Na manhã seguinte, Bela acordou com um peso estranho no peito — não de medo, mas de consciência. Consciência de que, pela primeira vez em muito tempo, alguém estava realmente ao lado dela. Alguém que não exigia nada, não cobrava nada, não pressionava nada.
Alguém que simplesmente… ficava.
Caio.
Ela se levantou devagar. A náusea, embora mais leve, aparecia nas primeiras horas. Mas dessa vez não veio com pânico. Veio com um lembrete: ela estava grávida de verdade. Era real. Era dela.
Lavou o rosto, respirou fundo e saiu do quarto.
Caio estava na cozinha.
De camisa social, mangas dobradas, a gravata pendurada no colo. Com uma xícara de café em uma mão e o celular na outra. Mas quando ouviu o som da porta, levantou o rosto imediatamente.
E o olhar dele…
Acertou Bela como um impacto silencioso.
Reconhecimento.
Preocupação.
Algo além.
— Bom dia — ele disse, e a voz não era apenas educada. Era suave, quase íntima.
— Bom dia — ela respondeu, sentindo o rosto esquentar.
Ele colocou o celular na bancada.
— Como você está?
— Bem. Eu acho.
— “Eu acho” não vale — Caio retrucou. — Quero saber de verdade.
Bela olhou para as próprias mãos e confessou:
— Um pouco enjoada. Um pouco nervosa. E… um pouco melhor.
O canto da boca dele levantou levemente.
— Isso é ótimo. Um passo de cada vez.
Ela assentiu. Mas antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Caio puxou uma sacola da mesa.
— Trouxe isso para você.
Ela franziu o cenho.
— O quê?
Ele tirou um frasco, biscoitos, uma garrafinha de água, e deixou tudo sobre a mesa.
— A médica disse que isso pode ajudar nos enjoos — explicou, simples. — E… achei melhor prevenir.
Bela sentiu um calor forte dentro do peito.
Ele lembrava.
Ele prestava atenção.
Ele cuidava.
— Você não precisava… — murmurou.
— Eu sei — Caio respondeu. — Mas eu quis.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era cheio demais para ser ignorado.
Foram juntos ao trabalho. Claro que foram. Caio não permitiria que ela fosse sozinha — e Bela não tinha coragem de discutir.
No carro, ele descansava a mão esquerda no volante e a direita perto do câmbio. Mas toda vez que Bela respirava diferente… Caio olhava para ela.
Ela tentou não rir.
— Você está me vigiando.
— Estou monitorando — ele corrigiu, sem humor. — É diferente.
— Ah, claro.
— Não faz piada, Bela — ele respondeu, sério. — Você passou m*l ontem. Hoje eu não quero nenhum susto.
Ela ficou vermelha.
— Você é exagerado.
— Eu me importo — Caio disse, sem rodeios.
E Bela percebeu algo ali.
Algo que ela tentou não notar.
Mas era impossível ignorar:
Caio não estava apenas sendo protetor.
Ele estava… envolvido.
Profundamente envolvido.
E isso… assustava e confortava ao mesmo tempo.
Ao chegar na empresa, Caio saiu primeiro — como se estivesse analisando o ambiente. Depois abriu a porta dela, sem cerimônia.
— Pode descer.
Ela desceu.
E viu o que não queria ver.
Alguns funcionários observavam.
Comentando.
Cochichando.
Mas Caio não parecia se importar.
Nem um pouco.
Ele olhou de volta, com aquela postura firme que fazia todo mundo desviar o olhar.
No elevador, estavam só os dois.
— Caio… — Bela disse, quebrando o silêncio. — As pessoas estão comentando.
— Problema delas — ele respondeu.
— Mas isso pode ser r**m pra você…
— O que me importa é você — Caio retrucou, direto.
Bela engoliu seco.
— E pra empresa? Você é o diretor…
— Eu sou o diretor. Eu decido o que é problema.
— Isso é loucura.
— Isso é escolha.
Ela ficou quieta.
Porque discutir com Caio era impossível — e, de certa forma, deliciosamente tranquilizador. Ele não vacilava.
O elevador chegou ao andar dele. Ele saiu, mas antes tocou o braço de Bela com o dedo, leve.
— Se precisar de mim… — disse, sem terminar a frase.
— Eu sei — ela completou.
O dia passou mais leve do que os anteriores. Marina ajudava quando podia. As tarefas eram simples. Bela tentava não encarar o telefone com medo de uma nova ameaça de Daniel.
Mas, mesmo sem ele aparecer… o medo continuava lá.
Por volta das três da tarde, Marina se inclinou para ela.
— Ele te olha diferente.
— Quem? — Bela fingiu não entender.
— Caio — Marina disse, sorrindo. — Você já percebeu, né?
Bela ficou vermelha.
— Ele só quer me ajudar.
— Ah, claro — Marina respondeu, rindo. — Homem nenhum cuida de alguém assim se não sentir nada.
Bela engoliu seco.
— Marina…
— Você acha que eu não vi a forma como ele correu atrás de você no corredor ontem? Ou como ficou te esperando no carro hoje cedo? Ele olha para você como se… estivesse vendo mais do que você deixa aparecer.
Bela baixou os olhos.
A sensação era a mesma que ela tentava ignorar o dia inteiro.
— Isso é conversa… — murmurou.
— É conversa quando não existe. E existe — Marina insistiu. — E você também sente alguma coisa.
— Não sinto — Bela mentiu.
Marina levantou as mãos.
— Ok. Se você diz.
Mas Bela sabia que mentia.
E Marina também.
No fim da tarde, Bela recebeu uma mensagem.
O coração dela congelou.
Mas não era Daniel.
Era Caio.
“Desce. Estou te esperando no carro.”
Ela suspirou de alívio. Pegou a bolsa e desceu.
Quando chegou no estacionamento, Caio estava lá. Encostado no carro. Gravata afrouxada. A camisa marcando o corpo. O olhar direto nela.
Esse olhar…
Reconhecia.
Enxergava.
Sentia.
— Tudo bem? — ele perguntou, abrindo a porta para ela.
— Sim — respondeu.
O caminho de volta foi mais silencioso do que o normal. Um silêncio carregado, onde palavras pareciam perigosas demais para serem ditas.
Quando chegaram ao apartamento, Caio subiu com ela.
Ele sempre subia.
Como se não confiasse no mundo lá fora.
— Bela — Caio chamou, antes que ela entrasse. — Preciso te dizer uma coisa.
O coração dela acelerou.
— O quê?
Caio respirou fundo.
Lento.
Como alguém se preparando para deixar cair uma verdade pesada demais.
— Hoje… quando você chegou… eu percebi algo.
Ela parou.
Ele também.
— Eu reconheço você — Caio disse, com voz profunda. — Não só pela pessoa que você era antes. Mas por quem você está se tornando agora.
Ela piscou, confusa e tocada.
— O que isso significa?
Ele deu um passo à frente.
Depois outro.
E parou tão perto que ela sentiu o calor do corpo dele.
— Significa que eu vejo sua força — Caio disse, olhando direto dentro dos olhos dela. — Eu vejo sua dor. Vejo seu medo. Vejo sua coragem. Vejo sua forma de lutar pela vida. Pelo bebê. Por você mesma.
Ele tocou o rosto dela — de leve, com a ponta dos dedos.
— E eu reconheço essa mulher. A mulher que você achou que perdeu quando saiu daquela casa. Ela está aqui. Crescendo. E eu…
Ele hesitou.
Respirou.
E a verdade veio:
— Eu quero estar perto dessa versão de você. Quero caminhar com ela. Com vocês dois.
O ar de Bela travou.
— Caio…
— Eu não estou pedindo nada — ele repetiu, firme, para não assustá-la. — Mas estou deixando claro que não vou fingir que não vejo. Que não sinto. Você não está sozinha. E nunca mais vai estar enquanto eu puder decidir isso.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
Não de dor.
Mas de algo que ela não sentia fazia anos:
Pertencimento.
Amparo.
Esperança.
— Obrigada — ela sussurrou, a voz embargada.
— Não precisa agradecer — Caio respondeu, com aquele olhar que a desmontava. — Eu só estou fazendo o que deveria ter feito há muito tempo.
Ela respirou fundo, tocada demais.
— Você… você sempre foi assim comigo?
— Sempre — Caio confessou. — Só que você nunca olhou de volta.
O coração dela bateu descompassado.
— E agora? — Bela perguntou, baixinho, com medo da resposta.
Caio deu o último passo.
Rosto a centímetros do dela.
O olhar dele queimando.
E a voz rouca:
— Agora você finalmente está me vendo.
Bela sentiu o mundo parar.
A respiração falhar.
O peito apertar.
Caio não a beijou.
Não forçou nada.
Ele apenas encostou a testa na dela — um gesto cheio de sentimento, quase íntimo demais para ser tão simples.
E murmurou:
— Vai descansar. Eu fico aqui.
Ela fechou os olhos.
E deixou a verdade entrar:
O olhar dele reconhecia ela.
A nova.
A quebrada.
A renascendo.
A mulher que ele sempre viu antes que ela se enxergasse.
E isso…
mudava tudo.