A mansão dos Moratti era um reflexo de sua linhagem: majestosa, imponente, mas também carregada de um silêncio perturbador naquela manhã. Lorenzo caminhava pelos corredores largos, a mandíbula tensa, refletindo sobre a conversa que acabara de ter com Dante Valentini. O homem tinha coragem, isso ele não podia negar, mas Lorenzo sentia que a sua irmã estava sendo arrastada para um destino que ela não escolhera.
Ao abrir a porta da sala de estar, encontrou Isabela sentada no sofá, as mãos trêmulas segurando uma xícara de chá. Ela parecia cansada, a expressão preocupada marcando seu rosto de forma que Lorenzo raramente via. Ele parou por um instante, sentindo o peso de sua responsabilidade como irmão mais velho.
— Isabela. — Ele disse, chamando sua atenção com suavidade.
Ela ergueu os olhos, um brilho de apreensão neles.
— O que foi, Lorenzo? Aconteceu alguma coisa?
Ele suspirou e caminhou até sentar-se à sua frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Aconteceu, sim. E eu preciso que você me ouça com atenção.
Isabela colocou a xícara na mesa e cruzou os braços, já se preparando para algo que sabia que não gostaria.
— Fale.
Lorenzo hesitou por um momento, mas logo começou:
— Eu acabei de sair de uma conversa com Dante. Ele está determinado a adiantar o casamento formal e quer que você se mude para a casa dele imediatamente.
Isabela arregalou os olhos, a surpresa rapidamente se transformando em indignação.
— O quê? Ele não pode fazer isso, Lorenzo!
— Pode, sim. — Ele respondeu, a voz mais dura do que pretendia. — Você assinou o contrato, Isabela. Esse casamento é mais do que um acordo entre famílias; agora é uma questão de honra para os Valentini.
Ela se levantou abruptamente, começando a andar de um lado para o outro na sala, a frustração evidente em cada movimento.
— Isso é absurdo! Eu não sou um objeto para ser movido de um lugar para outro, Lorenzo! Eu passei minha vida inteira longe desse mundo. Eu me esforcei para construir uma carreira, para ser independente, e agora vocês querem jogar tudo isso fora?
— Não é "nós", Isabela. Foi você quem concordou com o contrato.
— Para proteger você! — Ela disparou, a voz cheia de emoção. — Eu aceitei esse casamento porque você me pediu, porque disse que era para o bem da família. Mas agora... agora parece que só eu estou pagando o preço.
Lorenzo se levantou, encarando-a.
— Você acha que isso não está me matando também? Você acha que é fácil para mim ver minha irmã sendo arrastada para um casamento que ela não quer? Mas o que eu deveria fazer, Isabela? Escolher a guerra? Colocar nossa família em risco?
Isabela balançou a cabeça, as lágrimas começando a escorrer pelo rosto.
— Eu só quero ser uma médica, Lorenzo. Eu dediquei minha vida a isso, e agora tudo está desmoronando. Eu não quero ser a esposa de Dante Valentini. Ele é perigoso, controlador... eu não consigo viver assim!
— Eu sei, Bella. — Lorenzo disse, suavizando o tom enquanto se aproximava dela. — Eu sei que você está assustada, e eu entendo. Mas você precisa entender que este é o único caminho que temos agora.
Ela o encarou, os olhos cheios de lágrimas e dor.
— Você realmente acha que ele pode me proteger? Você acha que eu vou estar segura ao lado de alguém que é tão perigoso quanto os homens que me atacaram?
Lorenzo hesitou por um momento, mas finalmente respondeu:
— Eu questionei isso a ele. E ele... ele prometeu que vai te proteger. Que você será prioridade para ele.
Isabela soltou uma risada amarga.
— Ele prometeu? Lorenzo, você sabe tão bem quanto eu que promessas nesse mundo não significam nada.
— Talvez não. Mas o que eu vi nos olhos dele foi determinação. Dante não é um homem comum, Bella. Ele é alguém que, quando decide algo, faz de tudo para conseguir.
— E eu sou o prêmio, não é? — Ela disse, a voz repleta de sarcasmo e dor.
— Não é isso...
— É exatamente isso, Lorenzo! — Ela interrompeu, a voz agora cheia de raiva. — Eu sou apenas uma peça nesse jogo entre famílias. E você sabe o que é pior? Eu confiei em você para me proteger.
Lorenzo sentiu o golpe dessas palavras como uma faca no coração.
— Eu estou tentando proteger você. Talvez eu não esteja fazendo isso da maneira certa, mas eu estou tentando.
Isabela secou as lágrimas com as costas da mão e respirou fundo, tentando recuperar o controle.
— O que ele quer de mim agora? Além de me arrastar para a casa dele e me forçar a viver sob as regras dele?
— Ele quer que o casamento seja formalizado em dois dias.
Ela o encarou, chocada.
— Dois dias?
Lorenzo assentiu.
— Ele acredita que, ao formalizar o casamento, vai solidificar a aliança e eliminar as ameaças ao seu redor.
Isabela riu novamente, mas desta vez havia mais desespero do que sarcasmo em sua voz.
— Você realmente acredita nisso? Que eu vou estar mais segura como esposa dele?
Lorenzo não respondeu de imediato. Ele sabia que qualquer coisa que dissesse apenas aumentaria a fúria e a dor de sua irmã.
— Bella, você é forte. Mais forte do que imagina.
— Não é uma questão de força, Lorenzo. — Ela respondeu, a voz agora cansada. — É uma questão de eu perder quem eu sou.
O silêncio caiu entre eles, pesado e cheio de tensão. Lorenzo sabia que não havia mais nada que pudesse dizer para aliviar o peso sobre os ombros de Isabela.
Finalmente, ele suspirou e colocou a mão no ombro dela.
— Eu vou falar com Dante. Vou tentar garantir que ele respeite pelo menos a sua carreira.
Isabela desviou o olhar, mas não afastou a mão dele.
— Isso não vai mudar o fato de que minha vida nunca mais será a mesma.
Lorenzo assentiu lentamente.
— Eu sei.
Eles ficaram ali, em silêncio, por mais alguns minutos. Ambos sabiam que, independentemente do que acontecesse, o futuro estava completamente fora de seu controle.