O silêncio no escritório de alta tecnologia era quase absoluto, interrompido apenas pelo zumbido constante das ventoinhas de resfriamento e o clique rítmico do teclado.
Fazia apenas vinte e quatro horas que o carro de Kenji cruzou os portões da cobertura rumo ao setor norte de Chicago, mas para Hana, o tempo parecia ter se transformado em uma substância viscosa e lenta.
Desde que ele partiu, ela se fechou em seu santuário digital, alimentada por uma obsessão que beirava a autodestruição. Ela prometeu a si mesma: só sairia dali quando a última peça do quebra-cabeça chamado Haru Sato estivesse em seu devido lugar.
Hana vasculhava cada bit de informação do celular que Haru deixou para trás. No entanto, a frustração crescia a cada diretório aberto. As mensagens eram superficiais, as transações financeiras, embora suspeitas, eram justificáveis dentro do estilo de vida de um herdeiro mimado, e as ofensas direcionadas a Kenji pareciam apenas a birra de um irmão mais novo ressentido.
"Há algo fora do lugar", ela sussurrava para si mesma, os olhos verdes ardendo pela falta de sono. A imagem de Haru como uma vítima inocente de um irmão tirânico começava a fraquejar, mas as provas irrefutáveis ainda lhe escapavam por entre os dedos.
Enquanto isso, do outro lado da porta pesada, Yuri enfrentava um dilema que não constava em nenhum manual de tática militar.
O conselheiro do Oyabun não sabia mais como lidar com a "Senhora da Yakuza". Hana não se alimentava, m*l bebia água e ignorava qualquer tentativa de contato.
Yuri sabia que a conta chegaria em breve. Kenji Sato não era um homem que aceitava desculpas quando o assunto era o bem-estar de sua esposa. Se Hana definhasse sob sua vigilância, Yuri tinha a certeza absoluta de que sua punição seria lenta e dolorosa.
Desesperado e consciente de sua responsabilidade, Yuri decidiu apelar para a única coisa que parecia conectar os moradores daquela cobertura: a culinária.
Ele não possuía o toque artístico de Kenji, cujos pratos eram quase poemas comestíveis, mas era um cozinheiro competente. Preparou uma seleção de Sashimi e uma sopa de missô quente, organizando tudo em uma bandeja com uma precisão espartana.
Ele bateu suavemente na porta e entrou sem esperar permissão. Hana parou o que fazia, as mãos pairando sobre o teclado como se estivessem congeladas. Seus olhos vagaram da tela para Yuri e, finalmente, para a comida. O aroma era familiar, evocando a presença constante de Kenji que, agora, fazia uma falta física em seu peito.
— Como a senhora não come desde ontem, receio que precise se alimentar urgentemente — Yuri falou, sua voz mantendo a formalidade rígida, embora houvesse uma nota de apreensão nela. — O Oyabun vai me queimar vivo se descobrir que você não comeu bem enquanto ele estava fora. Ele foi explícito sobre sua saúde ser minha prioridade absoluta.
— Obrigada, Yuri — Hana murmurou, sentindo uma pontada de culpa ao ver o esforço do conselheiro.
Yuri não se moveu. Ele permaneceu parado a poucos passos da mesa, observando-a como um sentinela. Hana o encarou, a sobrancelha erguida em um questionamento silencioso.
— Mais alguma coisa, Yuri? — ela perguntou, a voz rouca pelo desuso.
— Perdoe-me, senhora, mas preciso me certificar de que vai comer — ele explicou com uma honestidade desarmante. — Minha ordem é protegê-la, e a desnutrição é um inimigo que não posso combater com armas.
Hana soltou um suspiro cansado, mas um pequeno sorriso de canto apareceu em seu rosto.
— Tudo bem. Mas se vai ficar até eu terminar, sente-se um pouco. Sua postura impecável e esse olhar de vigilante me deixam desconfortável. Sinto que estou sendo vigiada por uma estátua.
Yuri hesitou por um milésimo de segundo, mas acabou sentando-se em uma cadeira lateral, mantendo a coluna reta como uma haste de ferro.
Ele observou Hana com uma curiosidade contida. Para os soldados do clã, a esposa de Kenji era uma figura enigmática. Ela era compreensiva, nunca levantava a voz e tratava os funcionários com uma paciência que muitas vezes beirava a doçura, algo inaudito nas casas das grandes famílias da máfia, onde o medo era a moeda de troca habitual.
Enquanto Hana levava a primeira colher de sopa à boca, Yuri olhou para o mosaico de telas à frente deles.
— Esse acesso é do celular de Haru? — ele questionou, sua voz neutra.
— Sim — Hana respondeu, a frustração voltando a nublar seus olhos. — Mas não há nada de interessante aqui. São conversas fúteis, transações de rotina... é como se ele estivesse escondendo uma parte inteira da vida dele que eu não consigo acessar. Sinto que estou socando o ar, Yuri.
Yuri soltou um suspiro curto, quase imperceptível.
— Mas a senhora não iria mesmo conseguir nada relevante aí. Esse é o celular reserva de Haru. O dispositivo que ele usava para manter as aparências diante do seu pai e da senhora. O celular que ele usa para sua personalidade real... o que ele chama de "vida nas sombras"... é outro.
Hana parou com a colher no ar. O mundo pareceu silenciar por um instante enquanto as peças do quebra-cabeça, que antes pareciam disformes, se encaixavam com um estalo violento em sua mente.
Ela se sentiu uma i****a. Como uma hacker do nível de CIPHER não havia considerado que um homem vivendo uma vida dupla teria um hardware duplo?
— Onde está esse celular, Yuri? — ela perguntou, a voz agora carregada de uma urgência perigosa.
— Não está aqui fisicamente, mas o servidor de backup está vinculado a uma conta fantasma que o clã Sato monitora. O Oyabun nunca me deu ordens para impedi-la de ver, caso a senhora perguntasse — Yuri respondeu, fornecendo uma sequência de códigos que pareciam uma chave para o inferno.
Hana comeu rapidamente, quase sem mastigar. Ela sentia que se não terminasse aquela refeição agora, seu estômago se fecharia para sempre diante do que estava prestes a descobrir.
Assim que a bandeja foi deixada de lado, seus dedos voaram sobre o teclado. Ela inseriu os códigos de Yuri, quebrou a criptografia da conta fantasma e, em questão de minutos, a vida secreta de Haru Sato foi vomitada em suas telas.
O impacto foi imediato e devastador.
Hana viu conversas que datavam de meses antes do casamento. Havia mensagens frequentes com uma mulher cujo nome ela não conhecia, mas cujas fotos eram carregadas de uma i********e explícita que Hana nunca teve com Haru.
Nas mensagens, Haru referia-se a Hana como "o fardo sem graça", "a boneca de porcelana que não despertava desejo algum" e "o bilhete premiado que eu preciso suportar para manter meu padrão de vida".
Cada palavra lida era como um estilete rasgando a pele de Hana. O homem que ela acreditava ser seu salvador, o doce Haru que lhe prometeu flores e liberdade, descrevia o toque dela com repulsa.
Mas o pior ainda estava por vir.
Hana acessou os logs de mensagens entre os irmãos Sato. Viu as respostas de Haru às tentativas de Kenji de colocá-lo no caminho certo.
Haru ria da responsabilidade, afirmando que "Kenji nasceu para carregar o peso, enquanto ele nasceu para gastar o ouro". Ela viu Kenji ameaçar o irmão, não por poder, mas para que ele cumprisse o acordo de honra com os Moretti para não envergonhar Hana.
E então, o golpe final. Um áudio gravado por Haru para um de seus credores de jogo.
"Não se preocupe com a dívida. O meu irmão é um i****a sentimental. Ele vai assumir o casamento, vai assumir a minha noiva e vai pagar cada centavo que eu devo só para não ver o nome da família na lama. Eu saio livre, com o bolso cheio, e ele fica com a ruiva sem sal. É um negócio perfeito."
O silêncio que se seguiu no escritório foi tão pesado que Hana sentiu que o teto estava prestes a desabar.
Seu coração, que por tanto tempo bateu em nome de uma lealdade cega a Haru, finalmente compreendeu a extensão da traição.
O que ela conhecia de Haru eram apenas fragmentos de uma realidade que ela mesma criou para sobreviver à sua solidão. Ela amou um fantasma, uma miragem construída por um narcisista que a viu apenas como uma mercadoria.
Por outro lado, ali estava a verdade nua e crua sobre Kenji. O homem que ela chamou de monstro havia assumido o fardo de um casamento com uma mulher que o odiava, apenas para protegê-la da humilhação de ser abandonada por um canalha.
Ele aceitou ser o vilão na história dela para que ela não tivesse que enfrentar o fato de que seu "príncipe" a vendeu por uma dívida de cassino.
Hana sentiu as lágrimas escorrerem, mas não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas de uma fúria gélida e de uma clareza cortante. Ela olhou para Yuri, que permanecia em silêncio, respeitando o luto de uma ilusão que acabou de morrer.
— Ele me vendeu — Hana sussurrou, a voz carregada de uma dor que transbordava pelos olhos. — Ele me trocou como se eu fosse um relógio ou um carro.
— O Oyabun tentou evitar que a senhora soubesse dessa forma — Yuri disse suavemente. — Ele queria que a verdade viesse, mas ele temia que o impacto a destruísse.
Hana levantou-se, os olhos verdes agora brilhando com uma resolução perigosa. Ela não era mais apenas Hana Moretti, a noiva abandonada. Ela era CIPHER, e agora, ela compreendia quem era o homem que dormia ao seu lado e quem era o monstro que ela tanto defendeu.
— O impacto não vai me destruir, Yuri — ela afirmou, limpando o rosto com as costas das mãos. — Mas vai destruir o Haru. Onde quer que ele esteja, eu vou garantir que ele saiba que a "ruiva sem sal" agora tem as chaves do império dele.
Hana olhou para a tela uma última vez antes de fechá-la. A verdade era dura, amarga e cheia de espinhos, mas ela finalmente estava livre.
Agora, sua única preocupação era o retorno de Kenji. Ela precisava que ele voltasse.
Precisava olhar nos olhos do homem que a salvou de si mesma e pedir perdão por cada palavra de ódio que já proferiu. O monstro nunca foi Kenji; o monstro foi o amor cego que ela sentia por um homem que nunca existiu.
Naquela noite, a Fortaleza de Vidro não guardava mais uma prisioneira, mas uma mulher que acabou de descobrir sua verdadeira força em meio às cinzas de seu passado.