O nome de Daniel piscando na tela fez o chão de Bela sumir por alguns segundos.
“MALDITO.”
A palavra surgiu sozinha na mente dela.
Um número desconhecido… mas o mesmo tom arrogante de sempre.
“Eu achei você.”
As mãos dela suaram.
O ar ficou curto, quente, pesado.
“Ele não pode estar aqui… ele não pode…”
Mas Bela sabia: Daniel sempre conseguia o que queria. Sempre.
Ela apertou o celular com força e guardou dentro da bolsa como se isso pudesse apagar a ameaça. Depois respirou fundo, ergueu o rosto e se obrigou a continuar andando. Porque se parasse, ia desmoronar ali mesmo na calçada.
O vento bateu no rosto dela, gelado, como um tapa que a lembrava de uma verdade c***l:
Ela não estava segura. Nem um pouco.
Quando chegou à pousada, a recepcionista sorriu, mas Bela não conseguiu devolver o gesto. Correu para o quarto e trancou a porta, encostando a testa na madeira enquanto o coração batia forte demais.
O telefone vibrou de novo.
Outra mensagem.
Ela tomou coragem e olhou:
“Converse comigo, Bela. Você me deve isso.”
Ela riu.
Baixo.
Desacreditada.
— Eu não te devo nada — sussurrou.
Mas a verdade era pior do que isso:
Daniel acreditava que ela pertencia a ele.
E homens como ele não deixavam suas “posses” irem embora facilmente.
Ela respirou fundo e revidou, mesmo sabendo que talvez fosse a pior escolha:
“Pare de me procurar.”
A resposta veio instantânea:
“Você deixou suas coisas aqui. Sua vida. Seu futuro. Você vai voltar.”
Bela apagou a mensagem com o peito apertado.
Voltar? Nunca.
E então veio o golpe final:
“Se não quer voltar por mim… talvez volte pelo que está carregando.”
O coração dela congelou.
Ele sabia.
Ele sabia da gravidez.
Ou estava desconfiando?
Sentindo?
Ou investigando?
O m*l-estar subiu pelo corpo dela como uma onda.
Ela sentou na cama, segurou a barriga sem perceber — não tinha nada para sentir ainda, mas a ideia de proteção já era instintiva.
— Você não vai chegar perto… — jurou em voz baixa.
Ela apagou todas as mensagens, bloqueou o número, desligou o celular e jogou no fundo da mala.
Mas mesmo assim, o medo ficou ali, sentado ao lado dela, como uma sombra que não tentava se esconder.
Daniel sempre foi perigoso.
Sempre.
Mas agora… agora ele era imprevisível.
E ela estava sozinha.
A madrugada chegou sem que Bela conseguisse dormir. Cada barulho no prédio parecia ser sinais dele. Cada passo no corredor a fazia segurar a respiração.
Às quatro da manhã, ela decidiu que não ia mais se torturar.
Levou a mão à barriga, sentindo a realidade que escondia.
Um gesto pequeno, mas cheio de significado.
— Eu vou te proteger — prometeu.
E só então conseguiu dormir por algumas horas.
O dia seguinte amanheceu com o celular despertando — ela tinha ligado de novo antes de dormir, por precaução. Se perdesse o horário, perderia o emprego que Caio acabara de dar.
E perder aquele emprego significava perder o recomeço.
Ela tomou banho rápido, prendeu o cabelo, vestiu a roupa mais decente que tinha e desceu para esperar o carro da empresa. Não teve que esperar muito. Às 7h59 o veículo estacionou em frente à pousada, pontual como Caio prometeu.
O motorista abaixou o vidro.
— Senhorita Bela Alencar?
— Sou eu.
Entrou no carro ainda com a sensação de estar sonhando. A cidade passava pela janela tão rápido quanto seus pensamentos. E, pela primeira vez desde a fuga, ela sentiu algo que parecia paz — baixa, tímida, mas presente.
Quando o carro parou na entrada da Bismarque Corp, o coração dela acelerou.
Não por medo.
Mas porque Caio estava lá dentro.
E Caio…
Caio era diferente de tudo.
Assim que entrou no prédio, a recepcionista sorriu com respeito — algo que não tinha acontecido no dia anterior.
— Bom dia, senhorita Alencar. O senhor Bismarque está te esperando.
Esperando?
Por ela?
O peito dela se apertou.
Subiu no elevador e tentou controlar a respiração. Cada andar que passava deixava o ar mais tenso. Quando as portas se abriram no último andar, Caio estava lá — parado, com as mãos no bolso, impecável como sempre.
Eles se olharam.
— Bom dia — Caio disse, sem sorriso, mas com um calor discreto na voz. — Vem comigo.
Não houve formalidade.
Não houve distância.
Caio falava com ela como alguém que nunca esqueceu quem ela era.
Ao caminhar ao lado dele, Bela sentiu o peso da presença dele — forte, controlada, envolvente.
O perfume dele era discreto, mas marcante.
O passo firme.
O olhar direto.
Ela tentou não parecer nervosa.
Falhou miseravelmente.
— Dormiu bem? — Caio perguntou.
— Mais ou menos — ela respondeu.
Ele parou por um instante, olhando fundo.
— Você parece preocupada.
— Só… cansaço — mentiu.
Caio não acreditou.
Ela viu isso nos olhos dele.
Mas ele não insistiu — ainda.
O setor em que trabalharia ficava no oitavo andar. Caio a apresentou a duas funcionárias, explicou as tarefas iniciais, mostrou a mesa que seria dela.
Profissional.
Objetivo.
Sem privilégios aparentes.
Mesmo assim, Bela sentiu algo diferente — uma espécie de proteção silenciosa vindo da presença dele.
— Qualquer problema, você fala comigo — Caio disse antes de sair.
E foi isso.
Simples.
Direto.
Quase íntimo demais.
Bela tentou começar a trabalhar, mas a cabeça dela voltava para as mensagens de Daniel.
Ele sabia?
Ou estava tentando manipular?
O estômago dela girou.
Estava claro: trabalhar seria impossível enquanto aquela ameaça existisse.
Às dez da manhã, ela pediu licença e foi ao banheiro. Trancou a porta, respirou fundo e finalmente decidiu fazer o que evitou desde o dia anterior:
Desbloqueou o celular.
Uma chuva de notificações.
Mensagens de números desconhecidos.
Ligação perdida.
E uma última mensagem que fez o sangue dela gelar:
“Você fugiu de mim? Péssima ideia, Bela.”
Simples.
Direta.
Fria.
Daniel estava com raiva.
E quando ele ficava com raiva…
Ele mudava.
Ela precisou se sentar no chão do banheiro.
As mãos tremiam, a visão ficou turva.
“Eu preciso contar a alguém. Eu preciso de ajuda.”
Mas contar para quem?
Para a mãe?
Não tinha coragem.
Para uma amiga?
Não tinha ninguém ali.
Para Caio?
O nome dele ficou preso na mente dela como uma luz em meio à escuridão.
Mas e se ele recuasse?
E se achasse que ela era problema demais?
E se…
Um nó subiu pela garganta.
Ela tinha medo.
Não de Caio — nunca dele.
Mas de perder aquele único pilar que apareceu no meio do caos.
Bela voltou para sua mesa, mas estava pálida. Muito pálida.
Marina, uma colega, perguntou:
— Você está passando m*l?
— Só um pouco de tontura — disfarçou.
Mas Caio não se deixava convencer por disfarces.
Menos de duas horas depois, ele apareceu de surpresa no setor.
— Bela? — chamou.
Ela levantou, surpresa.
— Você pode vir comigo um instante?
As colegas olharam com curiosidade.
Ele andou na frente, ela atrás.
Quando entraram na sala dele, Caio fechou a porta.
— O que aconteceu? — perguntou, direto.
Ela tentou esconder, tentou desviar, tentou ser forte.
Falhou.
E a verdade rasgou sem aviso:
— Ele me achou.
Caio ficou imóvel.
— Quem?
— Daniel…
Os olhos de Caio mudaram.
Escureceram.
Endureceram.
— O que ele te mandou?
Bela tirou o celular da bolsa e entregou nas mãos dele.
O gesto tremia.
O medo transbordava.
Caio leu as mensagens.
Uma por uma.
A expressão dele mudou de leve irritação… para algo mais perigoso.
— Ele te ameaçou — Caio disse, a voz baixa, rígida. — Isso não é só um ex-noivo. Isso é um homem que perdeu o controle.
Bela engoliu seco.
— Eu não queria envolver você…
— Já envolveu — Caio respondeu sem hesitar.
E então veio a frase que mudou tudo:
— Se ele procurar você de novo, vai lidar comigo.
O ar ficou espesso.
A proteção que ela sentiu no dia anterior agora tinha forma.
Força.
Peso.
— Caio… eu tenho medo — ela confessou.
Ele se aproximou devagar.
Não tocou nela.
Mas parou perto o bastante para que ela sentisse o calor.
— Eu sei — ele disse, firme. — Mas você não vai passar por isso sozinha. Não mais.
O olhar dele pousou na barriga dela por um instante.
Rápido.
Quase imperceptível.
Mas suficiente para quebrar a respiração dela.
— Caio… — ela tentou dizer algo.
Ele levantou a mão, suave.
— Quando quiser falar, eu vou ouvir. Quando quiser esconder, eu vou respeitar. Mas eu nunca vou deixar que alguém encoste um dedo em você.
A última palavra saiu mais pesada, mais carregada de sentimento do que ele pretendia.
— Nunca — repetiu.
Bela sentiu algo quebrar dentro dela.
Medo e alívio.
Dor e esperança.
Tudo ao mesmo tempo.
Mas antes que ela pudesse responder, o celular vibrou de novo.
Na tela:
Número privado.
Daniel.
Bela perdeu a cor.
Caio pegou o celular da mão dela antes que ela atendesse.
— Agora isso é comigo — ele disse.
E atendeu.
Sem aviso.
Sem hesitação.
Sem medo.
A voz dele mudou.
Ficou afiada, fria, calculada.
— A partir de agora, você fala comigo.
Silêncio do outro lado.
— Tente procurar a Bela mais uma vez — Caio continuou — e você vai descobrir o tipo de inimigo que nunca deveria ter arrumado.
E desligou.
Bela ficou sem ar.
Caio devolveu o celular.
E disse a frase que seria o marco do que viria pela frente:
— Eu não vou entregar você para ele. Nem agora. Nem nunca.
Ela fechou os olhos.
E percebeu o inevitável:
A última humilhação que Daniel prometia não chegaria até ela.
Porque Caio Bismarque acabava de entrar na guerra.
E ele não era um homem que perdia.