09

1141 Words
HELENA O céu arde em tons de laranja e lilás, pincelado como se alguém tivesse derramado tinta aquarela sobre o fim de tarde. O Vidigal respirava naquele horário. Gente voltando do trabalho, crianças correndo nas vielas, vendedores ambulantes tentando faturar o último trocado do dia. Era a hora que a comunidade pulsava — e eu amava observar isso. Caminho pela rua com uma sacola de pão numa mão e o Miguel, ou melhor, o meu Beni, saltitando ao meu lado com um brigadeiro na outra. O açúcar sujando a bochecha dele, os olhos brilhando como quem carrega o mundo inteiro na alma. — Mamãe, olha! Eu fiz um aviãozinho com o guardanapo! — ele diz, erguendo o papel amassado no ar, como se aquilo fosse a maior invenção do planeta. Sorrio, meu peito se aquece só de olhar. — Você é muito criativo, meu amor. Mas cuidado pra não voar com ele na cabeça de alguém, hein? — brinco, ajeitando a sacola que ameaça cair do braço. Dobro a esquina distraída, o pensamento vagando entre contas atrasadas e a esperança de uma entrevista dar certo, e é quando esbarro em alguém. O impacto me desequilibra, a sacola escorrega, os pães quase voam no ar. Tudo se resume a um segundo. Mãos firmes seguram o pano antes do desastre. Levanto o olhar e dou de cara com ele de novo. Camisa branca justa, tatuagens nos braços, um ar de provocação natural que parece colado nele desde o nascimento. O sorriso debochado estava lá, intacto. — De novo, dondoca? — ele fala, com aquele tom entre o sarcasmo e o flerte. — Tá começando a virar perseguição… Fico alguns segundos paralisada, reconhecendo a voz antes mesmo de assimilar o rosto. Meu coração bate forte, não sei se de raiva ou de alguma outra coisa que ainda não nomeei. — É você de novo… — murmuro. — O Vidigal é pequeno demais ou você anda me seguindo? Ele dá de ombros, os olhos rindo de mim. — Se eu tivesse te seguindo, a gente já teria se esbarrado mais cedo. Sorte tua que eu não sou tão doido assim. Miguel para de pular e olha pra nós, curioso. Seus olhos vão de mim para o homem com expressão atenta. — Mamãe, é seu amigo? Ele se agacha na altura do meu filho, suavizando completamente a expressão. — E aí, campeão? Tudo certo? Meu coração dá um pulo estranho. Ele parecia mesmo sincero com o Beni. Ajoelho, ajeito a sacola no chão, tentando esconder o redemoinho dentro de mim. — Ele não é meu amigo, filho… A gente só se conhece de um esbarrão m*l-educado. Kaique — agora eu sei o nome dele — ri, e aquele som vibra no peito da gente de um jeito que irrita, mas também prende. — Que injusta! Agora vou ficar ofendido… Miguel, que não perde uma, cruza os braços e franze a testa. — Você falou palavrão com a minha mãe da outra vez? Ele leva um susto, depois gargalha. — Falei sim, parceiro… Mas juro que foi sem querer. Prometo que não falo mais. Miguel o encara com cara de quem vai anotar no caderno e cobrar depois. Eu seguro o riso, mas escapa um sorriso de canto. — Tá melhorando… Pelo menos sabe pedir desculpas. Ele me encara de volta, olhos firmes e calorosos. — Melhor que muita gente por aí. E você? Vai continuar fingindo que não ficou curiosa sobre mim? Desvio o olhar, sem coragem de encarar o que meus olhos podiam dizer. — Talvez… Mas não sou mulher de confiar em homem com arma na cintura. Ele chega mais perto. A voz dele muda. Fica rouca, baixa, quase um sussurro que arrepia. — E eu não sou homem de confiar em mulher que encara daquele jeito e depois vira as costas. O silêncio pesa. Miguel, impaciente, puxa minha mão. — Mamãe, vamo embora? Quero ver desenho… Respiro fundo. — A gente já vai, meu amor. Pego a mãozinha dele e seguimos. Mas antes de virar a esquina, me viro. — Você tem nome, ou vai continuar sendo só “o estressadinho”? Ele sorri, como se estivesse esperando essa deixa o tempo todo. — Kaique. Mas pode continuar me chamando assim se preferir… Não respondo. Mas sorrio. E sigo. Ele ainda estava parado ali quando me virei a última vez. --- A noite desce como um cobertor grosso sobre o morro. As luzes tremem, os sons mudam. O samba vira funk. O riso vira sussurro. E o medo começa a dar as caras. Apresso o passo, com um coque torto e a bolsa pendurada no ombro, rezando mentalmente. “Que role essa vaga… por favor, Deus. Só quero dar uma vida melhor pro meu filho.” Dobro a viela quando sinto. Os passos atrás. Não são imaginários. São reais. Me viro, assustada. — Quem tá aí?! Ele sai da sombra. Kaique. De novo. — Calma, dona dondoca… Vai gritar por quê? Só eu. Cruzo os braços, impaciente. — Tá me seguindo, é isso? Achando que eu sou só mais uma das tuas? Ele ergue as sobrancelhas. — “Uma das minhas”? Nem sei o que isso quer dizer. Mas relaxa, Helena. Tô só passando. Coincidência… ou destino, sei lá. — Destino não persegue, Kaique. Gente estranha sim. Ele se aproxima, devagar. — Se eu quisesse fazer algo contigo, já teria feito. Tô indo buscar comida pra minha avó. Bandido também tem vó, sabia? — Aham. E eu sou a Lady Di. Ele ri. — Não sei o que tu tem cara… mas sei que cê não é fraca, não. Pode bancar a durona, mas tem fogo aí dentro. Aquilo me desarma. Por dentro, tudo treme. Mas por fora, continuo firme. — Eu sou forte porque preciso. Porque tenho um filho. E porque ninguém vai fazer por mim. Ele me encara. Depois olha pro chão. O silêncio pesa. — Você foi na entrevista, né? Meus olhos se arregalam. — Como você sabe? — Jasmim é minha prima. — Não… — Sim. E ela me contou que cê tava triste, precisando de trabalho. Pediu pra eu ficar de olho. — Aquela fofoqueira… Ele dá uma risada gostosa. — Ou talvez só ache que cê merece alguém que te proteja. Pego essa frase e guardo no peito. Quase machuca de tão bonita. — Boa noite, Kaique. — Boa noite, Helena. Entro em casa. Beni dorme no colchão, abraçado ao urso surrado. Sento do lado, aliso os cabelos dele. A cabeça ainda cheia, o coração inquieto. E o nome dele ecoa. Kaique. Não era só mais um cara. Não parecia ser. Mas posso confiar? Deito e fecho os olhos. O rosto dele aparece no escuro, o sorriso entre o deboche e o cuidado. E eu sei. Esse homem vai virar minha vida de ponta-cabeça.
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