O Rito do Sangue.

1470 Words
A atmosfera dentro do cassino subterrâneo de Wanderson era pesada, saturada pelo cheiro de suor frio, medo e o perfume barato que impregnava as cortinas de veludo carcomidas. O brilho dos neons, que costumava seduzir jogadores incautos, agora apenas iluminava a decadência moral daquele lugar. Kenji Sato caminhava pelo salão com a calma predatória de um lobo que já cercou sua presa. Ele não tinha pressa. O tempo ali pertencia a ele. Ao seu redor, seus soldados mais leais executavam ordens silenciosas. Eles não eram apenas capangas; eram ferramentas de uma justiça sombria. O primeiro passo da operação foi a extração. Kenji foi enfático: nenhuma das mulheres ou crianças deveria presenciar o que estava prestes a acontecer. Ele não queria que o último resquício de inocência daquelas vítimas fosse manchado pelo rito de sangue que ele estava prestes a conduzir. Enquanto as vítimas eram levadas para veículos seguros, onde seriam encaminhadas para abrigos sob a proteção direta de Yuri, o salão principal do cassino tornava-se um tribunal sem júri. Vinte e quatro funcionários foram enfileirados no centro do salão. Homens e mulheres que, durante meses, não apenas acobertaram as atrocidades de Wanderson, mas participaram delas com uma indiferença que Kenji considerava o verdadeiro pecado. Para ele, a maldade ativa era compreensível, mas a cumplicidade silenciosa em prol de lucro era uma ofensa que exigia a purificação pelas chamas. No centro de tudo, amarrado a uma cadeira de madeira pesada, estava Wanderson. O homem que outrora se sentia um rei naquele submundo agora não passava de um amontoado de carne trêmula. — Engraçado — Kenji começou, sua voz cortando o ar como um fio de seda. — Eu sempre fui bem claro em cada regra da organização. A Yakuza tem honra, tem limites. Mas sempre existe um i****a que acha que sua ganância é maior que o meu poder. É uma pena que sua vida acabe de forma tão medíocre, Wanderson. O traidor não respondeu. Ele já havia perdido a cor; sua pele tinha o tom acinzentado de um cadáver antes mesmo da primeira incisão. Ele evitava o olhar de Kenji, pois sabia que encontrar aqueles olhos negros era aceitar o próprio fim. — Você tinha potencial, Wanderson — continuou Kenji, circulando a cadeira com passos lentos. — Tinha inteligência para os negócios, astúcia para os números. Mas optou pelo tráfico humano. Optou pelo abuso daqueles que não podiam se defender. Foi uma péssima escolha. Me diga, afinal... como prefere morrer esta noite? Eu estava pensando em usar meu par de Kaiken para lhe dar uma lição. O que acha da ideia? Com um movimento fluido, Kenji deslizou as mãos para dentro de seu paletó sob medida e sacou as duas lâminas. Eram obras-primas da metalurgia proibida. O par de Kaiken brilhava com um preto fosco absoluto, um aço tratado para não refletir a luz, para ser invisível nas sombras. No cabo de ébano de cada faca, o entalhe detalhado de uma Kitsune parecia observar o ambiente com olhos cruéis. Wanderson soltou um soluço sufocado, remexendo-se na cadeira. Ele sabia o que aquelas lâminas significavam. Ser executado pessoalmente pelo Oyabun com suas armas de assinatura era o destino mais temido do submundo. — Por favor, senhor! — Wanderson implorou, a voz falhando. — Perdoe minha ganância! Eu prometo que nunca mais irá acontecer! O dinheiro subiu à cabeça, eu não estava em sã consciência! Eu posso devolver tudo, eu posso trabalhar dobrado... por favor! Kenji parou na frente dele, observando o homem com um desprezo quase clínico. — Discurso fajuto. Você deveria ter ensaiado um pouco mais antes de trair o seu sangue. Meu desejo é que você morra, aqui e agora. Infelizmente para você, seu fim não tem negociação. A misericórdia morreu no momento em que a primeira criança foi trancada naqueles quartos. Com um gesto rápido, Kenji cortou as cordas que prendiam os pulsos de Wanderson. O homem desabou no chão, mas em vez de tentar lutar ou fugir, ele se arrastou até os pés de Kenji, ficando de joelhos em uma súplica patética. Aquilo irritou o Oyabun. Ele queria uma luta; queria sentir a resistência de um homem, não o choro de um covarde que só era valente contra os indefesos. Sem paciência para o teatro, Kenji desferiu uma joelhada brutal no rosto de Wanderson. O estalo do osso nasal ecoou pelo salão silencioso, e o sangue começou a manchar o tapete caro. — Levante-se — ordenou Kenji. — Morra como um homem, se é que ainda resta algo de um dentro dessa pele. Mas Wanderson não se levantou. Ele apenas gemia, tapando o rosto. Kenji suspirou, a fúria gélida finalmente assumindo o controle total de seus movimentos. Se não haveria luta, haveria justiça cirúrgica. Ele se aproximou e, com uma precisão assustadora, começou o rito. O primeiro corte foi rápido. Um dos dedos de Wanderson caiu no chão antes mesmo que o sistema nervoso do homem pudesse registrar a dor. Então o segundo, o terceiro... um a um, os dedos que contaram o dinheiro manchado de sangue foram removidos com movimentos curtos e eficientes das lâminas negras. Os gritos de Wanderson tornaram-se agudos, rasgando o silêncio da noite, mas Kenji não vacilou. Suas mãos não tremiam; ele era um artista da dor executando sua obra final. Quando não restavam mais dedos para cortar, Kenji avançou para as orelhas. Ele trabalhava com uma calma aterrorizante, removendo cada pequeno m****o, cada parte de carne que pudesse ser sacrificada antes do golpe final. Ele queria que Wanderson sentisse a vida se esvaindo em pedaços, que entendesse a fragmentação da alma que ele impusera às suas vítimas. Os outros funcionários, alinhados sob a mira dos soldados de Kenji, assistiam a tudo em um estado de choque catatônico. Alguns soluçavam baixinho, outros fechavam os olhos, mas eram obrigados a abri-los pelos canos das armas encostados em suas nucas. Eles sabiam que a morte lenta de seu chefe era o trailer do filme que todos iriam estrelar em seguida. Finalmente, quando o fôlego de Wanderson era apenas um chiado ruidoso em uma garganta cheia de sangue, Kenji guardou suas facas. Ele olhou para cada um dos cúmplices ali presentes, sua figura banhada pelo sangue que espirrara em seu paletó escuro. Ele parecia uma divindade da vingança, uma máquina de matar que recuperou sua função primordial. — Quero que se lembrem de que este fim é a consequência direta de seus atos — Kenji falou para os sobreviventes, sua voz agora terrivelmente calma. — Não é como se vocês fossem viver para levar isso como um aprendizado para o futuro. Mas até mesmo no inferno, lembrem-se de cada grito que ignoraram aqui. Lembrem-se de como cada um de vocês morreu. Kenji deu as costas e caminhou em direção à saída. Seus soldados permaneceram por mais alguns instantes, executando a limpeza final com a frieza necessária. Quando Kenji atravessou a porta principal e sentiu o ar frio da noite de Chicago, ele não olhou para trás. Segundos depois, uma explosão abafada sacudiu a estrutura, e um incêndio voraz começou a consumir o cassino, transformando o monumento à ganância em uma pira funerária. Ele entrou em seu carro, limpando o rosto com um lenço de seda branca que logo ficou vermelho. Ele precisava voltar. O trabalho pesado estava feito, o traidor estava morto e a ordem foi restaurada. Mas seu coração, que não vacilou durante a tortura, agora batia com uma ansiedade desconfortável. Ele precisava de sua cobertura. Precisava do cheiro de Hana. Precisava da Fortaleza de Vidro para se lavar do sangue que carregava. O que Kenji não sabia, enquanto acelerava pelas avenidas desertas, era que a paz que ele tanto desejava encontrar em casa era uma ilusão. Enquanto ele enfrentava demônios de carne e osso no cassino, Hana, na segurança de sua própria casa, estava prestes a colidir com o maior fantasma de sua vida. A verdade sobre o "celular reserva" abriu as portas da percepção, e agora a "ruiva sem sal" não estava mais sozinha. Alguém conseguiu burlar a segurança da cobertura. Alguém que conhecia cada código, cada ponto cego e cada fraqueza daquela casa. Enquanto o fogo consumia o passado de Kenji no setor norte, a sombra de Haru Sato projetava-se sobre o presente de Hana, transformando o santuário em um campo de batalha psicológico onde a maior arma não seria uma faca Kaiken, mas a própria verdade distorcida. A caçada de Kenji terminou, mas a de Hana estava apenas começando. Sob o teto da cobertura, em meio ao brilho dos monitores que revelavam a podridão de seu antigo amor, Hana ouviu o som suave do elevador privativo se abrindo. Mas não era o passo pesado e seguro de Kenji. Eram passos leves, familiares e terrivelmente cruéis. O monstro não estava mais escondido nos arquivos digitais; ele acabara de entrar na sala.
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