Pablo já não conseguia mais pensar com clareza. O coração batia descompassado, a respiração pesada, as mãos tremendo de raiva e dor. Aquela imagem não saía da sua cabeça — Sophia e Mateus, juntos, rindo, trocando olhares… algo que ele nunca imaginou viver.
Sem conseguir se conter, ele seguiu os dois.
Cada passo era carregado de tensão. Quando finalmente os viu, ali, próximos demais, íntimos demais, algo dentro dele simplesmente quebrou.
— Sophia! — a voz saiu alta, cortando o ar.
Os dois se viraram assustados.
— Pablo… — Sophia tentou falar, o rosto perdendo a cor.
— Você não tem nem coragem de me olhar direito? — ele disse, a voz carregada de dor e fúria. — E você… — apontou para Mateus — eu te considerava meu irmão!
Mateus levantou as mãos, tentando acalmar a situação.
— Pablo, calma, a gente pode conversar—
Mas Pablo já não escutava mais.
Ele avançou.
O primeiro empurrão foi forte o suficiente para fazer Mateus recuar alguns passos. Sophia gritou, tentando se colocar entre eles.
— Para! Pablo, por favor!
Mas ele a afastou, sem intenção de machucar, apenas cego pela emoção.
— Você me traiu! — ele gritou para ela, os olhos marejados. — Com ele!
Mateus tentou se recompor.
— Cara, você tá fora de si—
— Cala a boca! — Pablo partiu para cima novamente.
Dessa vez, o impacto foi mais violento. Os dois se agarraram, trocando empurrões e socos desajeitados. A tensão acumulada explodia em cada movimento.
Sophia gritava desesperada:
— Para com isso! Vocês vão se machucar!
Mateus tentou se defender, mas Pablo estava tomado pela raiva. Em um movimento brusco, ele empurrou Mateus com toda força.
Mateus perdeu o equilíbrio.
O tempo pareceu desacelerar.
Ele caiu para trás… e o som seco da cabeça batendo contra o chão ecoou no ambiente.
Silêncio.
Um silêncio pesado, assustador.
— Mateus…? — Sophia sussurrou, a voz tremendo.
Ele não respondeu.
O corpo estava imóvel.
— MATEUS! — ela gritou, correndo até ele.
Pablo congelou.
A raiva sumiu tão rápido quanto veio, dando lugar a um vazio gelado. Ele olhava para a cena sem conseguir acreditar no que tinha feito.
— Eu… eu não quis… — a voz dele falhou.
Sophia estava ajoelhada, segurando o rosto de Mateus, desesperada.
— Ele não tá acordando, Pablo! O que você fez?!
As mãos de Pablo começaram a tremer ainda mais. O mundo parecia girar ao redor dele.
Aquilo tinha ido longe demais.
Muito longe.
E agora… nada nunca mais seria como antes.
Sophia segurava o rosto de Mateus com as mãos trêmulas, tentando acordá-lo.
— Mateus… por favor… acorda! — a voz dela saiu quebrada, desesperada.
Nenhuma resposta.
O desespero tomou conta de vez. Ela olhou para Pablo, os olhos cheios de lágrimas, mas agora também carregados de raiva.
— Olha o que você fez! — ela gritou. — Se acontecer alguma coisa com ele… eu juro, Pablo… eu acabo com você!
Aquelas palavras atingiram como um golpe.
Pablo deu um passo para trás, como se tivesse sido empurrado.
— Eu? — ele riu sem humor, completamente abalado. — Você ainda tem coragem de me culpar?
— Culpar?! — Sophia levantou, furiosa. — Você acabou de quase matar ele!
— E você? — a voz dele subiu, carregada de dor. — Você acabou com a gente muito antes disso!
O silêncio pesou por um segundo, quebrado apenas pela respiração ofegante dos dois.
— Eu confiava em você, Sophia… — ele continuou, agora com a voz falhando. — Eu te amava… fazia tudo por você…
Ela desviou o olhar, mas não respondeu.
— E você me trai com o cara que eu mais confiava — ele completou, balançando a cabeça, incrédulo. — Vocês dois me fizeram de i****a.
Sophia voltou a olhar para Mateus, completamente desesperada.
— Some daqui, Pablo! — ela disse, sem nem encarar ele. — Vai embora! Eu não quero olhar pra sua cara agora!
Ele ficou parado por alguns segundos.
Parecia querer dizer mais alguma coisa… mas não conseguiu.
A dor era grande demais. A culpa… maior ainda.
Sem dizer mais nada, Pablo se virou e foi embora.
Os passos eram rápidos, desordenados. A respiração pesada. Ele passou pelo caminho quase sem enxergar direito, a mente um caos completo.
Quando entrou no carro, as mãos tremiam tanto que ele demorou para conseguir ligar.
— Droga… droga! — murmurava, batendo no volante.
A imagem da queda de Mateus se repetia na cabeça, sem parar.
O som.
O silêncio.
Sophia gritando.
Ele acelerou, dirigindo sem pensar, com o coração disparado e os olhos marejados.
— Isso é culpa dela… — falou em voz alta, tentando se convencer. — Foi ela que começou… ela que destruiu tudo…
Mas no fundo, uma voz insistia em dizer o contrário.
Quando chegou em casa, entrou sem nem acender as luzes. O ambiente parecia estranho, vazio… como se já não fosse mais um lar.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando conter o choro.
Mas não conseguiu.
Sentou no sofá e desabou.
Entre lágrimas, raiva e culpa, uma única certeza começava a se formar:
Nada daquilo teria volta.
Pablo estava sentado no sofá, o corpo curvado, as mãos ainda tremendo. A casa em silêncio só aumentava o peso do que tinha acontecido.
A imagem de Mateus caído… imóvel… não saía da sua cabeça.
— Eu matei ele… — sussurrou, a voz quase inaudível.
O coração disparou ainda mais forte.
A palavra ecoava dentro dele.
Matei.
Ele levantou de repente, como se não pudesse mais ficar ali nem por um segundo. Começou a andar de um lado para o outro, passando as mãos no cabelo, completamente desorientado.
— A polícia… — murmurou. — A Sophia vai chamar a polícia…
O pânico tomou conta de vez.
Sem pensar muito, foi até o quarto. Abriu o guarda-roupa com pressa e começou a jogar roupas dentro de uma mochila. Camisetas, calças, documentos… tudo de forma desorganizada.
Parou por um segundo ao pegar uma foto.
Ele e Sophia, sorrindo.
Felizes.
O olhar mudou. A dor veio forte, mas agora misturada com revolta.
— Tudo isso é culpa sua… — disse entre dentes, amassando a foto antes de jogá-la dentro da bolsa.
Fechou a mochila com força.
A decisão estava tomada.
Ele não podia ficar.
Não depois daquilo.
Pegou a chave do carro, respirou fundo, e saiu de casa sem olhar para trás.
A noite parecia mais pesada do que nunca. O mundo lá fora seguia normal, como se nada tivesse acontecido… como se a vida dele não tivesse acabado de desmoronar.
Entrou no carro e ficou alguns segundos parado, olhando para o nada.
— São Paulo… — murmurou.
Era o único lugar que vinha à mente. O lugar de onde ele veio. Talvez lá conseguisse se esconder, desaparecer, recomeçar… ou pelo menos fugir de tudo aquilo.
Mas a verdade é que ele não fazia ideia do que faria quando chegasse.
Nem onde ficaria.
Nem por quanto tempo conseguiria escapar.
Ligou o carro.
Enquanto dirigia pela estrada escura, a mente era um turbilhão.
Sirene.
Polícia.
Prisão.
Essas palavras se repetiam sem parar.
Cada farol no retrovisor fazia o coração disparar.
Cada carro que passava parecia uma ameaça.
— Eu não posso ser preso… — repetia, apertando o volante com força. — Eu não posso…
Mas no fundo… ele sabia.
Não dava para fugir do que tinha feito.
E por mais que estivesse indo embora, tentando deixar tudo para trás…
Aquilo já fazia parte dele.