Capítulo 28

418 Words
Depois que desliguei a ligação com a Verônica, eu continuei deitada na cama, olhando pro teto escuro do quarto. A casa inteira já estava silenciosa. Meus pais provavelmente dormindo. Funcionários andando baixo pelos corredores. Tudo em perfeita ordem. Como sempre. Mas minha cabeça… era um caos. Eu virei pro lado, puxando o travesseiro contra o peito. A conversa sobre meu pai ainda martelava dentro de mim. Governador. Brasília. Campanha. Mais gente olhando pra nossa família. Mais exposição. Mais pressão. Eu conseguia imaginar perfeitamente minha mãe organizando eventos, entrevistas, jantares políticos… e eu ao lado deles. Sorrindo. Elegante. Impecável. A filha perfeita. Eu fechei os olhos. Porque, por muito tempo… esse futuro parecia certo. Planejado. Seguro. Então por que agora parecia uma prisão? Levantei da cama devagar e caminhei até a janela. A cidade estava iluminada lá fora. Bonita. Distante. Eu apoiei os braços no parapeito, deixando o vento bater no meu rosto. E sem perceber… voltei a pensar nele. Pablo. O nome parecia errado dentro do meu mundo. Como se não combinasse comigo. Mas talvez fosse justamente por isso que eu não conseguia esquecer. Ele parecia tão diferente das pessoas que eu conhecia. Não tentava impressionar. Não parecia falso. Não sorria por obrigação. Era intenso. Cru. Real. E isso me assustava um pouco. Porque ninguém nunca tinha me olhado daquele jeito antes. Como se conseguisse enxergar além da personagem que eu fingia ser todos os dias. Eu passei a mão no cabelo lentamente. Tentando entender o que estava acontecendo comigo. Talvez eu estivesse só cansada da vida perfeita. Talvez o morro fosse apenas uma fuga. Talvez Pablo fosse só a representação de tudo que meus pais nunca deixariam eu viver. Mas, no fundo… eu sabia que era mais que isso. Porque, quando eu fechava os olhos… eu ainda conseguia sentir a música do baile. O calor. A liberdade. A adrenalina. A sensação de estar viva. Meu celular vibrou de repente na cama. Eu me assustei levemente antes de pegar. Mensagem da minha mãe. “Amanhã teremos jantar com alguns convidados. Quero você pronta às 20h.” Eu fiquei encarando a tela por alguns segundos. E ali estava ela de novo. Minha outra vida. Vestidos. Saltos. Sorrisos educados. Conversas vazias. Como se nada tivesse mudado. Mas tinha mudado. Eu sabia. Porque agora existiam duas versões de mim. A Dalila que meus pais conheciam… e a Dalila que começava a nascer escondida deles. E o pior era perceber que, cada dia que passava… a distância entre essas duas estava aumentando.
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