CAPÍTULO I – AO ENCONTRO DA CRIANÇA INTERIOR. A DONZELA.-3

2604 Words
Eu não pus as mãos à obra, mas algumas das minhas companheiras não só já viram os vídeos, como já começaram a tentar fazer a sua primeira roseta. A primeira a intervir hoje na reunião foi a Bandonga: —Eu já comecei a tentar fazer a primeira roseta, mas não está fácil. Vocês vão-se rir, mas a minha grande dificuldade é que a linha fica presa e não consegue passar. Fica presa e assim eu não consigo fazer mais! Não consigo andar mais para frente e avançar fico presa no mesmo sítio… —Quantas vezes queremos andar para a frente e sentimo-nos presas? Quantas vezes não conseguimos avançar? - perguntou a Hécate. -Quantas vezes ficamos paradas no mesmo sítio? O segredo para a linha passar é não apertar muito o ponto. Se não se apertar o ponto, a linha corre melhor e não fica presa, flui melhor. Tal qual como na vida, se não formos muito rígidos e inflexíveis, a vida flui melhor. —Se deres laçadas maiores, a linha passa sem dificuldade.- disse a Hathor. -Tenta fazer de uma forma mais easy going, faz com calma, vais ver que resulta. —Já para o mim o problema é que não sei onde pôr aquele fio do início que fica solto. O que é que eu faço àquela ponta de fio do início que fica pendurada?- perguntou a Ártemis, entre um enorme sorriso. -Não sei o que fazer com ela. —Essa ponta fica integrada na roseta. Numa primeira fase, fica assim caída de fora, mas, à medida que se faz a roda da roseta, vai-se integrando a ponta na própria roseta.- explicou a Hécate. —Eu já vi os vídeos e para quem nunca fez nada do género pareceu-me muito difícil. Acho mesmo dificílimo! Pelo que pensei se há algum problema de, em vez de fazer rosetas, fazer simplesmente quadrados, tudo a direito. Acredite, Hécate, que mesmo isso é um desafio enorme para mim. Não tenho nenhuma destreza de mãos.- disse eu, a rir. —Psiquê, quem consegue tirar um curso superior, consegue fazer uma roseta. Tudo depende do empenho e da vontade. Claro que pode ser mais difícil para ti, mas não é impossível. Pratica e sê mestre, já diz a sabedoria popular. Ninguém espera que vocês se transformem em verdadeiras tecelãs, mas apenas em tecelãs da vossa própria vida.- respondeu calmamente a Hécate, com a sua doce voz. —Eu já comecei a fazer e estou-me a divertir imenso. Vou por tentativa e erro.- disse a Perséfone. -Já tentei de muitas formas. De início, fiz elos gigantes- riu-se. -Desfiz tudo e tentei de novo. Começo a ter insights de padrões. —Para mim não tem sido nada fácil estes tempos de pandemia e este lado criativo parece que me está a ajudar a lidar melhor com ela. Estou tão concentrada no que estou a fazer que a minha mente esvazia. Não penso em nada.- disse a minha homónima. —Para ti está a funcionar como uma terapia. Isso é muito bom, Trebaruna.- Observou a Hécate. -Só não te esqueças que o objetivo é curar as tuas feridas, pelo que tens de visitar as tuas memórias, visitar o teu interior. Mantém o foco. —A partir de quando é que posso começar a fazer rosetas diferentes é a pergunta que me ocorre- disse, com uma sonora gargalhada, a simpática Ártemis. -É que fazer noventa rosetas todas iguais é uma monotonia- nova gargalhada. —Está descansada- respondeu, também a rir, a Hécate. -No início, têm de ser todas iguais, somos todas bebés a aprender algo novo, depois, quando entrarmos em modo de piloto automático, vocês são livres de darem asas à vossa criatividade. Já terão as ferramentas para voarem sozinhas e escolherem o vosso caminho. Tanto podem continuar a fazer iguais, como inventarem o que quiserem. A única regra é que, no fim, terá de ser um xaile. —O meu problema é que nunca chego à fase de piloto automático, tenho sempre vontade de aprender coisas novas, estou sempre a explorar, a iniciar. Depois, quando consigo fazer, parto para outra- respondeu, a rir. -E as rosetas têm de ser todas quadradas? Não podem ser redondas? —Têm de ser quadradas. Pelo menos a forma do xaile tem de ser igual, já, digamos, o seu “conteúdo” é que pode ser diferente Pois a nossa forma é a mesma, somos todas mulheres. Seguiu-se a Atena que estava com um semblante carregado. —Eu já tive vontade de desistir e fugir. Não é nada fácil este processo. Quis desistir porque não consigo fazer! Vi os vídeos, estive horas a tentar e não consigo- escorrem umas lágrimas pela face. -Parece que só está a reforçar a ideia que tenho sobre mim mesma, é como uma validação que não tenho jeito nenhum para os trabalhos manuais. Às vezes, apetece-me que surja a professora para me livrar deste aperto e fazer por mim. Só não desisti graças ao apoio da Trebaruna e ao espírito de grupo. Pensei que vos estava a trair, a abandonar o barco. —Isso não vai acontecer, minha querida- respondeu Hécate. -E eu tenho a certeza de que tu vais fazer as rosetas. Tudo bem, podes ter mais dificuldade, tu, tal como a Psiquê, não têm tanta apetência para estas coisas. Mas não são incapazes! Quando nós queremos muito, conseguimos fazer tudo. Eu não estou a pedir nada impossível. Com a tua persistência e com o nosso apoio, acredita em mim, tu vais fazer as rosetas. —Não tenho nada a dizer. Não sinto nada- disse a Afrodite, com um ar ausente, passando a mão pelos seus lindos cabelos ruivos. -Não sei se consigo fazer até abril… já se for até dezembro, talvez. Só sei que estou farta de estar fechada em casa, aborrece-me imenso, preciso de ar puro. Ninguém disse nada, mas estou certa de que todas percebemos a nostalgia da Afrodite, todas nós comungamos do mesmo sentimento. Ficou um silêncio no ar que só foi cortado com a intervenção da simpática Ísis. —Eu acho que está aqui formado um grupo de mulheres fantástico. Acredito mesmo que vai nascer daqui algo de muito especial. Está aqui um grupo com mulheres muito diferentes, mas já noto que se criou uma grande empatia. Chego a estar emocionada. Eu ainda não tenho agulhas e lã, encomendei online e ainda não recebi. Por isso, quanto à questão prática, não me posso pronunciar, para já. —Eu não tenho muito para dizer. Apenas quero dizer que já gosto muito de todas vocês- disse a Brigitte, com um ar doce e olhos brilhantes. —E tu, Hera, não dizes nada? Estás tão caladinha- perguntou a Hécate. —Pelo que estou a ouvir, o meu caso é diferente, pois eu sei fazer crochet, tricot, costura, tudo. Também tenho muitas linhas e lãs, de todas as cores e tamanhos, uma quantidade enorme. Não sei é qual escolher. Tenho tantas que fica difícil a escolha, fico indecisa. Foi por isso que ainda não comecei. Mas este ponto específico nunca fiz, vamos ver quando começar como corre. —Pois, a ti não te falta cordão, não é? Se calhar falta-te é começares a desfazer esses novelos todos que tens, falta-te começar a cortar o cordão e a usares a lã. De que serve teres tanto cordão se não o usares? Toca a crescer, a explorar novas formas de fazer, só tens de desfazer o cordão e aventurar-te noutros pontos, noutras formas de fazer- respondeu, piscando-lhe o olho. A intervenção final coube à Hathor. —Em verdadeira revolução é assim que eu me sinto. Tenho estado em comunicação com a minha criança interior, desde a primeira reunião, o que me tem causado noites m*l dormidas. Mas estou bem. Digo-lhe: “Olá, Hathor, como estás?”. “Eu estou aqui”. E é incrível, pois consegui estabelecer contacto com ela, sinto que encurtei a distância. Está muito próxima. A Hécate retomou, então, a condução da reunião. —Coloquem-se à prova. Vocês estão a aprender a serem felizes, e, às vezes, ser feliz não é fácil. Ser feliz dá trabalho. No início, é natural que as rosetas fiquem m*l feitas. Fiquem imperfeitas. Pois estão a dar os vossos primeiros passos. Estão-se a aventurar a andar pela primeira vez. Estão a aprender a ser curandeiras. Tal como uma criança começa a erguer-se com dificuldade, também vocês vão sentir dificuldades para começar. Mas depois passa a cambalear, evolui para andar de mão-dada, até finalmente andar sozinha. Mas, pelo caminho, caiu e levantou-se várias vezes, faz parte do processo. Vocês também estão a aprender, estão num processo. Muito importante quando se sentarem para fazerem as rosetas, concentrem-se, respirem fundo e, de preferência, façam uma meditação antes. Pode ser a meditação da criança interior que fizemos da outra vez, não sei se já todas viram, mas eu mandei-vos a meditação para o nosso grupo do w******p. Depois, enquanto estão a fazer, não se esqueçam de conversarem com a vossa criança interior. Perguntem-lhe: “o que se passa? O que é que tu tens? Como te sentes?” E respondam-lhe: “Eu sei que te sentes triste, incompreendida. Eu sei que os outros meninos não brincam contigo. Eu sei que não gostas de ir para a escola. Eu sei que sentes que não és capaz. Eu sei que não estás bem porque eu não estou bem. Eu sei que não estás bem porque as tuas dores são as minhas dores.” Mas não se foquem somente na dor e no negativo. Revisitem também as boas memórias, as vossas pérolas, as vossas conquistas. Façam rosetas representativas das vossas pérolas. Esta roseta é: eu aprendi a andar. Outra: eu aprendi a falar, ou, por exemplo, eu agora já sei comer sozinha, eu já me visto sozinha, eu aprendi a ler, eu aprendi a andar de bicicleta, eu tive a boneca que tanto queria, eu fiz amigos na escola, eu não tenho medo de dormir sozinha no quarto, etc. Nós não temos só mágoas e dores dentro de nós. Temos também muitas conquistas, só que não lhes damos a mesma relevância que damos às feridas. Pois está na hora de mudar isso. As rosetas não representam somente as nossas dores, mas também as nossas conquistas e elas são muitas! Tenham também à mão caderno e caneta, para irem anotando as vossas memórias, pensamentos, emoções. As vossas feridas e as vossas conquistas. Será o diário da vossa viagem interior. E, muito importante, vão ao baú buscar uma fotografia vossa de infância. Uma foto vossa até para aí aos três anos. Levem a fotografia para a mesinha de cabeceira e olhem para ela de manhã, ao acordar, e também antes de deitar. A foto vai-vos acompanhar nesta viagem, não se esqueçam de olhar para ela. Eu vou-vos mandar um link para o Google Drive, lá irei colocando conteúdos adequados a cada etapa. Para iniciar, coloquei o livro do Principezinho. Se calhar, a maioria de vocês já o leu. Mas releiam-no agora. Também criei um ficheiro em branco, onde cada uma pode ir colocando o que quiser, um poema, um conto, uma imagem, um pensamento, uma música, o que for. No final, teremos um registo da nossa jornada, feito com o contributo de todas. Vamos criar um manual do nosso grupo, deste grupo de mulheres. Fiquei encantada com a ideia e pareceu-me que as minhas companheiras também. —Agora, minhas queridas, é meter mãos à obra e começar a sério o trabalho- continuou. -Para o próximo encontro, cada uma deve ter já feitas, pelo menos, duas ou três rosetas. Quando a reunião terminou, fiquei triste, desanimada. Encomendei as agulhas, as lãs, todo o material necessário para iniciar, mas ainda não chegou. Estou à espera. Estive dias online a escolher os materiais. Visitei vários sites, comparei preços, lãs, tudo! Perdi imenso tempo. Agora não tenho o material porque demora a chegar. Não posso dizer que não o sabia, porque está dentro do prazo de entrega indicado. Na altura que encomendei, pensei “Não faz m*l, começo mais tarde, começo para a semana que vem. Espero pelo material. Quero fazer tudo bem. Tudo perfeito. Com o melhor material possível. Depois recupero o tempo perdido.” Mas não. Não. A partilha simultânea não posso recuperar. Dei-me conta que é sempre isto que eu faço na minha vida. Quero sempre tudo perfeito. Idealizo. Sonho. Projeto. Escolho as melhores opções. Sou perfeccionista. Quero sempre o melhor. E depois, se não tenho o que idealizei, adio. Se as coisas não são exatamente como sonhei, perfeitas, adio. Não faço nada. Fico à espera de o ter. Só que, muitas vezes, o perfeito nunca chega e, assim, nunca o faço. Isto aplica-se a muitas coisas na minha vida. Sempre quis escrever um livro. Mas nunca o fiz. Sempre o adiei. Estava sempre a arranjar desculpas. Ou ainda não tinha a história perfeita, ou não era a hora certa, ou não sei escrever bem e o livro não ia ser perfeito. Estou sempre a arranjar desculpas, pretextos, para adiar. A perfeição não existe. Se estiver à espera dela, nunca o farei. Não tem de ser perfeito, só tem de ser verdadeiro, vir de dentro do coração. Agora é o momento, agora é a hora. Não se pode deixar passar o momento. Tenho de o fazer com as ferramentas que tenho e o melhor que souber. Não é perfeito? Não é bom? Não faz m*l. É o que é. Mais vale existir do que não existir, mesmo que com imperfeições. Se estiver à espera do momento certo, do material certo, das agulhas perfeitas, nunca será o momento certo, nunca passará do mundo das ideias para a materialização física. Dei-me conta que sou perfeccionista e muito exigente com tudo. Mas principalmente comigo mesma. E tenho medo de falhar. Tenho de me permitir falhar. Ousar errar. Ousar não ser a melhor. Ousar não ser perfeita. Não posso dizer que só agora me dei conta deste aspeto da minha personalidade. Há muitos anos que ganhei essa consciência e pensava mesmo que estava ultrapassado. O que eu ainda não me tinha apercebido é que isso se aplicava aos mais pequenos aspetos da minha vida, às mais pequenas coisas, como fazer um xaile! Apesar de ter essa consciência, sempre o atirei para a feitura de grandes projetos, como o de escrever um livro, por exemplo. Mas agora percebo que esse é o meu modo de funcionar sempre. Se não está tudo perfeito, se não está tudo como imagino, como sonho que vai ser, não faço, adio. Adio até estar. E nunca chega o dia em que está. Mas o que importa verdadeiramente é começar. O importante é caminhar. Não parar. Estar em movimento. Na vida, nada é perfeito. Muito raramente a vida corresponde exatamente ao que idealizamos, ao que sonhamos. Mesmo assim, temos de avançar e fazer o melhor que podemos e sabemos, com o material e as ferramentas que temos. Com a nossa verdade. Vou ultrapassar este meu defeito, este será o meu primeiro desafio. Assim, resolvi pedir emprestado à minha mãe, agulhas e lã e começar a fazer o meu xaile. Vou deitar mãos à obra com as ferramentas da minha mãe. Com as suas agulhas e linhas. E faz todo o sentido! Não foi assim que eu iniciei a minha vida? Dependente da minha mãe, dependente da sua lã, dependente das suas ferramentas? Por isso, faz todo o sentido para mim iniciar o meu xaile, não da forma que eu idealizei, mas com as agulhas e lãs herdadas da minha mãe, depois continuarei com as minhas ferramentas.
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