A ÚLTIMA HUMILHAÇÃO

1639 Words
O nome de Daniel piscando na tela fez o chão de Bela sumir por alguns segundos. “MALDITO.” A palavra surgiu sozinha na mente dela. Um número desconhecido… mas o mesmo tom arrogante de sempre. “Eu achei você.” As mãos dela suaram. O ar ficou curto, quente, pesado. “Ele não pode estar aqui… ele não pode…” Mas Bela sabia: Daniel sempre conseguia o que queria. Sempre. Ela apertou o celular com força e guardou dentro da bolsa como se isso pudesse apagar a ameaça. Depois respirou fundo, ergueu o rosto e se obrigou a continuar andando. Porque se parasse, ia desmoronar ali mesmo na calçada. O vento bateu no rosto dela, gelado, como um tapa que a lembrava de uma verdade c***l: Ela não estava segura. Nem um pouco. Quando chegou à pousada, a recepcionista sorriu, mas Bela não conseguiu devolver o gesto. Correu para o quarto e trancou a porta, encostando a testa na madeira enquanto o coração batia forte demais. O telefone vibrou de novo. Outra mensagem. Ela tomou coragem e olhou: “Converse comigo, Bela. Você me deve isso.” Ela riu. Baixo. Desacreditada. — Eu não te devo nada — sussurrou. Mas a verdade era pior do que isso: Daniel acreditava que ela pertencia a ele. E homens como ele não deixavam suas “posses” irem embora facilmente. Ela respirou fundo e revidou, mesmo sabendo que talvez fosse a pior escolha: “Pare de me procurar.” A resposta veio instantânea: “Você deixou suas coisas aqui. Sua vida. Seu futuro. Você vai voltar.” Bela apagou a mensagem com o peito apertado. Voltar? Nunca. E então veio o golpe final: “Se não quer voltar por mim… talvez volte pelo que está carregando.” O coração dela congelou. Ele sabia. Ele sabia da gravidez. Ou estava desconfiando? Sentindo? Ou investigando? O m*l-estar subiu pelo corpo dela como uma onda. Ela sentou na cama, segurou a barriga sem perceber — não tinha nada para sentir ainda, mas a ideia de proteção já era instintiva. — Você não vai chegar perto… — jurou em voz baixa. Ela apagou todas as mensagens, bloqueou o número, desligou o celular e jogou no fundo da mala. Mas mesmo assim, o medo ficou ali, sentado ao lado dela, como uma sombra que não tentava se esconder. Daniel sempre foi perigoso. Sempre. Mas agora… agora ele era imprevisível. E ela estava sozinha. A madrugada chegou sem que Bela conseguisse dormir. Cada barulho no prédio parecia ser sinais dele. Cada passo no corredor a fazia segurar a respiração. Às quatro da manhã, ela decidiu que não ia mais se torturar. Levou a mão à barriga, sentindo a realidade que escondia. Um gesto pequeno, mas cheio de significado. — Eu vou te proteger — prometeu. E só então conseguiu dormir por algumas horas. O dia seguinte amanheceu com o celular despertando — ela tinha ligado de novo antes de dormir, por precaução. Se perdesse o horário, perderia o emprego que Caio acabara de dar. E perder aquele emprego significava perder o recomeço. Ela tomou banho rápido, prendeu o cabelo, vestiu a roupa mais decente que tinha e desceu para esperar o carro da empresa. Não teve que esperar muito. Às 7h59 o veículo estacionou em frente à pousada, pontual como Caio prometeu. O motorista abaixou o vidro. — Senhorita Bela Alencar? — Sou eu. Entrou no carro ainda com a sensação de estar sonhando. A cidade passava pela janela tão rápido quanto seus pensamentos. E, pela primeira vez desde a fuga, ela sentiu algo que parecia paz — baixa, tímida, mas presente. Quando o carro parou na entrada da Bismarque Corp, o coração dela acelerou. Não por medo. Mas porque Caio estava lá dentro. E Caio… Caio era diferente de tudo. Assim que entrou no prédio, a recepcionista sorriu com respeito — algo que não tinha acontecido no dia anterior. — Bom dia, senhorita Alencar. O senhor Bismarque está te esperando. Esperando? Por ela? O peito dela se apertou. Subiu no elevador e tentou controlar a respiração. Cada andar que passava deixava o ar mais tenso. Quando as portas se abriram no último andar, Caio estava lá — parado, com as mãos no bolso, impecável como sempre. Eles se olharam. — Bom dia — Caio disse, sem sorriso, mas com um calor discreto na voz. — Vem comigo. Não houve formalidade. Não houve distância. Caio falava com ela como alguém que nunca esqueceu quem ela era. Ao caminhar ao lado dele, Bela sentiu o peso da presença dele — forte, controlada, envolvente. O perfume dele era discreto, mas marcante. O passo firme. O olhar direto. Ela tentou não parecer nervosa. Falhou miseravelmente. — Dormiu bem? — Caio perguntou. — Mais ou menos — ela respondeu. Ele parou por um instante, olhando fundo. — Você parece preocupada. — Só… cansaço — mentiu. Caio não acreditou. Ela viu isso nos olhos dele. Mas ele não insistiu — ainda. O setor em que trabalharia ficava no oitavo andar. Caio a apresentou a duas funcionárias, explicou as tarefas iniciais, mostrou a mesa que seria dela. Profissional. Objetivo. Sem privilégios aparentes. Mesmo assim, Bela sentiu algo diferente — uma espécie de proteção silenciosa vindo da presença dele. — Qualquer problema, você fala comigo — Caio disse antes de sair. E foi isso. Simples. Direto. Quase íntimo demais. Bela tentou começar a trabalhar, mas a cabeça dela voltava para as mensagens de Daniel. Ele sabia? Ou estava tentando manipular? O estômago dela girou. Estava claro: trabalhar seria impossível enquanto aquela ameaça existisse. Às dez da manhã, ela pediu licença e foi ao banheiro. Trancou a porta, respirou fundo e finalmente decidiu fazer o que evitou desde o dia anterior: Desbloqueou o celular. Uma chuva de notificações. Mensagens de números desconhecidos. Ligação perdida. E uma última mensagem que fez o sangue dela gelar: “Você fugiu de mim? Péssima ideia, Bela.” Simples. Direta. Fria. Daniel estava com raiva. E quando ele ficava com raiva… Ele mudava. Ela precisou se sentar no chão do banheiro. As mãos tremiam, a visão ficou turva. “Eu preciso contar a alguém. Eu preciso de ajuda.” Mas contar para quem? Para a mãe? Não tinha coragem. Para uma amiga? Não tinha ninguém ali. Para Caio? O nome dele ficou preso na mente dela como uma luz em meio à escuridão. Mas e se ele recuasse? E se achasse que ela era problema demais? E se… Um nó subiu pela garganta. Ela tinha medo. Não de Caio — nunca dele. Mas de perder aquele único pilar que apareceu no meio do caos. Bela voltou para sua mesa, mas estava pálida. Muito pálida. Marina, uma colega, perguntou: — Você está passando m*l? — Só um pouco de tontura — disfarçou. Mas Caio não se deixava convencer por disfarces. Menos de duas horas depois, ele apareceu de surpresa no setor. — Bela? — chamou. Ela levantou, surpresa. — Você pode vir comigo um instante? As colegas olharam com curiosidade. Ele andou na frente, ela atrás. Quando entraram na sala dele, Caio fechou a porta. — O que aconteceu? — perguntou, direto. Ela tentou esconder, tentou desviar, tentou ser forte. Falhou. E a verdade rasgou sem aviso: — Ele me achou. Caio ficou imóvel. — Quem? — Daniel… Os olhos de Caio mudaram. Escureceram. Endureceram. — O que ele te mandou? Bela tirou o celular da bolsa e entregou nas mãos dele. O gesto tremia. O medo transbordava. Caio leu as mensagens. Uma por uma. A expressão dele mudou de leve irritação… para algo mais perigoso. — Ele te ameaçou — Caio disse, a voz baixa, rígida. — Isso não é só um ex-noivo. Isso é um homem que perdeu o controle. Bela engoliu seco. — Eu não queria envolver você… — Já envolveu — Caio respondeu sem hesitar. E então veio a frase que mudou tudo: — Se ele procurar você de novo, vai lidar comigo. O ar ficou espesso. A proteção que ela sentiu no dia anterior agora tinha forma. Força. Peso. — Caio… eu tenho medo — ela confessou. Ele se aproximou devagar. Não tocou nela. Mas parou perto o bastante para que ela sentisse o calor. — Eu sei — ele disse, firme. — Mas você não vai passar por isso sozinha. Não mais. O olhar dele pousou na barriga dela por um instante. Rápido. Quase imperceptível. Mas suficiente para quebrar a respiração dela. — Caio… — ela tentou dizer algo. Ele levantou a mão, suave. — Quando quiser falar, eu vou ouvir. Quando quiser esconder, eu vou respeitar. Mas eu nunca vou deixar que alguém encoste um dedo em você. A última palavra saiu mais pesada, mais carregada de sentimento do que ele pretendia. — Nunca — repetiu. Bela sentiu algo quebrar dentro dela. Medo e alívio. Dor e esperança. Tudo ao mesmo tempo. Mas antes que ela pudesse responder, o celular vibrou de novo. Na tela: Número privado. Daniel. Bela perdeu a cor. Caio pegou o celular da mão dela antes que ela atendesse. — Agora isso é comigo — ele disse. E atendeu. Sem aviso. Sem hesitação. Sem medo. A voz dele mudou. Ficou afiada, fria, calculada. — A partir de agora, você fala comigo. Silêncio do outro lado. — Tente procurar a Bela mais uma vez — Caio continuou — e você vai descobrir o tipo de inimigo que nunca deveria ter arrumado. E desligou. Bela ficou sem ar. Caio devolveu o celular. E disse a frase que seria o marco do que viria pela frente: — Eu não vou entregar você para ele. Nem agora. Nem nunca. Ela fechou os olhos. E percebeu o inevitável: A última humilhação que Daniel prometia não chegaria até ela. Porque Caio Bismarque acabava de entrar na guerra. E ele não era um homem que perdia.
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