SOLANGE
Pauso a música no meu celular quando vejo que estávamos fazendo um caminho completamente diferente do que leva ao Leblon.
— Solange: Seu irmão sabe que esse caminho não vai para o Leblon, né? — cochicho para a Yasmin, mas não saiu baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
— Pesadelo: Que Leblon o que, minha filha? Tu tá indo é pra Cidade de Deus. — fala todo grosso.
— Solange: Como assim?
— Pesadelo: Tu vai morar em uma favela, o patricinha. — me olha pelo retrovisor do carro.
— LP: Tava sabendo disso não? — pergunta.
— Solange: Não, eu pensei que minha tia ainda morava no Leblon.
— Yasmin: Ela morava, até conhecer o meu pai e começar a se envolver com ele — aí ela mudou pro morro. — explica.
Respiro fundo.
— Solange: Tá contente não? Só não morar lá.
— Pesadelo: Qual foi em? Todo esse estresse é falta de f***r, cara? Chato pra c*****o, toma no cu.
— LP: Eita que a filhinha de papai tem a língua afiada. — gargalha.
— Pesadelo: Tudo isso aí é pose. — n**a com a cabeça.
— Solange: Pesadelo fala, macho o****o do c*****o.
— Yasmin: Nem perde tempo com o Pesadelo, vale seu estresse não, amiga — vai por mim. — fala baixo e eu apenas concordo permanecendo em silêncio.
Quando meu pai disse que as coisas no Brasil não seriam fáceis para mim, eu não imaginei que morar em uma favela iria fazer parte disso. Não tenho preconceito nem nada, mas sou muito mais o Leblon — bairro calmo, longe de invasões e tiroteios.
Passamos pela barreira do morro e eu vejo vários caras com fuzis na costa, fazendo a segurança da entrada onde passamos direto. Pesadelo estaciona o carro em frente a uma casa grande, com dois andares — pelo menos a casa é bonita.
— Rita: Meu Deus, menina, você está tão grande. — me abraça.
— Solange: Também senti sua falta, tia. — me desfaço do seu abraço e encaro o homem que estava logo atrás dela, com um sorriso amigável nos lábios.
— Digão: Satisfação, Digão. — estende sua mão para mim e eu retribuo o cumprimento.
— Solange: Sol. — sorrio.
— Pesadelo: Será que a princesinha aí pode vir me ajudar com as malas? Não sou empregado de ninguém não. — abre a boca e eu reviro os olhos, fazendo minha tia franzir o cenho.
— Yasmin: Se preparem, os dois não pararam de se alfinetar desde que se conheceram. — fala.
— Rita: Não se preocupa, Sol — eu ajudo meu filho com as suas coisas, fique a vontade. — sorrio em agradecimento e minha tia já me puxa para dentro de casa.
Era ainda mais linda do que por fora. Sigo a tia Rita até a cozinha e a Yas vem logo atrás de nós. Me sento na cadeira enquanto espero minha tia preparar o café.
— Rita: Agora me conta, o que tu aprontou lá na Califórnia em?
— Solange: O mesmo de sempre, tia.
— Rita: Fazer o que bem entende? — assinto. — Seu pai sempre muito rígido com as regras. — faz uma careta. — Não é atoa que eu e ele sempre brigávamos.
— Yasmin: Ainda não consigo acreditar que você é o tipo de menina rebelde — sua aparência diz outra coisa. — comenta.
— Solange: E o que todos acham de mim. — dou de ombros. — Mas todo mundo esquece que as aparências enganam.
— Rita: E como sua mãe ficou? — minha tia serve um copo de café para mim e eu dou um gole no mesmo.
— Solange: Decepcionada, tia. — sorrio fraco.
— Solange: O seu irmão sabe que você mora na favela, Rita? — encaro minha tia que fica em silêncio.
E é aí que eu entendo tudo: meu pai jamais deixaria eu morar em uma favela, onde eu poderia conseguir muito bem as coisas que eu quero.
— Rita: Se eu contasse a verdade, provavelmente ele te faria morar sozinha — e do jeito que ele falou comigo, você teria que se sustentar por completo. — eu praticamente implorei pra que ele não exigisse que você pagasse a faculdade e ainda ajudasse nas despesas daqui de casa.
— Solange: Eu ainda vou ter que fazer faculdade? — faço cara de tédio e minha tia assente.
— Rita: Ele disse que a faculdade ele vai pagar, mas que ele quer que até o final do mês você já esteja trabalhando — ou as coisas vão piorar para o seu lado. — suspira fundo. — Olha Sol, eu não ligo que você fume, transe, beba, tenha tatuagens — mas pelo amor de Deus faça a faculdade e tente arrumar um emprego, só para o seu pai parar de pegar no seu pé.
Respiro fundo: vai ser mais difícil do que eu pensei, mas preciso fazer isso pela minha tia, minha mãe e minha irmã.
— Solange: Posso subir para o quarto? Estou cansada e o fuso horário está me matando. — reviro os olhos.
— Rita: Claro que pode, o seu quarto é o último do corredor.
— Solange: Se eu dormir demais, me chama.
Minha tia assente e a Yas fica com ela na cozinha. Subo as escadas e dou de cara com o Pesadelo saindo do quarto, que suponho que seja o seu. Finjo que não noto sua presença e passo pelo mesmo sem olhar na sua cara, mas sinto seus braços me puxarem fazendo com que eu parasse no lugar.