Os meses passaram como quem cura feridas devagar.
Sofia chegou aos seis meses com a barriga redondinha, firme, linda demais pra caber em qualquer definição simples. O corpo dela tinha mudado — mais cheio, mais suave — e, ainda assim, continuava sendo a mulher que fazia Gabriel perder o chão só de olhar.
Mas agora era diferente.
Era mais fundo.
Ele acordava antes dela, como sempre, mas agora ficava alguns minutos só observando. A mão grande pousada na barriga, sentindo os chutes leves, como se aquilo fosse um milagre particular que só ele tivesse permissão de tocar.
— Bom dia, meu amor… — ele murmurava, beijando a pele dela. — Bom dia pra você também, pequena… ou pequeno.
Sofia ria, sonolenta.
— Para de falar com a barriga, Gabriel.
— Não paro. — respondia sério. — Já tô criando i********e.
Ele tinha ficado… diferente. Ainda era o chefe, ainda era temido, mas com ela era quase outro homem. Controlado. Atento. Obsessivamente cuidadoso.
Se alguém falava alto perto dela, ele já fechava a cara.
Se ela cansava, ele mandava sentar.
Se reclamava de dor nas costas, ele massageava em silêncio, concentrado, como se estivesse numa missão de vida ou morte.
— Você tá exagerando. — ela dizia às vezes, rindo.
— Tô amando. — ele corrigia.
À noite, Sofia gostava de ficar sentada na varanda, sentindo o vento bater. Gabriel puxava uma cadeira e sentava atrás, abraçando ela por inteiro, a mão sempre protegendo a barriga.
— Eu tenho medo… — ela confessou uma vez. — De não ser uma boa mãe.
Ele beijou o ombro dela.
— Você já é. — disse. — Só de amar desse jeito.
— E você? — ela provocou. — Tem medo de ser pai?
Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou a verdade, como quase nunca fazia.
— Tenho medo de errar. — admitiu. — Tenho medo de trazer pra dentro de casa o homem que eu precisei ser lá fora.
Ela virou o rosto, encostando a testa na dele.
— Então deixa ele lá fora. Aqui dentro… você é só o Gabriel que me ama.
Ele fechou os olhos.
— Eu nunca fui só isso pra ninguém. — sussurrou. — Mas pra você… eu quero ser.
Com seis meses, Sofia andava mais devagar. Gabriel acompanhava no mesmo ritmo, como se o mundo inteiro tivesse diminuído a velocidade só pra eles.
Às vezes, no meio da madrugada, o bebê chutava forte.
— Gabriel… — ela chamava baixinho.
Ele acordava na hora.
— O que foi? Tá doendo?
— Não… — ela pegava a mão dele e colocava na barriga. — Sente.
Ele sentia. Sempre sentia.
E toda vez, o mesmo efeito:
os olhos marejavam, a garganta fechava, o coração se rendia.
— Eu faria qualquer coisa por vocês. — ele dizia, sem perceber que falava em voz alta.
Sofia sorria, emocionada.
Ali, entre noites tranquilas, cuidados silenciosos e um amor que tinha sobrevivido ao inferno,
Gabriel entendia uma coisa simples e definitiva:
Ele nunca foi tão poderoso quanto agora.
Sofia já desconfiava.
Não era pressentimento bobo — era aquela certeza silenciosa que vinha toda vez que a bebê se mexia mais quando ela pensava em coisas suaves, em nomes delicados, em futuro. Mesmo assim, quando a médica sorriu para a tela e disse:
— É uma menina.
Sofia chorou.
Chorou quieto, com a mão na boca, o coração explodindo de um jeito bonito demais pra caber no peito. A médica mostrou a imagem, apontou com cuidado, e Sofia só conseguia pensar numa coisa:
Gabriel.
Ela decidiu que não ia contar de qualquer jeito.
Queria marcar ele como a vida tinha marcado ela.
Naquela tarde, passou numa lojinha simples. Comprou um par de sapatinhos rosa, minúsculos, delicados demais pra serem reais. Depois, alguns balões rosas, um laço branco e uma caixinha pequena.
Chegou em casa antes dele. Arrumou o quarto com calma. Colocou os balões perto da cama, deixou os sapatinhos bem no centro, em cima do travesseiro dele. Apagou a luz principal, deixou só o abajur aceso, criando um clima íntimo, quase sagrado.
O coração dela batia forte quando ouviu a porta abrir.
— Amor? — a voz grave dele veio da sala.
— No quarto… — ela respondeu.
Gabriel entrou distraído, tirando a camisa… e parou.
Literalmente.
Os olhos desceram devagar dos balões até os sapatinhos. O tempo pareceu travar. Ele engoliu seco, deu um passo à frente, depois outro, como se tivesse medo de tocar.
— Sofia… — a voz saiu baixa. — O que é isso?
Ela apareceu atrás dele, segurando o sorriso e as lágrimas ao mesmo tempo.
— Abre a caixinha. — pediu.
Ele pegou a caixinha com mãos grandes demais pra algo tão pequeno. Abriu.
Dentro, um papel dobrado:
> “Ela vem aí.”
Gabriel ficou imóvel.
— Ela…? — repetiu, quase sem som.
Sofia encostou por trás dele, abraçando a cintura larga, a barriga já redondinha pressionando as costas dele.
— É uma menina, amor.
O mundo desabou.
Gabriel deixou a caixinha cair na cama e levou as mãos ao rosto. O peito começou a subir e descer rápido demais. Quando se virou, os olhos estavam cheios, perdidos, humanos como ninguém jamais tinha visto.
— Uma… menina… — ele riu e chorou ao mesmo tempo. — Minha filha…
Ele caiu de joelhos na frente dela, abraçando a barriga com cuidado extremo, como se estivesse diante de algo divino.
— Minha princesa… — sussurrou, a testa encostada nela. — Eu vou te proteger de tudo. De mim, do mundo… de qualquer coisa.
Sofia passou os dedos pelos cabelos dele.
— Eu sabia que você ia ser assim.
— Assim como? — ele perguntou, a voz quebrada.
— Perdido. — ela sorriu. — Apaixonado.
Ele se levantou e beijou Sofia com delicadeza, como se estivesse segurando algo frágil demais pra ser tocado com força.
— Obrigado… — disse. — Por não desistir de mim. Por trazer ela até aqui.
Ela encostou a testa na dele.
— Ela veio porque o amor ficou.
Gabriel pegou os sapatinhos, colocou na palma da mão e ficou olhando, em silêncio.
E ali, naquele quarto simples, com balões rosas e um futuro inteiro pela frente,
o homem que nunca temeu nada
descobriu que tinha um ponto fraco eterno:
uma mulher…
e uma menina que ainda nem tinha nascido.