O portão de ferro forjado da mansão Sato não se abriu; ele pareceu confessar uma entrada proibida.
À medida que o carro deslizava pelo cascalho imaculado da propriedade, Hana sentiu o ar comprimir-se em seus pulmões.
A arquitetura da casa era um monumento à tradição japonesa mais severa: linhas retas, madeira escura e uma aura de silêncio que parecia punir qualquer tentativa de alegria. Para Hana, que cresceu na opulência passional e barulhenta dos Moretti, aquele lugar parecia um mausoléu.
Ela olhou para Kenji. O homem que, horas atrás, a carregou no colo com uma ternura quase sagrada, agora era uma estátua de gelo.
Seus olhos estavam fixos na entrada, a mandíbula tão tensa que Hana temeu que seus dentes pudessem quebrar. O desconforto dele era uma vibração física que preenchia o carro.
— Respire, Kitsune — ele murmurou, a voz soando como o metal raspando na pedra. — Não há nada que precise temer. Eu estou aqui por você.
Hana buscou o olhar dele, procurando a coragem que parecia estar se esvaindo de seus próprios dedos.
Ela olhou para as mãos de Kenji e, em um impulso que desafiava semanas de ódio e meses de negação, ela as segurou.
Suas mãos pequenas e frias encontraram as dele, grandes e marcadas por cicatrizes. Ela precisava do contato físico; precisava sentir que, naquele território hostil, ela não era uma estranha solitária.
Kenji não disse nada, mas seus dedos se entrelaçaram nos dela com uma força que era, ao mesmo tempo, um agradecimento e uma promessa.
Eles foram recebidos por Greta, uma senhora de meia idade que parecia ser a única centelha de calor naquela casa.
Ela direcionou um sorriso reconfortante a Kenji, um olhar que carregava a tristeza de quem viu aquele menino crescer sob chicotadas emocionais. No entanto, o alívio de Greta foi curto.
Assim que cruzaram o átrio principal, os pais de Kenji surgiram.
Takeshi Sato, o patriarca, era um homem cujas rugas pareciam esculpidas pelo próprio desprezo. Ao seu lado, Emi Sato exalava uma elegância gélida, vestida em um quimono de seda que parecia uma armadura.
Hana percebeu imediatamente: eles não eram pais recebendo um filho. Eram generais inspecionando uma ferramenta que consideravam defeituosa.
— Finalmente, filho querido — a voz de Emi cortou o ar como uma navalha. Não havia doçura no termo "querido"; era puro veneno. — Pensei que não viria mais nos visitar. Parece que você se tornou outra pessoa depois que se casou com a noiva do irmão.
O ataque foi direto, sem as formalidades que a etiqueta japonesa exigia. Kenji não se inclinou. Ele permaneceu ereto, o corpo blindado.
— Não começa, Senhora Sato — ele rebateu. O uso do título formal, em vez de "mãe", atingiu Hana como um soco. A distância entre eles era um abismo que nenhuma ponte de sangue poderia cruzar.
— Ao escritório. Agora. Greta cuida da visita — ordenou Takeshi, sem sequer olhar para Hana, tratando-a como um objeto decorativo deixado na sala de espera.
Kenji lançou um olhar breve a Hana, um pedido silencioso de desculpas, antes de seguir os pais.
Hana sentou-se no sofá de seda, sentindo o peso do silêncio da mansão. Ela observou os retratos nas paredes. Em quase todos, Haru era o centro das atenções, sorridente, solar, o herdeiro perfeito.
Kenji aparecia apenas nas sombras, ou não aparecia. Ela começou a entender. Ali, Kenji não era o Oyabun temido de Chicago. Ali, ele era apenas a sobra de um banquete que Haru deveria ter liderado.
Greta trouxe uma bandeja de prata com um copo de suco, servindo-a com uma eficiência invisível.
O tempo arrastou-se. Minutos transformaram-se em horas de um isolamento sufocante.
Hana podia ouvir, ocasionalmente, o tom abafado de vozes vindas do escritório, gritos contidos de Takeshi e o silêncio cortante de Kenji.
Quando as portas finalmente se abriram, já era horário de almoço. Os três saíram, mas Kenji estava diferente. Sua expressão era de um cansaço que Hana nunca viu, uma palidez que não vinha de falta de sono, mas de uma alma sendo espremida.
Ele caminhava como se carregasse o mundo nas costas, e Hana percebeu, com um aperto lancinante no peito, que ele não era bem-vindo ali. Ele era apenas suportado por necessidade.
A mesa de almoço estava posta com pratos tradicionais j*******s, mas, para Hana, tudo parecia cinza.
Ela olhou para a comida, texturas que ela detestava, cheiros que agrediam seu paladar sensível. Ela sentiu uma náusea súbita, mas tentou disfarçar com um sorriso contido, uma máscara de educação que os Moretti lhe ensinaram bem.
Kenji percebeu. Ele sempre percebia. Por baixo da mesa, ele buscou a mão dela, apertando-a para dar suporte, um código secreto entre os dois em meio ao campo de batalha.
— A comida da sua sogra não te agrada, Hana? — Emi Sato perguntou, seus olhos fixos na nora como um falcão. O veneno era sutil, mas letal.
— Ela está sem fome, Senhora Sato — Kenji respondeu por ela, sua voz firme apesar do cansaço. — Hana não é obrigada a comer o que não a faz bem.
Emi soltou um riso gélido, largando os hashis com um clique irritante sobre a porcelana.
— Estaria em um casamento bem melhor se estivesse casada com o Haru, querida — disse Emi, voltando o olhar para Hana com uma crueldade desmedida. — É uma pena que só tenha sobrado para você o homem desalmado, a nossa "máquina de matar". Você teria gostado mais de estar casada com o Haru. Sinto muito que esteja sofrendo com um homem que não pode sequer lhe oferecer cuidado, muito menos amor.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Hana sentiu a mão de Kenji tremer levemente sob a mesa antes de ele afrouxar o aperto.
A ferida que Emi abriu era antiga, profunda e purulenta. Kenji baixou o olhar para o prato, aceitando as palavras como se fossem chicotadas que ele merecia por simplesmente existir. Ele não se defendeu. Ele nunca se defendia da família.
Foi nesse momento que algo dentro de Hana quebrou. Não foi o medo, nem a tristeza. Foi lealdade.
Aquela mulher, que deveria ter protegido o filho, estava tentando destruir a única coisa que Kenji ainda mantinha de pé: sua dignidade diante da esposa.
Hana lembrou-se de cada cuidado de Kenji. Lembrou-se do escritório de alta tecnologia (o reino de CIPHER), do salmão preparado na temperatura exata, do modo como ele a carregou no colo.
Se aquele homem era uma "máquina de matar", o que seriam aquelas pessoas que matavam o próprio filho por dentro todos os dias?
Hana soltou a mão de Kenji e levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando-se pelo chão com um som estridente que interrompeu a elegância mórbida do almoço.
— Perdoe-me, Senhora — Hana começou, sua voz saindo clara, forte e carregada com o fogo dos Moretti. — Mas não acho que me sinto bem em um ambiente onde meu marido não é bem-vindo.
Emi e Takeshi ergueram as sobrancelhas em uníssono, chocados com a audácia. Kenji olhou para ela, o choque estampado em seu rosto.
— Não importa quem você seja — Hana continuou, os olhos verdes brilhando com uma fúria protetora. — Tratar Kenji como se fosse uma pessoa qualquer, ou uma falha de caráter, não é algo que uma Senhora Sato deveria fazer. Se você é capaz de desprezar o filho que carrega o peso do seu nome e do seu clã enquanto o outro foge com o seu dinheiro, então você não conhece a palavra honra.
— Hana, não... — Kenji tentou intervir, mas ela não permitiu.
— Peço encarecidamente que cesse seus pedidos de visita à sua casa — Hana declarou, olhando diretamente para Emi. — Se você não sabe sequer ser uma mãe, julgo que também não saberá ser uma sogra. Sinto muito se estou afrontando seu ego ou sua tradição milenar, mas não vou ficar sentada aqui enquanto você tenta destruir o homem que tem sido o meu único escudo. Não vou deixar que trate o Kenji dessa forma. Passar bem.
Hana agarrou o braço de Kenji. Ela não esperou por uma resposta dos patriarcas, que ficaram paralisados em uma mistura de ofensa e descrença.
Ela arrastou Kenji para fora da sala de jantar, seus passos ecoando com determinação pelo corredor de madeira.
Eles atravessaram o átrio e saíram para o ar fresco do jardim. Hana só parou quando chegaram ao carro. Suas mãos ainda tremiam, mas não de medo, e sim de adrenalina. Ela se virou para Kenji, pronta para pedir desculpas por ter causado um escândalo, mas as palavras morreram em sua garganta.
Kenji estava parado, olhando para ela como se estivesse vendo pela primeira vez. Não havia o Oyabun ali, nem o monstro. Havia apenas um homem atingido por algo que ele nunca experimentou em toda a sua vida: a sensação de ser protegido.
Sempre foi ele o escudo. Sempre foi ele a arma. Ninguém jamais desembainhara uma espada para defendê-lo, muito menos alguém que ele acreditava que o odiava.
— Você... — Kenji começou, a voz falhando, as palavras presas em um nó de emoção que ele não sabia como desatar.
— Não diga nada — Hana disse, sua voz agora mais suave, mas ainda firme. — Ninguém tem o direito de falar assim de você. Nem eles. Principalmente eles.
Ela abriu a porta do passageiro e entrou, deixando Kenji ali, no silêncio do jardim, processando o fato de que a mulher que ele amava em segredo acabou de declarar guerra contra o mundo inteiro para protegê-lo.
Naquele momento, as mensagens de Haru e a busca de CIPHER pela verdade tornaram-se secundárias.
Hana não sabia, mas ao defendê-lo, ela havia selado um pacto mais forte que o contrato de casamento. Ela não era mais a noiva substituída; ela era a rainha que acabou de escolher seu rei, e qualquer um que tentasse feri-lo teria que passar por cima dela primeiro.
Kenji entrou no carro, ligou o motor e, antes de dar a partida, olhou para Hana.
— Obrigado, Kitsune — ele sussurrou.
Hana apenas assentiu, olhando para a estrada.
A trégua terminou.
A lealdade começou.
E a verdade sobre Haru, quando viesse, não encontraria uma Hana vulnerável, mas uma mulher pronta para queimar o mundo ao lado do homem que todos chamavam de monstro, mas que ela agora chamava de seu.