No outro dia, acordei cedo mesmo tendo dormido tarde.
Acho que minha cabeça já tinha desaprendido a descansar.
Fiquei alguns minutos deitada olhando pro teto, ouvindo os sons da casa acordando aos poucos. Passos no corredor. Louças na cozinha. Vozes baixas dos funcionários.
Tudo tão organizado.
Tão controlado.
Eu me levantei devagar e fui até o espelho.
Por alguns segundos, fiquei apenas me olhando.
Era estranho como eu conseguia parecer exatamente a mesma por fora…
quando por dentro parecia outra pessoa.
Depois do banho, escolhi uma roupa simples pro café da manhã. Nada que chamasse atenção. Nada que pudesse gerar discussão logo cedo.
Talvez eu estivesse cansada demais pra lutar o tempo inteiro.
Quando desci, minha mãe já estava sentada à mesa organizando algumas pastas enquanto tomava café.
Meu pai falava no telefone, sério como sempre.
Ele nem percebeu quando eu sentei.
Minha mãe levantou os olhos na minha direção.
— Dormiu bem?
A pergunta me surpreendeu.
Porque parecia… normal.
Quase carinhosa.
— Mais ou menos — respondi.
Ela assentiu lentamente.
— Hoje à noite vão alguns convidados importantes lá pra casa. Pessoas de Brasília também.
Claro.
Mais política.
Mais aparência.
Mais teatro.
Eu peguei a xícara de café tentando esconder o desânimo.
— Tá bom.
Minha mãe me observou por alguns segundos antes de falar:
— Quero você mais próxima hoje, Dalila. Seu pai está tentando construir relações importantes.
Eu quase perguntei: “E eu faço parte do pacote?”
Mas fiquei quieta.
Ela parecia cansada também.
Mais do que normalmente parecia.
— Certo — respondi apenas.
Meu pai desligou a ligação naquele momento e finalmente olhou pra mim.
— Bom dia.
— Bom dia.
Ele me analisou rapidamente antes de dizer:
— Fico feliz que esteja colaborando depois da viagem.
A palavra colaborando me incomodou.
Porque parecia que eu era um problema sendo controlado.
Mesmo assim…
parte de mim ficou feliz por ele estar tentando se aproximar.
E isso me irritava.
Como eu podia sentir raiva… e ao mesmo tempo querer aprovação?
Depois do café, subi pro quarto novamente.
Mas dessa vez…
me senti sufocada lá dentro.
Então peguei o celular e fui pra varanda.
O vento estava agradável, e dali de cima eu conseguia ver parte da cidade acordando.
Carros passando.
Pessoas indo trabalhar.
Vida acontecendo.
Livre.
Eu sentei na cadeira da varanda, destravando o celular sem pensar muito.
E quando percebi…
já estava olhando as mensagens da Verônica de novo.
Vídeos do baile.
Música alta.
As meninas dançando.
Luzes.
Risadas.
Meu coração apertou na hora.
Saudade.
De um lugar onde eu quase nem tinha estado direito.
Isso era loucura.
Abri um dos vídeos.
Verônica filmando as amigas dançando enquanto gritava a música.
E então, no fundo da gravação…
eu vi ele.
Pablo.
Parado mais afastado, observando alguma coisa.
Sério.
Como sempre.
Meu dedo congelou na tela.
Era só um vídeo de poucos segundos.
Mas bastou.
Aquele olhar parecia intenso até por uma gravação r**m.
Eu aproximei sem perceber.
Tentando enxergar melhor.
Tentando entender por que ele mexia tanto comigo sem nem fazer esforço.
Até que me dei conta do que estava fazendo.
Desliguei a tela na hora.
— Meu Deus…
Passei a mão no rosto, nervosa comigo mesma.
Aquilo estava ficando perigoso.
Porque não era mais só curiosidade.
Eu estava começando a procurar por ele.
E talvez essa fosse a pior parte.
Eu deixei o celular de lado como se tivesse feito alguma coisa errada.
Meu coração ainda estava acelerado por causa de um simples vídeo.
Ridículo.
Ou pelo menos era isso que eu tentava repetir pra mim mesma.
Mas não adiantava.
Porque a imagem dele continuava na minha cabeça.
O jeito parado no meio do baile, observando tudo como se estivesse sempre atento.
Como se aquele mundo inteiro girasse ao redor dele… mas ele nunca realmente relaxasse.
Eu respirei fundo, tentando afastar os pensamentos.
— Para de pensar nisso.
Levantei da cadeira da varanda e voltei pro quarto.
Precisava me ocupar.
Precisava voltar pro meu mundo antes que minha cabeça começasse a misturar tudo de vez.
Passei parte da tarde com minha mãe organizando detalhes do jantar.
Flores.
Mesa.
Convidados.
Roupas.
Ela parecia completamente focada naquilo, como se aqueles eventos fossem a coisa mais importante do mundo.
E talvez fossem mesmo pra ela.
— Os Moreira confirmaram presença — comentou enquanto olhava uma lista no tablet. — E provavelmente o senador Álvaro também.
Eu apenas assentia enquanto ajudava a escolher alguns detalhes da decoração.
Às vezes eu me perguntava se minha mãe percebia o quanto tentava controlar tudo ao redor.
Talvez fosse a única forma que ela encontrou de se sentir segura naquele mundo.
— Quero você com aquele vestido azul hoje — ela disse de repente.
Meu olhar subiu pra ela.
— O longo?
— Sim. Você fica elegante nele.
Elegante.
Essa palavra de novo.
Tudo sempre girava em torno disso.
Bonita. Educada. Elegante. Perfeita.
Nunca livre.
Eu abaixei os olhos lentamente.
— Tá bom.
Ela me observou por um instante antes de perguntar:
— Você ainda está chateada comigo?
A pergunta me pegou desprevenida.
Minha mãe raramente falava sobre sentimentos daquele jeito.
Eu demorei alguns segundos pra responder.
— Não sei.
Ela ficou em silêncio.
Depois suspirou baixo.
— Nós só queremos proteger você, Dalila.
Meu peito apertou levemente.
Porque eu acreditava nela.
De verdade.
Mas proteção demais também machuca.
Só que eu não tinha coragem de dizer isso naquele momento.
Então apenas assenti de leve.
No começo da noite, meu quarto virou uma preparação silenciosa outra vez.
Vestido azul.
Maquiagem impecável.
Cabelo arrumado.
Eu me olhava no espelho enquanto terminava de colocar os brincos.
E ali estava ela novamente.
A Dalila que todos conheciam.
Linda.
Comportada.
Intocável.
Mas agora eu conseguia enxergar além da imagem.
Porque por baixo daquela aparência perfeita…
existia uma garota confusa.
Dividida.
Querendo coisas que nem entendia direito ainda.
Quando desci as escadas, os primeiros convidados já estavam chegando.
Homens importantes.
Mulheres elegantes.
Perfumes caros.
Sorrisos treinados.
Meu pai conversava animado perto da entrada, claramente no papel que mais gostava de interpretar.
O homem poderoso.
Seguro.
Influente.
Assim que me viu descendo, abriu um pequeno sorriso orgulhoso.
E aquilo mexeu comigo de novo.
Porque eu gostava quando ele me olhava assim.
Mesmo odiando o motivo.
— Minha filha — disse ele ao me apresentar para alguns convidados. — Dalila.
Todos sorriram educadamente.
E eu fiz o mesmo.
Como sempre.
Mas, enquanto apertava mãos e respondia perguntas vazias…
uma parte da minha cabeça estava longe dali.
No morro.
Na música alta.
No olhar perigoso de um homem que eu m*l conhecia…
mas não conseguia esquecer.