O corredor do hospital parecia mais longo do que qualquer estrada que Bela havia fugido. A revelação tinha sido feita. A palavra “grávida” agora não era mais um segredo entre ela e o banheiro da pousada. Tinha sido dita — aos médicos, ao ar, e principalmente… a Caio.
E Caio não estava pronto.
Ele ficou parado, imóvel, como se o próprio corpo tivesse esquecido como respirar. Os olhos escuros dele estavam fixos nela, não com condenação, mas com um impacto profundo — como se algo gigante tivesse se movido dentro dele.
Bela sentiu o tremor nas próprias mãos.
Não sabia se tinha sido corajosa ao contar.
Ou estúpida ao esperar compreensão.
A médica orientou:
— Vamos para o ultrassom. Quero garantir que está tudo bem com você e com o bebê.
Bela engoliu seco.
O bebê.
A palavra sempre doía e confortava ao mesmo tempo.
Ela olhou discretamente para Caio, esperando alguma palavra, qualquer reação. Algo que dissesse que ele não iria virar as costas.
Mas Caio estava preso no silêncio.
A médica chamou:
— Senhor Bismarque? Acompanhante pode vir também.
Caio piscou, como quem volta de um transe.
— Sim… claro — respondeu, rouco.
Ele caminhou ao lado de Bela até a sala do exame. As mãos dele estavam no bolso, tensão explícita no maxilar. Ele parecia lutar contra algo. Algo grande demais para colocar em palavras naquele momento.
Bela deitou na maca. A fria. A mesma que tantas mulheres já passaram. Mas para ela, era uma arena emocional, onde seu passado e futuro se encontrariam.
A médica colocou o gel no abdômen dela.
E Caio…
Caio ficou parado atrás da médica, braços cruzados, mas com os olhos presos em Bela. Sem piscar.
Não era curiosidade.
Era… preocupação.
E medo.
A médica deslizou o aparelho.
A tela acendeu.
O coração de Bela bateu forte.
Por um segundo, o silêncio pareceu esmagador.
E então…
Um som preencheu a sala.
Tum. Tum. Tum. Tum.
O coração do bebê.
Pequeno.
Rápido.
Vivo.
Bela levou a mão à boca e o choro a pegou desprevenida.
— Está tudo bem — a médica disse, sorrindo. — O bebê está forte. Aproximadamente oito semanas.
O som continuava.
Preenchendo cada canto da alma dela.
Cada medo.
Cada ferida.
E foi então que ela ouviu um segundo suspiro — pesado demais para ser o dela.
Caio.
Ele tinha levado a mão ao peito, como se aquele som tivesse acertado um ponto que ele tentava proteger há muito tempo. Os olhos dele ficaram vermelhos, mas ele piscou para conter a emoção.
Bela olhou para ele.
Ele olhou para ela.
E naquele momento, em um instante frágil e cheio de significados, algo silencioso aconteceu entre eles.
O som do coração do bebê…
atingiu Caio.
— O bebê está bem — a médica repetiu, imprimindo a imagem. — Você precisa apenas descansar e se alimentar melhor.
Ela continuou explicando orientações, mas Bela não ouviu quase nada.
Ela estava presa nos olhos de Caio.
E Caio…
Caio estava preso nela.
Quando o exame acabou, a médica saiu e deixou os dois sozinhos na sala.
Silêncio.
Denso.
Cortante.
Assustador.
Caio passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e deu meio passo para perto dela.
— Oito semanas… — murmurou.
Ela assentiu, com a voz trancada.
— Bela… — o tom dele era tão baixo que quase não existia. — Você escondeu isso de mim?
As palavras perfuraram.
— Eu… — ela engoliu seco — eu estava com medo.
Ele fechou os olhos, como se aquilo tivesse atravessado algo dentro dele.
— Medo de mim?
Ela balançou a cabeça imediatamente.
— Não, Caio. Nunca de você. Eu… eu só não queria… — tentou explicar — sobrecarregar você. Ou perder o emprego. Ou parecer frágil demais. Ou que achasse que eu estava…
Ela parou, sem coragem de terminar.
Caio completou:
— Usando isso?
Ela desviou o olhar.
Aquilo doeu só de ouvir.
— Eu não queria que você sentisse pena de mim — ela sussurrou.
Caio franziu o rosto inteiro, como se aquilo fosse absurdo.
— Pena? — repetiu, quase indignado. — Bela, eu nunca sentiria pena de você.
Ela ficou quieta.
— Mas eu sinto outra coisa — ele confessou, e o tom dele mudou. — Eu sinto culpa.
Bela arregalou os olhos.
— Culpa? Por quê?
Caio se aproximou mais.
— Porque você passou por tudo isso sozinha — ele respondeu, sem esconder o peso da voz. — Porque você estava grávida quando eu te encontrei naquele corredor da empresa. Porque você estava vomitando no banheiro e eu não sabia. Porque eu… — engoliu a emoção — não percebi.
Ela sentiu uma lágrima cair.
Não sabia que tinha resistência tão baixa perto dele.
— Caio… — ela tentou dizer algo, mas ele levantou a mão, pedindo para terminar.
— Eu devia ter visto. Eu devia ter entendido que tinha algo errado. Eu devia ter protegido você mais cedo.
Era estranho.
Era profundamente estranho.
Bela passou meses carregando tudo sozinha.
E agora, tinha um homem na sua frente dizendo:
“Eu queria ter carregado com você.”
Ela nunca ouviu isso antes.
— Não é sua culpa… — ela murmurou.
— Não muda o fato de que eu quero estar aqui agora — Caio respondeu, dando o último passo em direção a ela.
Ela ficou sem ar.
— Bela… — ele chamou, suave. — Você está com medo. Está grávida. E foi traída e ameaçada por um homem doente. Eu não vou te abandonar. Eu não vou recuar.
O ar dela travou.
— Mas… ele não é… seu filho… — ela murmurou, envergonhada.
O silêncio que veio logo depois foi avassalador.
Caio respirou fundo.
Forte.
Decidido.
E disse:
— Não é meu. Eu sei disso.
— Então… — ela hesitou — por que se importa tanto?
Ele segurou o queixo dela com delicadeza e respondeu com a verdade mais crua que ela já ouviu:
— Porque você importa para mim, Bela.
As pernas dela fraquejaram.
O peito apertou.
O coração bateu errado.
Ela nunca ouviu alguém dizer aquilo com tanta sinceridade.
— Eu não vou te pedir nada — Caio continuou. — Não vou pedir para ser pai desse bebê. Não vou pedir para você confiar em mim agora. Mas eu vou estar aqui. Vou te proteger. Vou garantir que você tenha o que precisa. E se você deixar…
Ele respirou.
— Eu posso ser o apoio que você não teve.
A lágrima escorreu.
Ela não conseguiu segurar.
— Você não precisa fazer tudo isso por mim — ela sussurrou, quebrada.
— Eu preciso sim — Caio respondeu. — Porque eu não aguento te ver passando por isso sozinha.
Ela não respondeu.
Não conseguia.
O peso da revelação, da dor, do medo, da proteção… tudo caiu sobre ela como uma tempestade silenciosa que se transformou em algo mais.
Ela se levantou da maca devagar.
Os dois ficaram frente a frente.
Bela colocou a mão no peito dele — não por romantização, mas porque precisava sentir algo firme sob os dedos, algo real.
— Caio… eu não sei o que vai ser da minha vida — ela confessou. — Mas… obrigada.
Ele colocou a mão sobre a dela.
— Não precisa agradecer sempre — disse, baixinho. — Só… me deixa ajudar.
Ela assentiu.
Devagar.
E ele respirou como se aquela resposta tivesse significado mais do que qualquer coisa.
Quando saíram do hospital, o sol já estava começando a baixar. A cidade parecia correr em outro ritmo, mas o mundo de Bela estava completamente diferente.
No carro, Caio dirigia devagar, como se não confiasse em nada ao redor.
— Vamos pegar comida antes de irmos para casa — Caio disse. — Você precisa comer.
Ela não debateu.
Ele escolheu um restaurante leve. Entrou, pediu, pagou e saiu sem soltar a mão dela enquanto atravessavam a rua.
E aquilo — aquele gesto simples — mexeu com ela mais do que devia.
No elevador do apartamento, Bela ficou em silêncio.
Caio também.
Mas não era um silêncio desconfortável.
Era… cheio.
Quando chegaram à porta, Bela virou para ele.
— Caio… eu… eu não sei como fazer isso. Não sei como ser forte agora.
Ele a encarou por uns segundos e respondeu:
— A força não está em não ter medo.
Está em continuar, mesmo tremendo.
E você está fazendo isso.
Ela mordeu o lábio, emocionada.
Caio abriu a porta do apartamento, colocou a sacola sobre a mesa e virou para ela.
— E se você não conseguir ser forte algum dia… — ele deu um passo até ela — eu seguro você.
Ela sentiu o chão sumir sob os pés.
As mãos dela subiram lentamente até o rosto dele, quase sem perceber.
E Caio fechou os olhos com o toque.
— Obrigada por… estar aqui — ela sussurrou.
— Eu sempre estive — Caio murmurou, abrindo os olhos. — Só faltava você me enxergar.
A respiração de Bela falhou.
Ele não a beijou.
Ele não encostou mais.
Mas inclinou o rosto devagar até a testa dele tocar a dela.
Um gesto íntimo.
Profundo.
Real.
— Vai descansar — Caio disse, numa voz que parecia um abrigo. — Eu fico à porta até você dormir.
Ela sentiu o mundo girar devagar.
E pela primeira vez desde que fugiu, não se sentiu sozinha.
— Boa noite, Caio — ela disse, com o coração acelerado.
— Boa noite, Bela — ele respondeu.
E ficou ali.
Vigiando a porta.
Guardando ela e o bebê.
Enquanto do outro lado da cidade, Daniel batia portas, quebrava coisas e prometia a si mesmo:
“Se ela não volta por bem… volta por mal.”
A guerra estava apenas começando.
Mas Bela não estava mais sozinha.