é uma menina ❤️

1057 Words
Os meses passaram como quem cura feridas devagar. Sofia chegou aos seis meses com a barriga redondinha, firme, linda demais pra caber em qualquer definição simples. O corpo dela tinha mudado — mais cheio, mais suave — e, ainda assim, continuava sendo a mulher que fazia Gabriel perder o chão só de olhar. Mas agora era diferente. Era mais fundo. Ele acordava antes dela, como sempre, mas agora ficava alguns minutos só observando. A mão grande pousada na barriga, sentindo os chutes leves, como se aquilo fosse um milagre particular que só ele tivesse permissão de tocar. — Bom dia, meu amor… — ele murmurava, beijando a pele dela. — Bom dia pra você também, pequena… ou pequeno. Sofia ria, sonolenta. — Para de falar com a barriga, Gabriel. — Não paro. — respondia sério. — Já tô criando i********e. Ele tinha ficado… diferente. Ainda era o chefe, ainda era temido, mas com ela era quase outro homem. Controlado. Atento. Obsessivamente cuidadoso. Se alguém falava alto perto dela, ele já fechava a cara. Se ela cansava, ele mandava sentar. Se reclamava de dor nas costas, ele massageava em silêncio, concentrado, como se estivesse numa missão de vida ou morte. — Você tá exagerando. — ela dizia às vezes, rindo. — Tô amando. — ele corrigia. À noite, Sofia gostava de ficar sentada na varanda, sentindo o vento bater. Gabriel puxava uma cadeira e sentava atrás, abraçando ela por inteiro, a mão sempre protegendo a barriga. — Eu tenho medo… — ela confessou uma vez. — De não ser uma boa mãe. Ele beijou o ombro dela. — Você já é. — disse. — Só de amar desse jeito. — E você? — ela provocou. — Tem medo de ser pai? Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou a verdade, como quase nunca fazia. — Tenho medo de errar. — admitiu. — Tenho medo de trazer pra dentro de casa o homem que eu precisei ser lá fora. Ela virou o rosto, encostando a testa na dele. — Então deixa ele lá fora. Aqui dentro… você é só o Gabriel que me ama. Ele fechou os olhos. — Eu nunca fui só isso pra ninguém. — sussurrou. — Mas pra você… eu quero ser. Com seis meses, Sofia andava mais devagar. Gabriel acompanhava no mesmo ritmo, como se o mundo inteiro tivesse diminuído a velocidade só pra eles. Às vezes, no meio da madrugada, o bebê chutava forte. — Gabriel… — ela chamava baixinho. Ele acordava na hora. — O que foi? Tá doendo? — Não… — ela pegava a mão dele e colocava na barriga. — Sente. Ele sentia. Sempre sentia. E toda vez, o mesmo efeito: os olhos marejavam, a garganta fechava, o coração se rendia. — Eu faria qualquer coisa por vocês. — ele dizia, sem perceber que falava em voz alta. Sofia sorria, emocionada. Ali, entre noites tranquilas, cuidados silenciosos e um amor que tinha sobrevivido ao inferno, Gabriel entendia uma coisa simples e definitiva: Ele nunca foi tão poderoso quanto agora. Sofia já desconfiava. Não era pressentimento bobo — era aquela certeza silenciosa que vinha toda vez que a bebê se mexia mais quando ela pensava em coisas suaves, em nomes delicados, em futuro. Mesmo assim, quando a médica sorriu para a tela e disse: — É uma menina. Sofia chorou. Chorou quieto, com a mão na boca, o coração explodindo de um jeito bonito demais pra caber no peito. A médica mostrou a imagem, apontou com cuidado, e Sofia só conseguia pensar numa coisa: Gabriel. Ela decidiu que não ia contar de qualquer jeito. Queria marcar ele como a vida tinha marcado ela. Naquela tarde, passou numa lojinha simples. Comprou um par de sapatinhos rosa, minúsculos, delicados demais pra serem reais. Depois, alguns balões rosas, um laço branco e uma caixinha pequena. Chegou em casa antes dele. Arrumou o quarto com calma. Colocou os balões perto da cama, deixou os sapatinhos bem no centro, em cima do travesseiro dele. Apagou a luz principal, deixou só o abajur aceso, criando um clima íntimo, quase sagrado. O coração dela batia forte quando ouviu a porta abrir. — Amor? — a voz grave dele veio da sala. — No quarto… — ela respondeu. Gabriel entrou distraído, tirando a camisa… e parou. Literalmente. Os olhos desceram devagar dos balões até os sapatinhos. O tempo pareceu travar. Ele engoliu seco, deu um passo à frente, depois outro, como se tivesse medo de tocar. — Sofia… — a voz saiu baixa. — O que é isso? Ela apareceu atrás dele, segurando o sorriso e as lágrimas ao mesmo tempo. — Abre a caixinha. — pediu. Ele pegou a caixinha com mãos grandes demais pra algo tão pequeno. Abriu. Dentro, um papel dobrado: > “Ela vem aí.” Gabriel ficou imóvel. — Ela…? — repetiu, quase sem som. Sofia encostou por trás dele, abraçando a cintura larga, a barriga já redondinha pressionando as costas dele. — É uma menina, amor. O mundo desabou. Gabriel deixou a caixinha cair na cama e levou as mãos ao rosto. O peito começou a subir e descer rápido demais. Quando se virou, os olhos estavam cheios, perdidos, humanos como ninguém jamais tinha visto. — Uma… menina… — ele riu e chorou ao mesmo tempo. — Minha filha… Ele caiu de joelhos na frente dela, abraçando a barriga com cuidado extremo, como se estivesse diante de algo divino. — Minha princesa… — sussurrou, a testa encostada nela. — Eu vou te proteger de tudo. De mim, do mundo… de qualquer coisa. Sofia passou os dedos pelos cabelos dele. — Eu sabia que você ia ser assim. — Assim como? — ele perguntou, a voz quebrada. — Perdido. — ela sorriu. — Apaixonado. Ele se levantou e beijou Sofia com delicadeza, como se estivesse segurando algo frágil demais pra ser tocado com força. — Obrigado… — disse. — Por não desistir de mim. Por trazer ela até aqui. Ela encostou a testa na dele. — Ela veio porque o amor ficou. Gabriel pegou os sapatinhos, colocou na palma da mão e ficou olhando, em silêncio. E ali, naquele quarto simples, com balões rosas e um futuro inteiro pela frente, o homem que nunca temeu nada descobriu que tinha um ponto fraco eterno: uma mulher… e uma menina que ainda nem tinha nascido.
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