Fui buscar uma fotografia minha de infância e, na verdade, não foi difícil escolher qual a que me vai acompanhar nesta jornada. Aliás, só tive de ir buscar o passpourt ao escritório e levá-lo para o quarto, pois ele já está exposto na estante. Adoro aquela foto. Na verdade, adoro todas as minhas fotografias de infância. Olhei para a foto e vi uma criança linda, alegre e feliz. Extremamente feliz. De facto, em todas as minhas fotos de infância eu estou sempre a rir! Sempre! Tenho uns olhos grandes, muito expressivos, e sempre um grande sorriso na cara. E um ar confiante de quem adora a vida.
18 de janeiro de 2021
Tive um sonho a noite passada. Não me recordo de quase nada, afloram-me à mente apenas imagens difusas. Sou pequena, criança e vejo um vulto que segue ao meu lado. Sigo de mão dada com o vulto. De repente, a imagem do vulto vai-se dissipando e eis que reconheço a minha mãe. Seguimos de mão dada. Estou feliz. A rir. Vou dando saltinhos e sinto a felicidade daquela criança. Aos poucos, aquela imagem vai-se desvanecendo e os passos da criança tornam-se curtos, apressados, mais tensos. Parece que lhe custa a andar. A mãe também segue agora mais devagar com um passo mais lento. Custa-lhes caminhar. Estão a caminhar em esforço. Sinto-lhes o cansaço. Sinto-lhes o esforço. E eis que vejo o caminho, surge-me à mente a imagem da estrada que percorrem. É uma enorme estrada íngreme, tão íngreme que têm dificuldade em manterem-se no chão direitas e não caírem. Cada vez a longa estrada que vejo se torna mais íngreme e não lhe vejo o fim. Só uma enorme estrada de asfalto com uma inclinação tão forte, tão forte, que têm dificuldade em caminhar e seguirem de pé. E não vislumbro o final do caminho.
19 de janeiro de 2021
Comecei hoje a fazer o meu xaile. Peguei nas lãs e nas agulhas da minha mãe e sentei-me a ver, mais uma vez, o vídeo explicativo. Já vi e revi o vídeo inúmeras vezes! Continua a parecer-me dificílimo. Mas vou fazer, pelo que aqui estou eu sentada, com novelos de lã à minha volta e de agulha na mão. Meu Deus, como é estranho! Não sei porquê, sinto-me desconfortável. Mesmo muito desconfortável. Não consigo fazer nada, nada mesmo, nem sequer sei como pegar na agulha, quanto mais conseguir agarrar a lã! Chamo o Eros para me ajudar, não é incrível? Foi ele que me ensinou como pegar na agulha, que me explicou como passar e agarrar a lã. Não que ele alguma vez o tivesse feito, mas viu-me tão atrapalhada que ele mesmo viu o vídeo e começou a fazer. E conseguiu! Eu não. Sinto-me mesmo uma nulidade. Sinto-me burra. É uma sensação que nunca tinha experimentado, mas, na verdade, sinto-me mesmo burra! Incapaz! No que eu me fui meter, em vez de ultrapassar o meu padrão no que respeita a artes manuais, estou simplesmente a validá-lo! É merecido, Psiquê, pela tua arrogância que consegues fazer tudo a que te propões. Merecido! Porque não aceitas simplesmente que de facto não tens jeito? O que te levou a pensar que desta vez seria diferente? E qual é o problema de não teres jeito? De não conseguires fazer crochet? Sim, qual é o problema? No fundo, querias provar a ti mesma que conseguias e agora sentes-te uma nulidade. Mas não vou desistir, isso não. Vou tentar, vou tentar mesmo. Nem que demore um mês a pegar na agulha direito, eu vou tentar! O que mais me aborrece é esta sensação de desconforto que sinto, uma sensação estranha, nervosismo mesmo. Mas não só. O coração bate mais depressa, parece que o simples pegar na agulha e na lã me faz sentir m*l, parece que a agulha queima nas mãos. Sobe um calafrio pelas costas, estou inquieta, tensa. Pergunto-me porquê. Por que motivo me sinto tão desconfortável? Qual a origem do meu desassossego? Devia estar contente, pois, finalmente, vou começar o meu xaile. Tudo bem, um certo nervosismo é de esperar, dado que para mim é uma experiência nova e estou a lutar contra uma ideia preconcebida sobre mim própria. Mas tanto? A falta de jeito é imensa e custa-me muito de facto, mas é motivo para ficar assim tão perturbada? O Eros não ficou. Não, não é só isso, tenho de perceber o que me incomoda tanto. Sinto que é algo mais, algo que não consigo identificar.
De repente, surge-me na mente um pensamento: “Ao que tu chegaste, Psiquê! Olha para ti a fazer crochet! Se te vissem agora! Não te reconheço. Não és tu. Onde estás tu? Não te conheço.”. E veio-me uma identificação imediata com a minha mãe. Já não era eu que estava a fazer crochet, era a minha mãe! Eu era a minha mãe! De repente, percebi. De repente, fez-se luz. O meu desconforto está associado à identificação com a minha mãe. Eu estava a identificar-me com a minha mãe e isso causa-me desconforto. Eu cresci, construi a minha identidade tendo o meu pai como referência, cresci a querer ser igual a ele. A dor da sua perda era tão profunda, o vazio foi de tal ordem, que eu queria mantê-lo vivo em mim. Ele vivia em mim. Eu tinha de ser igual a ele. Se não fosse, ele morria. E eu não podia matá-lo! Esta tomada de consciência não a tive hoje, há muito que o sei. Descobri-o ao longo do meu percurso de vida. A novidade que só tomei consciência hoje, é que, eu tanto quis identificar-me com o meu pai, ele sempre foi o meu exemplo, o meu herói, que não dei hipótese sequer de ter também como modelo a minha mãe. Eu não permiti que a minha mãe fosse para mim uma mãe inteira. Na ânsia de ser igual ao meu pai, eu afastava qualquer aproximação a qualquer coisa que viesse da minha mãe.
Eu amo mais que tudo a minha mãe, sempre amei. Para mim, ela é uma verdadeira heroína e a luz que sempre iluminou a minha vida. É um verdadeiro exemplo. Mas dou-me conta que a ela só lhe permiti ser mãe e nunca uma referência como pessoa, como Mulher. Dela bebi todo o amor, todo o carinho. Devo a ela hoje estar aqui saudável. Ela sempre esteve lá para mim. Sempre. Sempre pude contar com ela. Ela é a verdadeira Mãe e eu suguei-a toda. Mas dela não quis retirar nada. Dela como pessoa, como mulher, não quis receber nenhum ensinamento. Dela só retirei o seu amor, a sua dedicação e carinho. Como mulher, nunca me quis identificar ou sequer permiti que ela me ensinasse os seus dons e talentos. Eu era o meu pai. Curso superior. Culta à vida de cultura e de leitura. Inteligente. A minha mãe era a dona de casa, a que cuidava de nós. A que fazia arranjos de flores para enfeitar as jarras de casa, a que fazia crochet. A que fazia camisolas de tricot. E nada disso tinha valor para mim. Pelo contrário, se eu fizesse o mesmo, se eu permitisse que ela me ensinasse, estava a transformar-me nela e isso significava afastar-me do meu pai, significava matá-lo. Por isso, nunca me permiti ver os seus dons e talentos como pessoa. Nunca me permiti vê-la como mulher inteira, completa. No fundo, usei-a só como mãe. Isso eu podia permitir. Não só porque necessitava muito de amor, mas também porque isso era a única coisa que o meu pai não podia fazer: ser Mãe. Percebi que cresci só a identificar-me com o pai. Herdar e valorizar o pai e tenho de fazer as pazes com a minha mãe. Emocionei-me. Senti uma vontade súbita de falar com a minha mãe. Telefonar-lhe só para ouvir a sua voz. Pensei para comigo pedir desculpa. “Desculpa, mãe, por não te ter deixado ser um exemplo também para mim. Desculpa por não te ter deixado passar os teus ensinamentos. Perdão.” E fiquei em paz. Sentei-me de novo com as suas agulhas e lãs e senti-me bem, em paz, e desfrutei do momento. E, como as minhas agulhas e lãs chegaram hoje, amanhã já posso começar a fazer com as minhas. A vida é sábia e tudo vem no momento certo.
20 de janeiro de 2021
Vivemos tempos estranhos. O tempo da pandemia. O tempo onde a distância física das pessoas que gostamos é um ato de amor. O tempo onde as pessoas andam de máscara e não se vêm as caras, as expressões. O tempo onde ficar em casa é um ato de compaixão pelo próximo. Ficar em casa salva vidas. O tempo onde o inimigo combate-se sentado, num sofá! Onde a arma não é a coragem, mas a paciência. O tempo em que não abraçar é amor. O tempo dos confinamentos. Assim, de repente, sem aviso, tudo mudou. Vimos as nossas vidas viradas do avesso. Este tempo levou-nos a virar para dentro, à procura das nossas verdades internas, do que realmente importa para cada um de nós. Obrigou-nos a sair do modo piloto automático em que andamos a maior parte do tempo e a questionarmos quem somos, o que de facto queremos e o que andamos a fazer. Quando isto tudo se passa a uma escala global, quando tantos milhares de pessoas em todo o planeta se confrontam e debatem com as questões da sua existência ao mesmo tempo, isto tem de ter um impacto profundo na nossa consciência coletiva. Falta saber para onde caminhamos. A mim trouxe-me a oportunidade de conhecer estas mulheres guerreiras que de outra forma nunca teria conhecido. Mas é incrível como o ser humano se adapta a tudo, adapta-se às mais estranhas situações e reinventa-se. Cada um arranja as estratégias que pode e sabe para passar esta tormenta. A minha decisão de fazer um xaile tornou-se uma bênção nos tempos que correm. Às vezes, chego a pensar que até tem um lado positivo toda esta situação, pois deu-me a possibilidade de conhecer este grupo de mulheres via internet e embarcar nesta viagem. Será que se não estivéssemos em pandemia isto alguma vez teria acontecido? Não sei. Nunca o poderei saber. Mas penso que não. A união que se está a formar no grupo é fruto tanto da jornada da realização do xaile, mas também é muito potenciada pelo contexto em que vivemos. Todas nós estamos disponíveis. Todas nós estamos ligadas não só pelo xaile, mas também pelo medo da pandemia. Todas estamos a enfrentar os nossos demónios internos, mas também todas enfrentamos um inimigo externo comum.
Assim, apesar de nunca termos estado fisicamente umas com as outras, estamos sempre em contacto, estamos sempre ligadas. O meu telemóvel passa o dia a apitar com o som das mensagens do nosso grupo do w******p. Se, noutro tempo, retirava o som das notificações do telemóvel, pois achava deveras irritante, intrusivo até. Neste tempo, o mesmo som torna-se reconfortante. É o som do meu elo de ligação ao outro, à vida, ao mundo. Através dele, vou ficando informada dos progressos das minhas companheiras. A Atena conseguiu fazer a sua primeira roseta! A gata da Hécate, a sua companheira de onze anos, partiu. A tia da Ártemis também. Era irmã da sua mãe e a única tia ainda viva. Perder alguém nestes tempos ainda é mais difícil. A Ártemis não sabe se pode ir ao funeral, dadas as restrições. Nem ir ao funeral, nem estar próxima dos seus. Que raio de tempos estes! Como não tem mais tios e os seus pais já faleceram, era a única representante da ancestralidade da família. Decidiu fazer uma roseta para o seu xaile em sua memória.
21 de janeiro de 2021
A reunião começou num ambiente muito descontraído, diria mesmo alegre, e, aos poucos, foi-se tornando mais pesado, mas também mais intimista.
-Hécate, devias ter alertado para o tipo de lã que devíamos utilizar, eu comprei umas lãs todas espalhafatosas, muito bonitas, mas trabalhar aquilo para quem não tem muita experiência… Eu vejo-me aflita! Foi um desafio enorme trabalhar aquilo- disse a Ísis.