O carro parou em uma parte mais alta do morro. A vista dali era diferente… dava pra ver quase tudo lá embaixo. As casas eram mais organizadas, maiores, algumas até com varanda e portão de ferro.
— Chegamos — disse o homem.
Pablo desceu devagar, observando ao redor. Aquilo já não parecia mais o mesmo lugar onde ele tinha passado as primeiras noites.
Eles pararam em frente a uma casa simples por fora, mas bem cuidada. O portão abriu com facilidade.
— Essa aqui agora é tua — falou o cara, jogando a chave na mão de Pablo.
Pablo segurou a chave por um segundo, olhando para ela como se estivesse confirmando que aquilo era real.
Entrou.
Por dentro, a casa era bem melhor do que qualquer lugar que ele tinha ficado antes. Tinha sofá, televisão, cozinha arrumada… até um quarto com cama de verdade, limpa.
Ele caminhou devagar pelo espaço, passando a mão pelos móveis, absorvendo cada detalhe.
— O Timóteo não faz isso por qualquer um — disse o homem encostado na porta. — Tu ganhou moral.
Pablo soltou um leve sorriso de canto.
— Eu sei.
O homem saiu, deixando ele sozinho.
O silêncio tomou conta da casa.
Pela primeira vez em muito tempo… silêncio de verdade.
Pablo foi até a janela e olhou o morro lá embaixo. Lembrou de tudo que tinha passado pra chegar até ali. Cada escolha… cada risco.
Mas no fundo, ele sabia: aquilo era só o começo.
Dois dias depois.
O mesmo carro. O mesmo caminho.
Mas dessa vez, Pablo não parecia mais o mesmo.
Mais confiante. Mais frio.
— Vamos buscar o resto — disse ele, antes mesmo que alguém perguntasse.
Quando chegaram na casa do devedor, Pablo nem precisou bater tanto. O homem já abriu a porta quase imediatamente, como se estivesse esperando por aquilo desde o primeiro dia.
— Eu consegui… eu consegui tudo — disse ele, apressado.
Pablo entrou, sem pressa.
— Eu falei que ia voltar.
O homem entregou o dinheiro com as mãos tremendo. Pablo contou ali mesmo, com calma.
Trinta mil. Certo.
Ele guardou.
Ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o homem.
— Viu como dá jeito quando quer?
O homem só assentiu, sem coragem de falar nada.
Pablo então fez algo inesperado: deu dois tapinhas leves no ombro dele.
— Agora tá em dia. Não entra nessa de novo.
E saiu.
De volta ao ponto de encontro, Pablo colocou o restante do dinheiro na mesa de Timóteo.
— Certinho.
Timóteo nem contou dessa vez. Só olhou.
— Eu sabia que você ia dar conta.
Ele se levantou, andando devagar ao redor de Pablo.
— Sabe qual é a diferença de você pros outros?
Pablo ficou em silêncio.
— Você entende o jogo.
Parou na frente dele.
— E quem entende… cresce.
Timóteo então fez um gesto, e outro homem entrou, trazendo uma bebida.
— Hoje você bebe comigo.
Pablo aceitou.
Enquanto os dois brindavam, o clima era outro. Não era mais chefe e novato.
Era respeito.
Mas no fundo, Pablo sabia…
Quanto mais alto ele subisse naquele mundo… mais perigosa seria a queda.
E, olhando nos olhos de Timóteo, ele percebeu uma coisa:
Aquilo ali ainda ia cobrar um preço.
A noite já tinha caído quando Pablo voltou pra nova casa. O silêncio do lugar agora parecia diferente… não era mais vazio, era conquista.
Ele largou a chave na mesa, tirou a camisa e se jogou no sofá, ainda com a cabeça girando por tudo que tinha acontecido. Em poucos dias, ele tinha saído de alguém que só observava… pra alguém que estava sendo observado.
E aprovado.
Mas ele sabia: naquele mundo, confiança não era garantia… era cobrança constante.
Na manhã seguinte, o movimento no morro já estava intenso quando alguém bateu no portão.
Pablo abriu e deu de cara com um dos homens de Timóteo.
— Ele quer te ver.
Pablo nem perguntou o motivo. Só assentiu, pegou a camisa e saiu.
Dessa vez, o caminho parecia mais curto.
Quando entrou na sala, Timóteo não estava sozinho. Dois outros homens estavam ali, com cara de preocupação.
O clima era pesado.
— Chegou — disse Timóteo, olhando pra Pablo. — Senta aí.
Pablo percebeu na hora: aquilo não era mais um teste simples.
— Deu problema — continuou Timóteo. — Um dos pontos lá de baixo tá dando prejuízo. Dinheiro sumindo… e ninguém sabe explicar.
Pablo cruzou os braços, atento.
— E o que você quer que eu faça?
Timóteo se aproximou devagar.
— Quero que você descubra.
O silêncio ficou mais denso.
— Mas não é pra sair acusando qualquer um — completou ele. — Eu quero certeza.
Um dos homens na sala soltou:
— Já tem gente desconfiando de um dos nossos lá…
Timóteo lançou um olhar que fez ele calar na hora.
— É por isso que eu não mandei nenhum de vocês — disse, firme. — Quem tá lá já tá envolvido demais.
Voltou a encarar Pablo.
— Você é novo. Ninguém vai te ver como ameaça.
Pablo entendeu na hora.
Não era só investigar… era entrar no meio de gente que podia estar roubando… e que não pensaria duas vezes antes de calar alguém.
— E se eu descobrir? — perguntou.
Timóteo respondeu sem hesitar:
— Aí você volta e me conta.
Pablo sustentou o olhar dele.
— Só isso?
Timóteo deu um leve sorriso.
— Por enquanto.
Aquilo disse mais do que qualquer ordem direta.
Pablo levantou.
— Onde é?
Timóteo entregou outro papel.
— Fica lá embaixo. Vai sozinho dessa vez.
Pablo pegou.
Antes de sair, Timóteo ainda disse:
— Pablo…
Ele parou.
— Confiança se constrói… mas também se perde rápido.
Pablo assentiu e saiu.
Descendo o morro sozinho, pela primeira vez, Pablo sentiu o peso real da posição que estava ganhando.
Aquilo não era mais sobre cobrar dívida.
Era sobre entrar em um jogo onde ninguém era totalmente confiável.
Quando chegou no ponto, viu o movimento acontecendo normalmente. Gente entrando, saindo… tudo aparentemente comum.
Mas ele sabia que não era.
Respirou fundo… e entrou.
Agora, o jogo era outro.
E qualquer passo errado… podia ser o último.