—Vamos ali quero te levar em um lugar.
Eles entraram no carro e foram acompanhados pelos capangas do Timóteo e chegaram em uma boate do outro lado da cidade onde lá Timóteo também era o chefão de tudo. A boate pulsava ao som do funk, luzes cortando a fumaça e corpos dançando de forma provocante no ritmo da música. Assim que ele entrou, o clima mudou — respeito imediato. Todos sabiam quem ele era.
Pablo percebeu isso na hora.
— Fica à vontade — disse Timóteo, encostando-se no sofá da área VIP, como se fosse dono não só do lugar, mas de tudo ao redor.
Não demorou muito para algumas das mulheres mais bonitas da casa se aproximarem. Elas sorriram, tocaram, se acomodaram ao lado deles com naturalidade. Era quase como um ritual já conhecido. Uma delas se inclinou e sussurrou algo no ouvido de Timóteo, arrancando um leve sorriso dele.
Pablo ainda estava absorvendo tudo aquilo.
Uma das mulheres se aproximou dele, segurando sua mão com firmeza e olhando direto em seus olhos.
— Vem comigo — disse, com um sorriso provocante.
Pablo hesitou por um segundo… mas levantou.
Timóteo apenas observou, em silêncio, como se estivesse analisando cada reação dele.
O corredor era mais silencioso, longe da música alta. A mulher abriu uma porta e entrou primeiro, deixando que Pablo a seguisse. Lá dentro, a iluminação era baixa, criando uma atmosfera íntima.
Ela começou a se mover lentamente, dançando só para ele, com confiança e controle. Pablo ficou parado por um instante, assistindo, ainda meio perdido entre o impacto e o desejo.
Aos poucos, ele se deixou levar pelo momento.
Horas depois, quando saiu do quarto, ajeitando a roupa, já não era o mesmo de antes. Havia algo diferente no olhar dele — mais frio, mais decidido.
Timóteo ainda estava na área VIP, bebendo com calma.
Quando viu Pablo voltar, apenas perguntou:
— E aí… gostou da vida que eu posso te dar?
Pablo encarou ele por alguns segundos antes de responder:
— Tô começando a entender.
Timóteo deu um leve sorriso.
— Isso aqui é só o começo… mas tudo tem um preço.
No outro dia, o sol m*l tinha nascido quando Pablo foi acordado com batidas firmes na porta. Ainda meio sonolento, ele abriu e deu de cara com um dos homens de confiança de Timóteo.
— O chefe quer te ver. Agora.
Pablo nem respondeu, só fez um sinal com a cabeça e começou a se arrumar rápido. Ele já sabia que, naquele mundo, cada chamado podia significar uma prova… ou um problema.
Minutos depois, ele entrou na sala onde Timóteo estava, sentado calmamente, como se já estivesse esperando por ele há horas. O ambiente era silencioso, pesado.
— Dormiu bem? — perguntou Timóteo, sem nem olhar direto pra ele.
— O suficiente — respondeu Pablo, tentando manter a postura firme.
Timóteo então levantou os olhos, encarando ele de forma direta.
— Hoje você vai fazer uma cobrança pra mim.
Pablo sentiu o clima mudar na hora. Aquilo não era só um serviço qualquer… era mais um teste.
— Quanto? — perguntou, seco.
— Cinquenta mil. Um cara tá devendo já faz tempo… e começou a achar que pode ignorar a gente.
Timóteo levantou, caminhando lentamente até ficar de frente com Pablo.
— Quero ver como você se comporta. Se sabe pressionar… sem perder o controle. Ou se vai fazer besteira.
Pablo engoliu seco por dentro, mas por fora manteve a expressão fria.
— E se ele não tiver o dinheiro?
Timóteo deu um leve sorriso de canto.
— Aí você faz ele entender que é melhor dar um jeito.
O silêncio tomou conta por alguns segundos.
— Só não mata — completou Timóteo.
Pablo assentiu.
— Onde eu encontro ele?
Timóteo entregou um papel com o endereço.
— Vai com dois caras meus. Mas quem resolve é você.
Pablo pegou o papel e guardou no bolso. Quando virou pra sair, Timóteo ainda disse:
— E Pablo…
Ele parou, olhando de lado.
— Não me decepciona.
Sem responder, Pablo saiu dali sentindo o peso da responsabilidade nas costas. Aquilo não era mais sobre provar coragem… era sobre mostrar que sabia jogar o jogo certo.
Já dentro do carro, com os dois homens ao lado, ele olhou o endereço mais uma vez e respirou fundo.
Era mais um passo… e talvez o mais importante até agora.
— É ali — disse um dos homens, apontando para uma casa simples, com o portão meio torto.
O carro parou. Pablo desceu primeiro, já assumindo a frente. Os dois homens ficaram logo atrás, em posição.
Ele bateu na porta com força.
Nada.
Bateu de novo, dessa vez mais alto.
— Eu sei que você tá aí! — falou firme.
Depois de alguns segundos, a porta abriu devagar. Um homem com cara de cansado e assustado apareceu.
— O que vocês querem?
Pablo nem hesitou.
— Você sabe muito bem.
O homem tentou disfarçar, mas o nervosismo era evidente.
— Eu… eu já ia resolver isso…
Pablo deu um passo pra frente, invadindo o espaço dele sem pedir permissão.
— Já faz tempo que você “ia resolver”.
Os dois homens atrás dele entraram também, fechando a porta. O clima ficou pesado.
— Cinquenta mil — disse Pablo, olhando direto nos olhos dele. — Ou você acha que pode brincar com a gente?
— Eu não tenho tudo agora… — respondeu o homem, quase gaguejando.
Pablo ficou em silêncio por alguns segundos, analisando. Ele lembrava das palavras de Timóteo: pressionar… sem perder o controle.
Então ele fez algo diferente do que esperavam.
Pegou uma cadeira e sentou calmamente na frente do homem.
— Me escuta bem — falou, com a voz baixa, mas firme. — Eu não vim aqui pra sair sem nada. Mas também não sou burro.
O homem engoliu seco.
— Quanto você tem agora?
— Vinte… vinte mil…
Pablo fez um sinal com a cabeça.
— Vai lá pegar.
O homem correu, claramente aliviado por ainda estar respirando. Enquanto isso, um dos capangas olhou pra Pablo, meio surpreso.
— Só isso?
Pablo respondeu baixo, sem tirar os olhos do corredor:
— Confiança também cobra juros.
O homem voltou com o dinheiro tremendo nas mãos. Pablo pegou, contou com calma.
— Faltam trinta.
— Eu consigo… me dá um tempo…
Pablo levantou devagar.
— Você tem dois dias.
Chegou mais perto, falando no ouvido dele:
— E da próxima vez que eu vier… não vai ser pra conversar.
O homem assentiu desesperado.
Pablo então fez um gesto para os caras, e eles saíram da casa. Já dentro do carro, um deles não resistiu:
— Achei que você ia quebrar ele.
Pablo olhou pra frente, tranquilo.
— Quebrar é fácil… difícil é fazer pagar.
Quando voltou, Timóteo já estava esperando.
Pablo entrou, jogou o dinheiro sobre a mesa.
— Vinte agora. O resto em dois dias.
Timóteo ficou em silêncio, olhando para o dinheiro… depois para Pablo.
— E você deixou ele vivo.
— Ele vai pagar mais — respondeu Pablo, direto. — Com medo… e com prazo.
Um leve sorriso apareceu no rosto de Timóteo.
— Gostei.
Ele pegou o dinheiro, satisfeito.
— Você pensou. Não agiu como um animal.
Timóteo então chamou um dos seus homens.
— Leva o Pablo e arruma um lugar melhor pra ele. Uma casa decente no morro.
O homem assentiu.
Pablo ficou parado por um segundo, absorvendo aquilo. Não era só uma recompensa… era confiança.
Timóteo olhou pra ele mais uma vez.
— Continua assim… que você vai longe aqui.