu farei o mesmo pela minha. Não baixe a guarda só pelo fato de ele carregar o seu sangue. Se Lorenzo Moretti tentar tocar em você, ou se ele tentar usar o nome dele para te intimidar, eu não vou relevar. No momento em que você assinou aquele contrato de casamento, você deixou de ser apenas uma Moretti sob o domínio dele. Você se tornou a Senhora da Yakuza. E ninguém toca no que é meu. ​Hana ficou em silêncio, processando a intensidade daquelas palavras. Havia uma promessa ali que a assustava tanto quanto a confortava. Ela conhecia a reputação de Kenji; sabia que ele era capaz de se tornar uma máquina de matar quando necessário. O que a deixava em conflito era perceber que o "gatilho" para essa máquina agora era o bem-estar dela. ​Pela primeira vez, ela viu claramente as linhas de batalha sendo traçadas. De um lado, o pai que ela sempre tentou agradar, mas que a vendera como mercadoria. Do outro, o homem que ela odiou, mas que estava disposto a queimar o mundo para mantê-la segura. ​— Você realmente enfrentaria o meu pai por mim? — Ela perguntou, a voz quase sumindo. ​Kenji levantou-se e caminhou até ela, parando a poucos centímetros. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza infinita, tocou o rosto de Hana. — Eu enfrentaria o inferno inteiro por você, Hana. Só espero que, quando a poeira baixar, você ainda esteja aqui para ver o que sobrou. ​Hana fechou os olhos ao toque dele, sentindo a semente de afeto em seu coração crescer um pouco mais. A confusão em sua mente ainda era vasta, e a verdade sobre Haru ainda estava oculta nas sombras de seus códigos, mas uma coisa era inegável: o monstro de quem seu pai falava era o único homem que estava disposto a protegê-la do próprio pai. ​Naquele silêncio que se seguiu, Hana entendeu que a guerra que estava por vir não seria apenas entre clãs, mas uma batalha pela sua alma. E, surpreendentemente, ela não queria mais estar em outro lugar que não fosse ao lado do homem que o mundo chamava de máquina de matar, mas que ela, em segredo, começava a chamar de refúgio.
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