HELENA
A luz entrava pelas frestas da janela, recortando o quarto em faixas douradas. O espaço estava silencioso, com alguns brinquedos espalhados no chão, um urso de pelúcia largado ao lado da cama e um porta-retrato solitário repousando sobre a cômoda.
Eu estava sentada na beira da cama, segurando o retrato de Luan com as duas mãos, como se aquilo fosse o único elo que me mantinha de pé.
Faz cinco anos desde que você se foi…
Fecho os olhos por um instante, respiro fundo, tentando conter o peso que sempre ameaça me derrubar.
— São exatamente 1.825 dias sem você ao meu lado — murmuro, acariciando a moldura com o polegar.
O rosto dele ainda era tão vivo na minha memória que parecia que, se eu fechasse os olhos com força, poderia ouvi-lo me chamando de "minha preta" com aquele sorrisinho torto. Mas o vazio sempre falava mais alto.
— Eu queria... queria conseguir seguir em frente sem me sentir culpada pela tua morte. Mas, querendo ou não, é assim que eu me sinto.
Minha voz quebra no fim. A garganta aperta, mas eu não deixo a lágrima cair. Já chorei tanto por ele que às vezes acho que minhas lágrimas secaram.
— Mas o que é o luto... se não o amor que continua?
Olho novamente para o retrato. O olhar dele me atravessa. Me dói. Me conforta.
— Feliz aniversário, meu amor… — sussurro, beijando a moldura com delicadeza. — Eu sinto tanto, tanto a sua falta.
De repente, a porta se abre devagar. Uma vozinha infantil rompe o silêncio.
— Mamãe? — Miguel pergunta, a testa franzida, os pezinhos descalços fazendo barulho no chão de madeira.
Me viro imediatamente, escondendo o porta-retrato atrás do corpo e forçando um sorriso.
— Oi, meu amor… — chamo baixinho.
Ele corre até mim, me olhando com preocupação nos olhos escuros, tão parecidos com os do pai.
— Por que a senhora tá chorando? Eu fui um menino m*l?
Meus olhos se enchem, mas eu rapidamente enxugo com as costas da mão. Abro os braços.
— Claro que não, meu bem. Você nunca é m*l. Vem cá, senta aqui com a mamãe.
Miguel sobe na cama e se enrosca no meu colo. Eu o abraço apertado, como se quisesse protegê-lo de tudo, como se quisesse absorver nele a força que me falta.
— Você é meu bebê. Nunca se esqueça disso, tá? — sussurro, beijando sua cabeça com carinho. — Hoje é o aniversário do seu papai.
Ele levanta o rostinho curioso.
— Do meu papai? Aquele que tá lá no céu, né mamãe?
— Isso mesmo, meu amor. Seu papai virou um anjo da guarda. Ele fica lá em cima, bem pertinho das estrelas, olhando por você todos os dias.
Pego o porta-retrato de volta e mostro a ele.
— Olha aqui. Esse é seu papai, o Luan.
Miguel segura o quadro com cuidado, como se fosse frágil demais. Seus olhinhos analisam cada traço.
— Mamãe...? Eu pareço com ele?
— Você é a cara dele. O mesmo olhar... a mesma testa quando fica bravo. — rio baixinho, acariciando seu rosto. — Tenho certeza que, lá de cima, ele tá vendo a gente agora... e sorrindo.
Miguel apoia a cabeça no meu peito. O silêncio que se forma entre nós é pesado, mas doce. Um silêncio de saudade, de lembrança, de amor.
Alguns minutos depois, ouço uma batida apressada na porta da frente e a voz conhecida invadindo a casa.
— Helenaaaa! — Jas entra sem cerimônia, como sempre. — Cadê você, viúva dramática?
— Aqui no quarto, Jas… — respondo, ainda abraçada a Miguel.
Ela entra com as mãos na cintura e o olhar decidido.
— Helena, você precisa viver. Esquecer o Luan de uma vez por todas.
Baixo a cabeça. Aperto as mãos no colo.
— A gente não esquece um amor assim, Jas… — respondo, num tom sereno. — A gente só aprende a conviver com a falta que ele faz.
— Pois então aprende logo! Porque a vida não vai ficar te esperando, não! Hoje você vai sair comigo. Nem que eu precise te arrastar pelos cabelos.
Ela estende a mão. Eu encaro por um momento… e, pela primeira vez em muito tempo, sinto uma pontinha de vontade de dizer “sim”.
— Tá bom. Você venceu — murmuro. — Eu aceito sair com você.
Levanto devagar, pego o porta-retrato e beijo de novo.
— Não tem um único dia que eu não pense em você, meu amor… Mas hoje… hoje eu vou tentar respirar um pouco.
— Tá vendo? É disso que eu tô falando! — Jas se empolga. — Mas antes, vamos trocar essa roupa de enterro. Pelo amor de Deus, mulher!
— O que tem minha roupa?
— Helena… com carinho… você tá parecendo uma mendiga organizada. Vamos levantar esse astral!
Pego o travesseiro e jogo nela. Rimos. Pela primeira vez em semanas.
Horas depois, a noite desce sobre o morro com aquela brisa quente e as luzes tremeluzentes das janelas acesas. As vielas ganham vida. Música, conversa, crianças correndo descalças.
Eu e Jas caminhamos pelo beco, ela cheia de energia, eu um pouco tímida, mas com o coração menos pesado.
— Tá vendo? Nem parece aquela viúva cabisbaixa de antes! — Jas diz, animada.
— Você é um caso perdido — resmungo, tentando esconder o sorriso.
— E você é um caso que eu vou resolver. Vai se apaixonar, rir alto, dançar… tudo outra vez!
No meio da descida, esbarro com força em alguém. Um homem alto, de moletom preto, boné aba reta, olhar afiado. Algo metálico cai no chão.
Me abaixo num reflexo e pego o objeto: uma arma.
— Acho que deixou isso cair — digo, estendendo a arma pra ele, sem tremer.
— Presta atenção aí, mina! — ele rosna, impaciente.
— Fala direito comigo, estressadinho — rebato, sem medo.
Ele me encara, arqueando a sobrancelha.
— Fala direito tu, dondoca.
— i****a.
— Tá perdida?
— Tenho cara de quem tá perdida?
Dou um passo à frente. O encaro bem de perto.
— Eu sei muito bem onde tô. Você é que devia prestar atenção por onde anda.
Viro as costas e sigo. Sinto o olhar dele nas minhas costas.
— Gostei da dondoca… — ele murmura.
Mas eu escuto.
E, pela primeira vez em cinco anos, o frio na barriga volta.
Não era só o medo. Era algo diferente.
Era vida.