O Arquiteto das Ruínas.

1623 Words
Hana sentiu o ar congelar em seus pulmões no exato momento em que girou a cadeira de carvalho de seu escritório. Lá, encostado no batente da porta com uma casualidade que beirava o obsceno, estava o fantasma. Não a lembrança etérea e suavizada que ela cultivou com carinho e dor, mas a versão de carne, osso e uma maldade crua que ela acabara de desvendar nos arquivos de CIPHER. Haru Sato parecia não ter mudado nada fisicamente, mas, aos olhos de Hana, ele era um estranho completo. O rosto que ela antes considerava o porto seguro de seus sonhos agora lhe causava uma náusea profunda. O silêncio que se instalou no escritório era denso, saturado pelo som da própria respiração descompassada de Hana e pelo zumbido dos monitores que ainda exibiam, ironicamente, as provas da traição dele às suas costas. Haru passou o olhar por cada canto da sala, avaliando a tecnologia de ponta, os móveis luxuosos e a postura de Hana com um sorriso malicioso e assustador nos lábios. Hana se perguntava, em um grito silencioso interno, como poderia ser tão cega. Como a inteligência que ela usava para derrubar firewalls governamentais falhara tão miseravelmente em detectar o narcisismo óbvio à sua frente? — Está bem melhor do que eu poderia imaginar, Hana — Haru disse, sua voz arrastada, carregada de um veneno que não se esforçava para esconder. — Pelo visto, você acabou se dando bem de qualquer forma. A vida de "viúva de um homem vivo" te caiu bem. — Esperava que eu morresse de vergonha ou de tristeza depois do que você fez? — A pergunta de Hana veio carregada de um ódio que ela não conseguiu, e nem quis, conter. Suas mãos tremiam sobre a mesa, mas seus olhos verdes brilhavam com uma fúria gélida. — Ah, não. Eu sabia que isso não aconteceria — Haru deu de ombros, entrando no escritório e sentando-se na poltrona de couro onde, horas antes, Yuri tentou confortá-la. — Meu irmão é um homem de honra, um cavaleiro de armadura n***a. Eu sabia que ele cumpriria o acordo de qualquer forma. Ele adora carregar o lixo que eu deixo para trás. Hana observou as feições de Haru com uma clareza dolorosa. Estava tudo ali: a arrogância no modo como ele cruzava as pernas, o desdém nos olhos, a falta de qualquer remorso. O amor que ela sentia por aquele homem foi uma doença, um delírio febril que a impediu de notar que Haru nunca a viu como um ser humano, mas como uma peça em um tabuleiro de conveniências. Ela foi inteligente para o mundo, mas uma i****a completa para o coração. — Por que você está aqui, Haru? — A pergunta de Hana cortou o ar como uma navalha. — Depois de fugir como um rato, depois de me vender por dívidas de jogo... por que se dar ao trabalho de voltar? Haru soltou uma risada seca, um som que não tinha nenhuma alegria. — Eu só queria ter certeza de que realmente tinha sido você que invadiu minha privacidade digital. Que bom que foi você, pequena hacker. Ao menos assim eu não precisei continuar fingindo nada. Sabe como é exaustivo interpretar o papel do "noivo apaixonado" para uma mulher tão... intensa quanto você? Hana o encarou com mais raiva. As peças do quebra-cabeça que Yuri ajudara a montar agora ganhavam cores vivas e cruéis. — Por que fez tudo isso? Não podia ter desistido desde o começo? Você me deixou apaixonar, me deixou planejar um futuro, me deixou acreditar em cada mentira sua para depois vir aqui e me dizer que eu cometi o pior erro da minha vida? Por que esperar até a reta final para mostrar quem você realmente é? A frustração de Hana era visível, uma mistura de dor e humilhação que ameaçava transbordar. Mas o sorriso de Haru permanecia fixo, uma máscara de desprezo. — Eu realmente vim esse caminho todo me perguntando se você merecia ouvir toda a verdade — Haru disse, inclinando-se para frente, os olhos fixos nos dela. — Mas talvez esteja na hora de você tomar um choque de realidade e perceber que nem tudo gira em torno de você, garota. Você acha que é a vítima do grande e mau Haru? Ele se levantou e caminhou até a mesa de Hana, diminuindo a distância entre eles. Ele olhou atentamente cada traço do rosto dela, para, no fim, fazer uma careta de puro desgosto, como se estivesse analisando uma mercadoria estragada. — Eu sempre odiei você, Hana. Esse cabelo ruivo gritante, esses olhos verdes que parecem querer ler a alma de todo mundo... Eu odiei você desde o dia em que me avisaram que Lorenzo Moretti havia feito uma troca no acordo original. Eu fui forçado a assumir um lugar que nunca foi meu. E, desde o início, isso nunca me agradou. Eu nunca gostei de você, nunca senti um grama de desejo. Na realidade, o lugar onde você está hoje, casada com o meu irmão, é o lugar que sempre deveria ter sido seu. Seu pai tentou mudar o destino, mas pelo visto, o grande Lorenzo não é tão poderoso quanto pensa. Hana sentiu o chão oscilar sob seus pés. O mundo parecia ter entrado em um vácuo onde apenas as palavras cruéis de Haru existiam. — O que você está dizendo? — Ela sussurrou, a voz quase sumindo. — O que quer dizer com "lugar que sempre deveria ter sido meu"? Haru suspirou, um som de tédio, e olhou uma última vez para ela com uma piedade fingida que doía mais do que um tapa. — Estou dizendo, sua i****a, que Kenji era o seu noivo original. O acordo entre os Sato e os Moretti foi assinado para unir você e o herdeiro legítimo, o braço forte do clã. Mas seu pai... ah, o bom e velho Lorenzo... ele achou que Kenji era "monstruoso" demais para a preciosa filhinha dele. Ele implorou, subornou e manipulou para que o noivado fosse trocado para o irmão "bonzinho" e maleável. Eu. Hana perdeu a voz. O ar parecia ter se transformado em chumbo em seus pulmões. — Basicamente — Haru continuou, divertindo-se com o colapso emocional de Hana —, o monstro aqui não sou eu, nem é o Kenji. O monstro é o seu próprio pai. Imagina só a ironia: Lorenzo Moretti moveu céus e terra para te afastar do Kenji, trocou o noivo da filha para garantir sua "felicidade", e no fim, você acabou se casando com ele da mesma forma, mas sob uma montanha de ódio e mentiras. É um beco sem saída perfeito, não acha? Haru ajeitou o paletó e caminhou em direção à porta. Ele atingiu seu objetivo. Não voltou por amor, nem por dinheiro; voltou para destruir o último pilar de respeito que Hana tinha pelo próprio pai e para garantir que, ao olhar para Kenji, ela visse apenas o reflexo de uma manipulação paterna. — Eu sinto muito que você tenha passado por tudo isso, de verdade — Haru mentiu, com um brilho de escárnio nos olhos. — Mas a única pessoa que você deveria culpar por esse casamento ser um inferno é aquela que você acha que te ama de todo o coração. Lorenzo Moretti te vendeu duas vezes, Hana. Uma para mim, e outra para o destino do qual ele tentou te salvar. Haru foi embora, desaparecendo pelo corredor da cobertura com a mesma facilidade com que entrou. Seu intuito foi cumprido: ele cedeu seu papel de vilão para a pessoa certa na mente de Hana. Ele deixou para trás um rastro de destruição que nem mesmo a tecnologia de CIPHER poderia consertar. Hana permaneceu estática. O escritório, antes seu refúgio, agora parecia uma cela de vidro. Sua história tinha mais reviravoltas do que qualquer trama de espionagem que ela já rastreara. Ela foi um joguete nas mãos de Haru, um fardo para Kenji e, o mais doloroso de tudo, uma moeda de troca manipulada pelo próprio pai. Lorenzo Moretti a enganara. Ele pintou Kenji como um demônio para justificar uma troca que ele mesmo arquitetou, jogando-a nos braços de um homem que a desprezava, apenas para manter as aparências de um controle que ele nunca teve de fato. As lágrimas finalmente caíram, mas eram lágrimas de uma clareza cortante. A busca pela verdade não acabou com a partida de Haru; ela estava apenas começando. Hana sentia o peso da traição de Lorenzo esmagar sua alma, mas em meio aos destroços de suas ilusões, uma nova determinação surgiu. Ela não iria desmoronar. Não agora. Se Kenji era o homem de quem seu pai tentou "salvá-la", ela precisava saber o porquê. Ela precisava entender o que Kenji sabia sobre essa troca. Ele aceitou o casamento sabendo que foi a segunda opção de Lorenzo, ou ele também foi uma vítima daquela teia? Hana levantou-se, as pernas ainda trêmulas, mas os olhos fixos na porta por onde Haru saíra e por onde, em breve, Kenji entraria. O chão sumiu debaixo de seus pés, mas ela aprenderia a voar em meio ao caos. A caçada de CIPHER agora tinha um novo alvo. E esse alvo morava na mansão dos Moretti. Mas antes de enfrentar o pai, ela precisava enfrentar o marido. O homem que foi o "monstro" de sua infância e que agora era o único que restara em pé no meio de suas ruínas. Hana olhou para o relógio. Kenji estava voltando. E, desta vez, não haveria silêncios confortáveis ou jantares de trégua. Haveria a verdade, nua e crua, entre o dragão da Yakuza e a mulher que acabou de descobrir que toda a sua vida foi um roteiro escrito por mãos sujas de sangue e mentiras.
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