Capítulo 8

1254 Words
A estrada parecia não ter fim. Pablo dirigia com os olhos pesados, a mente ainda presa na cena que não saía da cabeça… o empurrão, o impacto, o silêncio depois. Mateus não levantou. E aquilo ecoava como um grito dentro dele. Sem dinheiro, sem rumo e com medo de ser reconhecido, ele tomou a única decisão que conseguiu pensar: desaparecer. Quando finalmente chegou em São Paulo, já era noite. Foi aí que ele decidiu entrar em um dos piores morros da cidade. As vielas eram estreitas, m*l iluminadas, e o clima era pesado. Homens armados observavam cada passo dele. Ali, qualquer desconhecido era uma ameaça… ou um problema. Pablo desceu do carro devagar, tentando não demonstrar o nervosismo. — Tá perdido, parceiro? — perguntou um dos homens, com um fuzil apoiado no ombro. Pablo engoliu seco. — Tô procurando um lugar pra ficar… qualquer coisa. Preciso de trabalho também. O homem riu de canto, olhando os outros ao redor. — Aqui não é hotel não… mas talvez você possa ser útil. Outro se aproximou, mais sério, analisando Pablo da cabeça aos pés. — Já fez o quê na vida? Pablo hesitou por um segundo… mas sabia que ali não dava pra parecer fraco. — Faço o que precisar. O silêncio tomou conta por alguns segundos. Até que o homem assentiu. — Então vai ter que provar. Pablo foi levado mais pra dentro do morro, passando por becos cada vez mais escuros. O coração batia forte, mas ele continuava andando. Naquele momento, ele percebeu uma coisa… Ele não estava só fugindo da polícia. Estava entrando em algo muito pior. E talvez… sem volta. O ar no morro parecia mais pesado quanto mais Pablo avançava. Cada passo era como atravessar uma linha invisível… uma linha que separava quem ainda tinha escolha de quem já estava perdido. Ele foi levado até uma casa simples por fora, mas cheia de movimento por dentro. Gente entrando e saindo, rádios chiando, armas encostadas nos cantos. No centro de tudo, sentado em uma cadeira, estava o homem que mandava ali. — Então é esse? — a voz era calma, mas carregada de autoridade. Pablo ficou em silêncio por um segundo, encarando aquele homem. Sabia que aquele momento definiria tudo. — Sou eu. O homem o analisou com um olhar frio. — Aqui não tem espaço pra erro… nem pra covarde. Quer ficar, vai trabalhar. Quer fugir… nem tenta. Pablo respirou fundo. — Eu fico. Um leve sorriso surgiu no rosto do chefe, mas não era de simpatia… era de quem acabava de ganhar mais uma peça no jogo. — Então começa hoje. Sem cerimônia, entregaram a Pablo uma mochila. Ele abriu. Dentro, vários pacotes pequenos. Droga. O estômago dele revirou por um instante. Aquilo era real agora. Não tinha mais volta. — Vai descer com o Juninho — disse um dos homens. — Primeira entrega. Se fizer direito, continua vivo por aqui. Juninho, um garoto mais novo, fez um sinal com a cabeça pra Pablo seguir. — Fica tranquilo… só não faz besteira. Os dois desceram por vielas apertadas, desviando de olhares curiosos e atentos. Em cada canto, alguém observava. Tudo era controlado. — Aqui é assim — murmurou Juninho. — Ou você entra… ou você vira problema. Chegaram no ponto de entrega. Um homem apareceu, rápido, pegou o pacote, deixou o dinheiro. Tudo em segundos. Simples… rápido… perigoso. Pablo percebeu que suas mãos estavam tremendo. Mas ninguém podia ver isso. No caminho de volta, o silêncio tomou conta. Só os passos e o som distante da cidade. Quando voltaram, o dinheiro foi entregue ao chefe. Ele contou… devagar… olhando pra Pablo. — Primeira você fez. Ainda tá vivo. Uma pausa. — Mas aqui não é só isso não. O olhar dele ficou mais sério. — Vai ter hora que vai ter que cobrar… intimidar… e, se precisar… Ele não terminou a frase. Não precisava. Pablo entendeu. Naquela noite, deitado em um colchão velho em um canto qualquer, ele olhava pro teto, sem conseguir dormir. A imagem de Mateus voltou. O som. O corpo caindo. Ele fechou os olhos com força. Mas dessa vez… algo mudou. A culpa ainda estava ali. Só que agora… vinha acompanhada de outra coisa. Frieza. Porque no fundo, ele sabia: Se quisesse sobreviver ali… Ia ter que deixar de ser quem era. E talvez… nunca mais voltar. Os dias começaram a passar rápido no morro. Pablo já não era mais visto como um estranho. Fazia entregas, ajudava nas cobranças, andava armado… e, aos poucos, ia ganhando espaço. Mas naquele lugar, ninguém confiava totalmente em ninguém. E o chefão… observava tudo. Numa noite mais silenciosa, Pablo foi chamado. — O chefe quer falar contigo. O coração dele acelerou na hora. Timóteo estava sentado, com um copo de bebida na mão, olhando pra rua pela janela. — Senta aí. Pablo obedeceu. — Tu não é daqui. Pablo ficou imóvel. — Dá pra ver no jeito que anda… no jeito que olha as coisas — continuou o chefe, virando o rosto devagar. — E ninguém aparece aqui do nada sem história. Pablo engoliu seco. — Então me conta… de quem tu tá fugindo? A pergunta bateu forte. Por um instante, Pablo pensou em mentir. Mas aquele olhar… não dava espaço pra mentira. Ele soltou o ar devagar. — Eu não tô fugindo de alguém… tô fugindo do que eu fiz. Pablo respirou fundo antes de começar. A voz saiu rouca. — Eu confiava neles… nos dois. Ela… e ele. — Ele fez uma pausa, passando a mão no rosto. — Era minha mulher… e meu melhor amigo. Timóteo não interrompeu. Apenas inclinou levemente a cabeça, dando espaço. — Eu vi… com meus próprios olhos. — Pablo apertou os punhos. — Não foi só traição… foi humilhação. Eles riam, como se eu fosse um i****a. O silêncio voltou a tomar conta por alguns segundos. Pablo continuou, agora com mais peso na voz: — Eu perdi o controle… — Ele olhou direto para Timóteo, sem fugir. — Eu matei ele. Aquelas palavras ficaram no ar, cruas, sem enfeite. Era a primeira vez que Pablo falava aquilo em voz alta daquele jeito. Timóteo cruzou os braços, analisando cada detalhe da expressão dele. — E ela? — perguntou, direto. Pablo fechou os olhos por um instante. — Eu não consegui… mas queria. Até agora eu não sei se foi fraqueza… ou se ainda tinha alguma coisa em mim que não deixou. Timóteo soltou um leve sorriso de canto, não de deboche — mas de reconhecimento. — Não foi fraqueza. — disse firme. — Foi escolha. Pablo levantou o olhar, surpreso. — Fraqueza é fugir do que você fez. Você tá aqui… encarando. Isso já diz muito. Pela primeira vez desde que chegou ali, Pablo pareceu menos tenso. Timóteo se levantou devagar e começou a andar pelo ambiente. — Você sabe o que eu vejo em você, Pablo? Ele parou na frente dele. — Alguém que foi quebrado… mas não virou lixo. Pablo ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. — Aqui dentro — continuou Timóteo — ninguém é santo. Mas também não aceito covarde. E você… — ele apontou levemente — não é. Pablo engoliu seco. — Eu não tenho mais nada… — disse baixo. — Nem vida antiga, nem caminho. Timóteo deu uma leve risada. — Tem sim. — respondeu. — Só não é o mesmo de antes. Ele estendeu a mão para Pablo. — Se ficar comigo… vai aprender a transformar essa dor em força. Aqui, ou você se reconstrói… ou desaparece.
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