A PRIMEIRA PORTA SE ABRE

1536 Words
O resto da tarde foi uma mistura de silêncio, tensão e olhares que Bela não sabia interpretar. Ela tentava trabalhar, mas a cena de Daniel e Caio na entrada do prédio repetia na mente dela como um filme que não parava. Ela nunca viu dois homens tão diferentes representarem duas versões tão contrastantes de amor e poder. Daniel queria posse. Caio oferecia proteção. E pela primeira vez, Bela enxergava isso com clareza. Mas enxergar não tornava mais fácil de lidar. Quando o expediente terminou, Caio apareceu na porta do setor dela — não chamou, não perguntou, apenas esteve lá, como se aquilo fosse natural. — Vamos? — perguntou, como se fosse óbvio que sairiam juntos. Marina abriu um sorriso malicioso por trás do computador. Bela corou — mas assentiu. — Vamos. No elevador, Caio ficou ao lado dela, e o silêncio entre os dois não era desconfortável. Era carregado demais. Quente demais. Vivo demais. Bela respirava fundo, tentando organizar pensamentos. Caio também. Quando as portas se abriram no estacionamento subterrâneo, um segurança se aproximou. — Senhor Bismarque, reforçamos as câmeras externas e colocamos uma equipe adicional hoje. O homem que apareceu mais cedo… — Ele não volta — Caio cortou, firme. — De qualquer forma, estamos atentos. — Bom — Caio respondeu. Bela observava tudo, sentindo-se pequena diante da estrutura que Caio mobilizava por causa dela. Por causa dela e do bebê. O bebê. A palavra rondava o peito dela o dia inteiro. Eles entraram no carro. Caio colocou o cinto, ajustou o banco e olhou para Bela antes de ligar o motor. — Como você está? Ela hesitou. — Tentando não entrar em pânico. Caio assentiu, compreensivo. — Está forte por isso. Ela deixou escapar um meio sorriso triste. — Eu não me sinto forte. — Só pessoas fortes conseguem continuar mesmo com medo, Bela — Caio disse, virando o rosto para ela. — Fraqueza é o medo parar você. E ele não te parou. Ela sorriu de verdade dessa vez. — Eu… obrigada. O olhar dele baixou para a mão dela no colo, depois voltou para o volante. Ele ligou o carro. O caminho foi tranquilo, até que Caio perguntou algo que ela não esperava: — Você decidiu o que vai fazer? — Sobre o quê? — Sobre Daniel. Ela engoliu seco. — Não sei. Fugir já não parece suficiente. Ele me achou uma vez… vai achar de novo. Caio apertou o volante com força. — Ele não vai te encostar. — Mas ele pode tentar. E… eu tenho medo. Medo dele, medo da vida, medo de… tudo. Caio ficou em silêncio por alguns segundos. E então disse a frase que mudou o rumo de tudo: — Então deixa eu ser a pessoa que segura esse medo com você. O ar dela travou. — Caio… — Não estou te pedindo nada — ele continuou. — Só estou te dizendo: você não precisa enfrentar um homem perigoso sozinha. Nem enfrentar uma gravidez sozinha. Nem enfrentar a vida sozinha. As lágrimas subiram — porque doía e curava ao mesmo tempo ouvir algo assim. — Eu não quero ser um peso… — ela murmurou. — Você não é — Caio afirmou, firme o suficiente para não deixar espaço para dúvida. — Nem nunca será. Ela respirou fundo, tentando não desabar no banco do carro. Ele percebeu. — Não precisa responder nada agora — Caio completou. — Só… me deixa estar. Ela assentiu. Não porque precisava — mas porque queria. Quando chegaram ao apartamento, Caio subiu com ela. Mais uma vez, não perguntou se podia. Apenas veio. Entraram. Bela colocou a bolsa no sofá. Caio olhou ao redor, avaliando tudo com cuidado. — Dormiu bem aqui? — perguntou. — Melhor do que dormia na pousada — ela respondeu. — Não ouviu nada estranho? Alguém no corredor? Movimentação suspeita? Ela riu baixinho. — Caio, você está exagerando um pouco. Ele ergueu uma sobrancelha. — Daniel apareceu no seu trabalho hoje. Você acha que estou exagerando? Ela mordeu o lábio. — Tem razão. Ele respirou fundo, tirando o celular do bolso. — Vou pedir para reforçarem a equipe aqui na rua também. — Caio… — ela tentou interromper — você não precisa virar meu guarda-costas. Ele a encarou, e o olhar dele explodiu em intensidade: — Não sou seu guarda-costas. Estou protegendo alguém que… — a voz falhou por um segundo, depois voltou firme — alguém que eu me importo. Bela sentiu o rosto esquentar. — Eu não quero que você coloque sua vida em risco por mim… — Eu coloco porque quero, Bela — Caio disse, sem hesitar. — Porque dane-se o risco se você está em perigo. Ele não deveria ter dito aquilo. E ela não deveria ter ouvido com o coração desprotegido. Os dois ficaram um instante apenas se encarando. Silêncio. Profundo. Quente. Perigoso. Até que Bela desviou o olhar. — Caio… eu estou com fome. Ele riu. Um riso discreto, lindo, quase alívio. — Ótimo. A médica disse que você precisa comer direito. E eu faço o que me mandam… quando vale a pena. Ela riu também, sentindo o coração ficar mais leve. Jantaram algo simples, mas confortável. Caio pediu comida saudável pelo celular e ficou observando Bela comer como se estivesse analisando cada detalhe dela — não por posse, mas por preocupação. — Você gostava de comida assim antes? — ele perguntou. — Eu gosto de quase tudo — ela disse. — Menos de gente que mente. Caio ficou sério. Totalmente sério. — Nunca vou mentir para você. Bela parou de mastigar. — E se a verdade doer? — Eu vou com você na dor — Caio respondeu. Ela desviou o olhar, engolindo devagar. — Você está muito… intenso — ela disse, tentando suavizar. — Não sei ser outra coisa — ele respondeu. E era verdade. Caio não disfarçava. Não se escondia. Não fingia nada. Ele vivia o que sentia. Com força. E isso assustava Bela tanto quanto a atraía. Depois do jantar, ele recolheu as embalagens, lavou a louça sem ela pedir e depois voltou até o sofá, onde ela estava sentada, com as pernas dobradas e uma almofada abraçada. — E então… como você está agora? — Caio perguntou, sentando de frente para ela. — Menos assustada — ela respondeu. — Mas ainda… muito perdida. — Eu te ajudo a achar caminho — Caio disse. — Você não pode viver minha vida por mim. — Não posso — ele concordou. — Mas posso caminhar ao lado. Ela respirou fundo. — Caio… você não está exagerando na preocupação? Ele riu com o canto da boca. — Não. Mas você está subestimando o risco. — O Daniel não vai… — Bela começou. — Daniel é um covarde, mas covardes são imprevisíveis — Caio disse, firme. — E eu não vou deixar você voltar para o inferno que estava vivendo. Ela baixou os olhos. — Por que você se importa tanto? — Bela perguntou, baixinho. E Caio respondeu sem desviar: — Porque você sempre foi importante para mim. Mesmo quando nem sabia. A frase bateu no coração dela como um impacto direto. — Mesmo quando eu namorava outro homem? — ela murmurou, surpresa. — Especialmente nesse tempo — Caio admitiu. Bela ficou imóvel. Caio respirou fundo, como se estivesse tirando um peso gigantesco de si. — Eu te via em todas as reuniões que seu pai fazia. Você entrava com café, com documentos… e sempre sorria. E você fazia tudo parecer simples, mesmo quando estava sobrecarregada. E eu… Ele parou, escolhendo as palavras. — Eu te admirava. Em silêncio. E torcia para você estar com alguém que merecesse isso. Ela sentiu o ar travar. — Eu não sabia… — sussurrou. — Eu nunca disse — Caio respondeu. — Porque não queria atrapalhar sua vida. Então fiquei quieto. Mas quando te vi na empresa… quebrada, fugindo, sozinha… A voz dele ficou mais baixa. — Eu não consegui ficar quieto de novo. Bela levou a mão à boca, emocionada. Caio continuou: — Você me importa, Bela. Não sei desde quando. Só sei que importa. E que eu não vou fingir que não vejo isso agora. Ela não conseguiu falar. — Você pode não confiar em mim ainda — Caio disse — mas eu vou te provar. Com atitudes. Com presença. Ele se inclinou um pouco para frente. Devagar. Sem pressa. Sem impor. E completou: — A primeira porta da sua vida nova abriu quando você fugiu daquela cidade. Mas a segunda abriu quando você me deixou entrar. As lágrimas dela caíram. E Caio levantou a mão — devagar, pedindo permissão — e limpou uma gota no canto do olho dela. — Você não está mais sozinha — ele murmurou. — Não neste lugar. Não com esse bebê. Não com Daniel à solta. Ela encostou a testa na dele por impulso. Não era beijo. Mas era íntimo. E forte. E cheio de algo que ainda não tinha nome. Caio fechou os olhos. Respirou fundo. Segurou o braço dela com cuidado. E disse: — Amanhã… começamos a transformar sua fuga em vida. Uma vida nova. A sua vida. E Bela, pela primeira vez, acreditou. A cidade ainda era desconhecida. Mas agora… a porta estava aberta. E Caio estava lá.
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