HELENA
O céu arde em tons de laranja e lilás, pincelado como se alguém tivesse derramado tinta aquarela sobre o fim de tarde. O Vidigal respirava naquele horário. Gente voltando do trabalho, crianças correndo nas vielas, vendedores ambulantes tentando faturar o último trocado do dia. Era a hora que a comunidade pulsava — e eu amava observar isso.
Caminho pela rua com uma sacola de pão numa mão e o Miguel, ou melhor, o meu Beni, saltitando ao meu lado com um brigadeiro na outra. O açúcar sujando a bochecha dele, os olhos brilhando como quem carrega o mundo inteiro na alma.
— Mamãe, olha! Eu fiz um aviãozinho com o guardanapo! — ele diz, erguendo o papel amassado no ar, como se aquilo fosse a maior invenção do planeta.
Sorrio, meu peito se aquece só de olhar.
— Você é muito criativo, meu amor. Mas cuidado pra não voar com ele na cabeça de alguém, hein? — brinco, ajeitando a sacola que ameaça cair do braço.
Dobro a esquina distraída, o pensamento vagando entre contas atrasadas e a esperança de uma entrevista dar certo, e é quando esbarro em alguém. O impacto me desequilibra, a sacola escorrega, os pães quase voam no ar. Tudo se resume a um segundo. Mãos firmes seguram o pano antes do desastre.
Levanto o olhar e dou de cara com ele de novo.
Camisa branca justa, tatuagens nos braços, um ar de provocação natural que parece colado nele desde o nascimento. O sorriso debochado estava lá, intacto.
— De novo, dondoca? — ele fala, com aquele tom entre o sarcasmo e o flerte. — Tá começando a virar perseguição…
Fico alguns segundos paralisada, reconhecendo a voz antes mesmo de assimilar o rosto. Meu coração bate forte, não sei se de raiva ou de alguma outra coisa que ainda não nomeei.
— É você de novo… — murmuro. — O Vidigal é pequeno demais ou você anda me seguindo?
Ele dá de ombros, os olhos rindo de mim.
— Se eu tivesse te seguindo, a gente já teria se esbarrado mais cedo. Sorte tua que eu não sou tão doido assim.
Miguel para de pular e olha pra nós, curioso. Seus olhos vão de mim para o homem com expressão atenta.
— Mamãe, é seu amigo?
Ele se agacha na altura do meu filho, suavizando completamente a expressão.
— E aí, campeão? Tudo certo?
Meu coração dá um pulo estranho. Ele parecia mesmo sincero com o Beni. Ajoelho, ajeito a sacola no chão, tentando esconder o redemoinho dentro de mim.
— Ele não é meu amigo, filho… A gente só se conhece de um esbarrão m*l-educado.
Kaique — agora eu sei o nome dele — ri, e aquele som vibra no peito da gente de um jeito que irrita, mas também prende.
— Que injusta! Agora vou ficar ofendido…
Miguel, que não perde uma, cruza os braços e franze a testa.
— Você falou palavrão com a minha mãe da outra vez?
Ele leva um susto, depois gargalha.
— Falei sim, parceiro… Mas juro que foi sem querer. Prometo que não falo mais.
Miguel o encara com cara de quem vai anotar no caderno e cobrar depois. Eu seguro o riso, mas escapa um sorriso de canto.
— Tá melhorando… Pelo menos sabe pedir desculpas.
Ele me encara de volta, olhos firmes e calorosos.
— Melhor que muita gente por aí. E você? Vai continuar fingindo que não ficou curiosa sobre mim?
Desvio o olhar, sem coragem de encarar o que meus olhos podiam dizer.
— Talvez… Mas não sou mulher de confiar em homem com arma na cintura.
Ele chega mais perto. A voz dele muda. Fica rouca, baixa, quase um sussurro que arrepia.
— E eu não sou homem de confiar em mulher que encara daquele jeito e depois vira as costas.
O silêncio pesa. Miguel, impaciente, puxa minha mão.
— Mamãe, vamo embora? Quero ver desenho…
Respiro fundo.
— A gente já vai, meu amor.
Pego a mãozinha dele e seguimos. Mas antes de virar a esquina, me viro.
— Você tem nome, ou vai continuar sendo só “o estressadinho”?
Ele sorri, como se estivesse esperando essa deixa o tempo todo.
— Kaique. Mas pode continuar me chamando assim se preferir…
Não respondo. Mas sorrio. E sigo. Ele ainda estava parado ali quando me virei a última vez.
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A noite desce como um cobertor grosso sobre o morro. As luzes tremem, os sons mudam. O samba vira funk. O riso vira sussurro. E o medo começa a dar as caras.
Apresso o passo, com um coque torto e a bolsa pendurada no ombro, rezando mentalmente.
“Que role essa vaga… por favor, Deus. Só quero dar uma vida melhor pro meu filho.”
Dobro a viela quando sinto. Os passos atrás. Não são imaginários. São reais. Me viro, assustada.
— Quem tá aí?!
Ele sai da sombra. Kaique. De novo.
— Calma, dona dondoca… Vai gritar por quê? Só eu.
Cruzo os braços, impaciente.
— Tá me seguindo, é isso? Achando que eu sou só mais uma das tuas?
Ele ergue as sobrancelhas.
— “Uma das minhas”? Nem sei o que isso quer dizer. Mas relaxa, Helena. Tô só passando. Coincidência… ou destino, sei lá.
— Destino não persegue, Kaique. Gente estranha sim.
Ele se aproxima, devagar.
— Se eu quisesse fazer algo contigo, já teria feito. Tô indo buscar comida pra minha avó. Bandido também tem vó, sabia?
— Aham. E eu sou a Lady Di.
Ele ri.
— Não sei o que tu tem cara… mas sei que cê não é fraca, não. Pode bancar a durona, mas tem fogo aí dentro.
Aquilo me desarma. Por dentro, tudo treme. Mas por fora, continuo firme.
— Eu sou forte porque preciso. Porque tenho um filho. E porque ninguém vai fazer por mim.
Ele me encara. Depois olha pro chão. O silêncio pesa.
— Você foi na entrevista, né?
Meus olhos se arregalam.
— Como você sabe?
— Jasmim é minha prima.
— Não…
— Sim. E ela me contou que cê tava triste, precisando de trabalho. Pediu pra eu ficar de olho.
— Aquela fofoqueira…
Ele dá uma risada gostosa.
— Ou talvez só ache que cê merece alguém que te proteja.
Pego essa frase e guardo no peito. Quase machuca de tão bonita.
— Boa noite, Kaique.
— Boa noite, Helena.
Entro em casa. Beni dorme no colchão, abraçado ao urso surrado. Sento do lado, aliso os cabelos dele. A cabeça ainda cheia, o coração inquieto.
E o nome dele ecoa.
Kaique.
Não era só mais um cara. Não parecia ser.
Mas posso confiar?
Deito e fecho os olhos. O rosto dele aparece no escuro, o sorriso entre o deboche e o cuidado.
E eu sei.
Esse homem vai virar minha vida de ponta-cabeça.