O Peso da Ausência.

1414 Words
O dia na cobertura foi marcado por uma coreografia metálica e eficiente. Desde as primeiras horas da manhã, a atmosfera mudou; o ar parecia vibrar com uma tensão elétrica, a mesma que precede as grandes tempestades no Lago Michigan. Kenji Sato não era apenas um homem, ele era o eixo sobre o qual girava uma organização complexa e impiedosa, e o peso dessa responsabilidade manifestava-se agora em cada movimento coordenado dentro da Fortaleza de Vidro. Kenji passou o dia imerso em preparativos de guerra. O assunto do traidor Wanderson não era apenas uma questão de logística, era uma questão de sobrevivência política. No mundo da Yakuza, o silêncio diante da insubordinação era interpretado como fraqueza, e a fraqueza era um convite ao abismo. Se ele permitisse que um oficial de alto escalão operasse um esquema de tráfico humano e abuso de menores sob seu estandarte e saísse impune, o precedente seria catastrófico. Outros seguiriam o mesmo caminho, acreditando que o novo Oyabun tornara-se brando, ou pior, que seu casamento o distraiu do gume afiado de sua espada. Ele selecionou seus homens com a precisão de um relojoeiro. Levaria consigo apenas os mais leais, soldados cujas vidas estavam ligadas à dele por juramentos de sangue e dívidas de honra. Yuri, no entanto, foi o único que recebeu a ordem de permanecer. Kenji não podia e, acima de tudo, não queria deixar Hana sozinha. Yuri era sua extensão, seus olhos e seus ouvidos, e a única pessoa em quem confiava plenamente a segurança da mulher que se tornara o centro de sua gravidade. Hana, por sua vez, observava a movimentação com uma curiosidade melancólica. Do mezanino, ela via os soldados entrarem e saírem. Eram homens de rostos pétreos, vestindo ternos escuros que escondiam arsenais e tatuagens que contavam histórias de violência. Nenhum deles ousava direcionar-lhe um olhar direto. Ao cruzarem seu caminho nos corredores amplos, faziam uma breve e profunda reverência com a cabeça, o símbolo máximo de respeito à Oka-san, a matriarca, a senhora da Yakuza. E então, saíam sem olhar para trás, como sombras obedientes. Com toda aquela correria estratégica, ela não conseguiu ver Kenji por horas. Pela primeira vez em semanas, Hana percebeu que ele faria falta. O tédio que antes era sua única companhia agora era substituído por uma inquietação estranha. Sem vê-lo por um único dia, a cobertura parecia mais vasta, mais fria e assustadoramente vazia. Era uma percepção que a assustava: em algum lugar entre as ofensas proferidas no altar e os jantares silenciosos na madrugada, o "monstro" havia se tornado essencial. Tentando distrair a mente, ela pegou um livro de capa dura na biblioteca de Kenji. Era uma obra sobre história clássica japonesa, repleta de gravuras de eras passadas. Embora o livro fosse traduzido, Hana sentiu uma vontade súbita de aprender o idioma original, de entender as nuances que se perdiam na tradução, talvez para entender melhor o homem que falava aquela língua com tanta autoridade e dor. Mas o cansaço dos dias em que operou como CIPHER, somado à carga emocional da visita da madrasta, cobrou seu preço. Ela se encolheu no sofá da sala, o livro ainda aberto sobre o peito, e adormeceu profundamente. Kenji apareceu no fim da tarde, o sol alaranjado de Chicago se pondo atrás dele, projetando longas sombras pelo chão da sala. Ele a encontrou ali, dormindo confortavelmente em meio às almofadas. Ao vê-la tão vulnerável e serena, um golpe de culpa o atingiu. Ele percebeu o quanto havia sido negligente naquele dia; focado em mapas, armas e rotas de fuga, esquecera-se do básico. Hana não havia comido o dia inteiro. Ele fora ocupado demais para notar que sua proteção não deveria ser apenas contra balas, mas contra a própria negligência dele. Com uma agilidade que beirava a delicadeza, ele seguiu para a cozinha. Preparou uma refeição simples, mas pensada meticulosamente para agradar o paladar sensível dela: um Ochazuke reconfortante, com arroz premium, chá verde aromático e pedaços perfeitamente grelhados de salmão. Ele organizou tudo em uma pequena mesa de centro na sala, ajoelhando-se sobre uma almofada. Antes que pudesse chamá-la, Hana despertou sozinha, seus olhos verdes piscando para a penumbra da sala antes de encontrarem os dele. Ela sorriu levemente ao vê-lo ali. O sono fora pesado devido ao cansaço excessivo, mas a visão de Kenji era como um remédio revigorante. — Desculpe não ter me lembrado do seu almoço, Kitsune — Kenji explicou-se em um tom baixo, quase uma prece, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. — Estava tão imerso nos preparativos que acabei não notando o tempo passar. — Não tem problema — Hana respondeu, sentando-se e ajeitando o vestido claro. — Você está aqui agora. Ela sentou-se de frente para ele, também sobre uma almofada no chão, e começaram a comer. O silêncio que se seguiu não era pesado; era um espaço de comunhão. Enquanto saboreava a comida, Hana ainda se perguntava como era possível que Kenji conseguisse preparar pratos que ela aceitava sem resistência. Ela, que sempre fora seletiva e muitas vezes via o ato de comer como uma obrigação, agora encontrava prazer no tempero dele. O cuidado dele com cada ingrediente, a paciência para deixar tudo exatamente como ela gostava, era uma forma de afeto silencioso que a deixava confusa e, simultaneamente, segura. — Vai ficar quantos dias fora de casa? — Hana finalmente tomou coragem para fazer a pergunta que ecoava em seu peito desde a manhã. Kenji pousou os hashis, seu olhar tornando-se sério. — O mínimo possível. Pretendo demorar não mais que três dias, mas a realidade do campo é imprevisível. Preciso garantir que as mulheres e os adolescentes daquele lugar sejam transportados para um local seguro. Se eu simplesmente derrubar o cassino e as deixar à própria sorte, elas terão um destino muito pior nas mãos de outros predadores. Preciso limpar a bagunça que um dos meus oficiais deixou. Hana assentiu. Ela entendia agora. Kenji não era apenas o executor; ele era o limpador, o homem que removia o câncer de dentro de sua própria organização para evitar que a podridão se espalhasse. Havia uma honra distorcida naquele mundo, e Kenji era o guardião dessa honra. — Espero que não demore — ela sussurrou, olhando para o prato. — Enquanto isso, prometo que vou encontrar a verdade. Vou acabar com esse mistério de uma vez, para que tudo esteja resolvido quando você voltar. Kenji apenas assentiu, mas seu coração pesou. Ele sentia um medo genuíno do choque que ela sofreria. Ele sabia o que os registros de CIPHER revelariam em breve. Haru não era apenas um covarde; ele era um arquiteto de traições. A queda de Hana já estava premeditada desde o momento em que o primeiro contrato foi redigido, e Kenji sabia que não poderia evitar o impacto dessa descoberta. Ele não estava preocupado se ela acreditaria nele ou não; ele sabia que as provas falariam por si. O que o torturava era o fato de não poder amenizar a dor que estava por vir. Haru era o mundo dela, a luz que ela seguiu por anos, e ver essa luz se transformar em escuridão seria como ver uma parte de Hana morrer. Kenji sentia que ser odiado por ela por toda uma vida seria uma tortura suportável, contanto que ela estivesse segura. Mas vê-la sofrer por causa das mentiras de outro homem era insuportável. Ele não permitiria que ela cultivasse aquele ódio contra si mesma ou que se perdesse na decepção. Jurou para si mesmo, ali naquela sala à luz de velas, que iria protegê-la. Não poderia protegê-la da verdade, a verdade era um direito dela, mas ele arrumaria um jeito de ser o solo firme onde ela pousaria após a queda. Ele não seria apenas o monstro que a capturou; ele seria o homem que a seguraria quando o resto do mundo a soltasse. — Apenas tome cuidado, Kenji — Hana disse, quebrando seus pensamentos. Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando brevemente os dedos dela. — Eu voltarei, Hana. A verdade pode ser dura, mas eu estarei aqui para ajudá-la a carregar o peso dela. Naquela noite, a Fortaleza de Vidro parecia estar em suspensão. Kenji preparava-se para enfrentar demônios nas ruas, enquanto Hana preparava-se para enfrentar os demônios em sua memória. Mas, pela primeira vez, eles não estavam mais em lados opostos de uma trincheira. Eles eram dois náufragos em uma tempestade de mentiras, segurando-se um ao outro antes que a onda final quebrasse sobre eles.
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