CAPÍTULO I – AO ENCONTRO DA CRIANÇA INTERIOR. A DONZELA.-2

2186 Words
A Ártemis também é uma mulher muito bonita e elegante. Usa cabelo de comprimento curto, abaixo das orelhas, mas com volume e revolto, o que lhe dá um certo ar selvagem. Tem cinquenta e cinco anos, sorriso franco e aberto. Divorciada e com uma filha. Muito comunicativa e faladora. Considera-se mesmo um pouco tagarela, diz, a rir. Tirou o curso superior de fotografia, sempre esteve ligada às artes. Foi fotógrafa, mas teve uma doença grave, que a levou a mudar o rumo da sua vida e hoje está ligada às medicinas alternativas. Tem o curso de aromaterapia e fez mais formações na área. Vive em Vila Nova de Gaia e é terapeuta. Veste uma camisola de gola alta azul-bebé e um pequeno xaile de lã azul-marinho sobre as costas. Usa colar e brincos de bijutaria cara. Está também sentada à mesa da sala, onde se vê um lindo aparador com 16velas em cima. A sala tem paredes cinza muito claro e um ar elegante e moderno. Do teto, pende um vaso com flores. A Perséfone é a mais nova do grupo. Tem vinte e oito anos e está sentada no quarto, em frente a uma secretária com uma grande estante cheia de livros, por trás. Camisola branca de gola alta e cachecol sobre o pescoço. Magra. É formada em Ciências da Comunicação, e está a tirar um segundo curso, Psicologia. Muito simpática e empática. Vive em Felgueiras. Quer aprender com a sua experiência pessoal, mas também com a dos outros. Por último, as duas amigas que surgem juntas no ecrã. Estão sentadas lado a lado, a partilhar o pc, e não se percebe onde se encontram. Vê-se apenas uma parede branca. Estão as duas de kispo, coladas uma à outra, quase parece que estão a dividir o mesmo assento. A que se encontra à esquerda chama-se Atena e embarcou nesta viagem à última da hora. Está muito entusiasmada, empolgada mesmo. Para ela, esta aventura faz todo o sentido. Nunca teve jeito para as artes, desenho, o que seja. Na escola, nas aulas de desenho, como demorava muito tempo e não tinha jeito nenhum para a coisa, chegava mesmo a exasperar os professores ao ponto deles lhe dizerem para deixar estar, e acabarem os trabalhos por ela. Para ela, fazer um xaile é, assim, um enorme desafio. (Revejo-me completamente nesta situação). Psicóloga, tem trinta e oito anos, mas aparenta ter menos dez. É muito mais ligada ao lado racional e à leitura do que às artes. Olhos grandes e expressivos, fala com um sotaque meio açucarado que não consigo identificar de onde vem. Divorciada, tem um filho de doze anos. Cabelo comprido, liso, castanho, usa óculos sobre uma cara redonda. Simpática, comunicativa, de sorriso fácil, vive em Espinho. Por último, do lado direito, a Trebaruna. É amiga da Atena e embarcaram juntas nesta viagem. Vive em Espinho. É a mais observadora, reservada e pouco faladora. Estava mais a ouvir e, sinceramente, passa de tal forma despercebida, que não me lembro de quase nada da sua apresentação, apenas que tem trinta e cinco anos e tem cabelo preto, comprido. E eu? Como será que as outras me viram? Estou sentada à secretária do escritório da minha casa, com uma estante cheia de livros por trás. Uns cortinados brancos com um reposteiro verde-escuro que compõem o enquadramento que surge no monitor do computador. Visto uma camisola de lã cinza mesclada, de gola alta. Estou de óculos, pois preciso deles para ler. Tenho cabelo castanho, ondulado e comprido. Demasiado comprido, há um ano que não vou ao cabeleireiro por causa da pandemia. Estou com ele apanhado num r**o-de-cavalo. Chamo-me Psiquê e tenho cinquenta e três anos. Nasci em Lisboa, mas vivo em Vila Nova de Gaia, por razões familiares, desde os doze anos. Sou casada e não tenho filhos. Sou professora de Economia, mas, por opção, sem exercer há uns cinco anos. Antes da pandemia dava explicações, não por necessidade, mas por vocação e prazer. Adoro ensinar. Adoro aprender. Tenho sede de conhecimento. Estou sempre à procura de respostas. Sou uma mente inquieta e curiosa. A minha vocação é ensinar, estimular o crescimento intelectual e emocional dos jovens. Fazê-los sonhar, alargar os seus horizontes, dar-lhes ferramentas para crescerem e voarem sozinhos. É assim que me realizo, é isso que eu verdadeiramente sou. Tive uma vida cheia de desafios, marcada por obstáculos que tive de aprender a ultrapassar. Vários nós envencilharam o novelo da minha vida e nem sempre as minhas agulhas se mostraram à altura. As exigências e circunstâncias da vida conduziram-me a um caminho de transformação interior e crescimento pessoal. Mas esse é um processo contínuo, um trabalho inacabado, esse é um projeto sempre em andamento. Ainda continuo a aprender, continuo a crescer, a tentar melhorar como ser humano e a expandir o meu nível de consciência. Adoro conviver. Sou capaz de estar horas a conversar. Preciso dos outros para me sentir bem. O contacto humano para mim é essencial. Gosto essencialmente de pessoas. Adoro o contacto físico, preciso do toque. Preciso do beijo, do abraço e do mimo. Preciso e dou mimo. Sou de afetos. Também preciso de estar sozinha. Tenho os meus momentos de recolhimento, de solidão. Adoro ler. Adoro estar à lareira num dia frio. Gosto de escrever. Adoro animais. O que mais adoro é o sol. O mar. A praia. Preciso do sol. Preciso do mar. Ler um bom livro junto à lareira a ouvir o som do mar é pura magia. Concluídas as apresentações, a reunião prosseguiu com uma meditação. Uma meditação guiada, que nos levou ao encontro da nossa criança interior. Cada uma de nós transporta consigo a criança que um dia foi. Carregamos as suas memórias, as suas angústias, os seus medos, os seus desafios e as suas vivências. Carregamos as emoções que essa criança viveu. Transportamos as feridas que sentiu. As dores, as frustrações, as mágoas. Essa criança vive dentro de cada uma de nós. Visualizei-me com seis anos. Estava um dia lindo de sol, e eu brincava no jardim da casa dos meus tios. Vejo-me ao longe e ouço as gargalhadas daquela criança. Sinto-me tão bem! Sou como o sol. Quente. Cheia de vida. Completa. Inteira. Olhei fundo para os olhos daquela criança. Uma criança com uns expressivos olhos grandes. Uns olhos do tamanho do mundo. Senti um profundo amor e carinho por aquela criança. Ouvi as gargalhadas daquela criança. Senti a felicidade daquela criança. Saltava de cima de um muro interior existente no jardim. Aterrava no chão, corria e subia de novo as escadas de acesso ao patamar superior e tornava a saltar. Estava feliz. Vestia calças de ganga, uma camisola leve e calçava sapatilhas. O patamar de acesso era ladeado por pereiras. Ah! Como eu adorava peras! Era a minha fruta preferida. Continuei a visualizar a criança que brincava sozinha, mas isso não a impedia de estar feliz. Para uma criança o estar sozinha, não é impedimento de brincadeira. O estar sozinha não era sinónimo de solidão. Solidão? Eu nem sequer sabia o que isso significava. Tal como tantos outros sentimentos e emoções me eram, à época, totalmente desconhecidos. A inocência de uma criança é algo verdadeiramente comovente. Estava verdadeiramente feliz. De repente, o telefone. O som do telefone a tocar irrompe como uma faca sobre aquela calma manhã de sol. É o meu Apolo. De certeza que é ele. Também lhe quero falar. Quero dar-lhe um beijinho, perguntar quando chega, já estou cheia de saudades! Toda feliz, corro apressadamente para casa. Tenho tanta coisa para lhe contar! “Não”, apeteceu-me gritar-lhe! Não corras para casa! Não vás! Apeteceu-me parar o tempo, congelar o momento. Não vás! Era o momento, aquele momento! Todos nós podemos identificar momentos claramente divisórios nas nossas vidas. Há um antes e um depois desses momentos. Mas, mais uma vez, tal qual como na vida real, o telefone tocou e eu corri para Casa. Vozes alteradas. A paz e a calma acabam. Não imaginava que nunca mais na minha vida me iria sentir assim tão confiante, completa e feliz. Aos poucos, vou-me agora aproximando da criança. Ela vira-se para mim e vejo-a. Olhei profundamente para os seus olhos. Tem agora uns olhos tristes. Os seus olhos espelham uma dor profunda. Uma dor tão grande que o seu pequeno corpo não consegue suportar. Toda ela é dor. Toda ela é angústia. Toda ela é medo. Está perdida, atordoada. O que aconteceu? O que isto quer dizer? Senti uma profunda pena e empatia por aquela criança. O que é eu quero dizer a esta criança? O que tenho para lhe dizer? Que eu a percebo. Que eu sei o que sente. Então falo com ela: —Tu pensas que ninguém te compreende, que ninguém imagina a dor que sentes. Tu pensas que não és capaz de suportar a dor que sentes. Mas eu estou aqui para te dizer que és capaz. Para te dizer que vais ultrapassar essa dor. Confia em mim. Eu sou o teu futuro. Vês-me? Conseguiste! Não precisas de ter medo da vida. Ela vai ser difícil, não te vou enganar. Mas a dor vai atenuar. A dor que sentes vai-te acompanhar para sempre, mas tu vais aprender a viver com ela. Vês-me? Não precisas de ter medo da morte. Tu não vais morrer. A morte faz parte da vida sim, mas não te pode impedir de viver. O medo da morte provoca uma dor profunda, mas olha, o medo da vida provoca uma dor igualmente paralisante. Olha para mim. Eu sou tu. - Estiquei os braços e dei-lhe as minhas mãos. Ficámos assim, olhos nos olhos, de mãos dadas, num silêncio cúmplice. Não me contive e abracei-a. Envolvi-a no abraço mais profundo que alguma vez dei na vida. Senti toda a sua fragilidade. Toda a sua dor. Sentei-me. Sentei-a no meu colo e assim ficámos abraçadas, num profundo silêncio. Depois, lentamente, aquela criança e o seu pequeno corpo começaram a encolher, diminuindo lentamente de tamanho. A criança foi ficando cada vez mais pequena, mais pequena, tão pequena que cabia na palma da minha mão. Senti uma profunda empatia e ternura por aquele minúsculo ser. Segurei-a com carinho, levei a sua mão com muito cuidado ao meu peito e acolhi-a no meu coração. Acolhi-a dentro de mim. Agora mora no meu coração e vai acompanhar-me nesta jornada. A minha criança mora no meu peito. Está protegida, acolhida, segura. Vai ser nutrida e acarinhada por mim. Está em paz. Quando regressei a mim, ao aqui e agora, a este espaço de tempo, estava emocionada, mas em paz. Feliz pelo encontro que tinha acabado de acontecer. Olhei para as minhas companheiras, vi a emoção espelhada na cara de cada uma delas e soube que cada uma tinha experienciado um momento igualmente profundo. E, tal como eu, cada uma acolheu no seu coração a sua criança interior. Um silêncio profundo pairava no ar. A reunião acabou. Imaginei-me a nascer. Cada uma destas mulheres reencontrou hoje a sua criança interior. Cada uma de nós está agora a lidar com as memórias e emoções desse encontro. No meu caso, hoje fui dormir em paz, ao som de Lullaby, de Mozart, música que a Hécate enviou para o nosso grupo no w******p. Ao fim da noite, a Hathor enviou uma mensagem: —Estou m*l! A minha criança interior colapsou! Há dias que terminam da pior forma, mas amanhã é um novo dia. Hoje vieram as sombras, mas a luz está sempre aqui. Obrigada a todas as irmãs. —E nós também- respondeu a Atena. -Não te esqueças disso. 17 de janeiro de 2021 Ainda não pratiquei nada, nem podia, estou ainda à espera da lã e das agulhas que encomendei. Mesmo assim, vi os vídeos e pareceu-me muito difícil. No que eu me meti! Para quem nunca pegou numa agulha parece uma tarefa hercúlea! Somente o facto de eu achar muitíssimo interessante a conceção intelectual que está associada à confeção do xaile me leva a prosseguir nesta viagem. O xaile é constituído por noventa quadrados. Cada quadrado é formado por uma roseta e por algo a quem como eu que não percebe nada do assunto poderá chamar uma borda que envolve a roseta, de modo a formar um quadrado. Essa borda é composta por duas partes. A roseta começa com um círculo de lã que fica aberto e, ao redor do círculo, vão-se formando pétalas. Oito pétalas para cada roseta. A roseta propriamente dita será como a larva, a primeira parte da borda, a crisálida, e a segunda parte, a borboleta. Assim, cada quadrado é constituído por três partes. No final, teremos de reunir os noventa quadrados, cosendo-os de forma a constituírem-se num corpo único sob a forma de um xaile. Pelo que, no fim, teremos não uma manta de retalhos, mas um xaile de rosetas. Um espelho da nossa vida. Vamos construir as rosetas, tal qual como as memórias, vivências e emoções que construímos na nossa alma. No final, teremos de reunir as rosetas num corpo único que será o xaile, tal como, integraremos, as nossas vivências no corpo que somos nós.
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