A viagem de volta pareceu mais longa do que a ida.
Talvez porque, dessa vez…
minha cabeça não parava.
Eu fiquei olhando pela janela do avião, vendo as nuvens passarem devagar, enquanto pensava em tudo que tinha acontecido nos últimos dias.
A viagem.
As reuniões.
Meu pai.
Minha mãe.
As meninas.
Aquela vida perfeita que, de alguma forma, ainda fazia parte de mim…
mas não completamente mais.
E, no meio de tudo isso…
ele.
Pablo.
Eu fechei os olhos por um segundo, incomodada comigo mesma.
— Para com isso… — murmurei.
Mas não adiantava.
Era só ficar em silêncio…
que meu pensamento voltava.
Quando finalmente chegamos em casa, tudo parecia igual.
Organizado.
Silencioso.
Perfeito.
Como se nada tivesse mudado.
Mas eu sabia que tinha.
Pelo menos em mim.
Eu subi direto pro quarto assim que pude, jogando a bolsa na cama e tirando o salto com pressa.
Suspirei fundo.
— Eu precisava voltar… — falei baixo.
Mas não era sobre a casa.
Era sobre outra coisa.
Nem desfiz a mala.
Peguei o celular na hora e liguei pra Verônica.
Ela atendeu no segundo toque.
— AMIGA!
Eu sorri automaticamente.
— Cheguei.
— Finalmente! Eu tava louca pra te ligar!
Eu me joguei na cama, virando de barriga pra cima.
— O que aconteceu?
Do outro lado, ela soltou um riso animado.
— Você perdeu coisa!
Meu coração acelerou sem eu perceber.
— O quê?
— Teve confusão no baile.
Eu me sentei na cama na hora.
— Como assim confusão?
— Uns caras começaram a mexer com a gente — ela começou. — Um i****a lá, bêbado, insistindo…
Eu senti o corpo tensionar.
— E aí?
— Aí ele apareceu.
Meu coração bateu mais forte.
— Quem?
Ela riu.
— Quem você acha?
Eu já sabia.
Mesmo assim…
fingi.
— Não sei.
— O Pablo, Dalila.
O nome veio direto.
E mexeu comigo mais do que eu queria admitir.
— Ele chegou do nada — continuou Verônica. — Colocou o cara pra correr na hora.
Eu mordi levemente o lábio.
Tentando controlar a reação.
— Sério?
— Sério! — ela disse, empolgada. — Ninguém mexe com ele lá. Foi só ele falar que o cara vazou.
Eu fiquei em silêncio por um segundo.
Imaginando a cena.
O jeito dele.
A postura.
A segurança.
Fazia sentido.
Completamente.
— E depois? — perguntei, tentando parecer normal.
— Depois teve tiro.
Meu coração gelou.
— O quê?!
— Relaxa! — ela respondeu rápido. — Foi rápido… uns caras tentaram subir o morro, deu confusão, mas resolveram.
Mas eu já não estava tranquila.
— Tiro, Verônica?
— Amiga… é o morro.
Silêncio.
Eu apertei o celular na mão.
Porque, naquele momento…
tudo ficou mais real.
Mais pesado.
Não era só música.
Nem só dança.
Era perigoso.
De verdade.
— Mas escuta… — a voz dela mudou de tom. — Ele perguntou de você.
Eu travei.
— O quê?
— Perguntou sim — ela insistiu, rindo. — Disfarçado, mas perguntou.
Meu coração acelerou de novo.
E dessa vez eu não consegui esconder nem de mim mesma.
— E você falou o quê?
— Que você tava no Acre com seus pais.
Eu passei a mão no cabelo, tentando organizar os pensamentos.
— E…?
— E nada — ela respondeu. — Mas ele ficou estranho depois.
Eu respirei fundo.
Tentando entender o que aquilo significava.
Se significava alguma coisa.
— Dalila… — Verônica chamou.
— Oi?
— Você vai voltar, né?
A pergunta ficou no ar.
Pesada.
Porque agora eu sabia.
Sabia que não era só diversão.
Sabia que tinha risco.
Tiro.
Gente perigosa.
Um mundo completamente diferente do meu.
Eu olhei ao redor do meu quarto.
Tudo organizado.
Seguro.
Controlado.
Depois fechei os olhos por um segundo…
e lembrei da sensação.
Da liberdade.
Do jeito que eu me senti viva lá.
Quando abri os olhos…
eu já tinha a resposta.
— Vou.
Do outro lado, ela riu.
— Eu sabia.
Eu também.
E talvez…
esse fosse exatamente o problema.
— Tá… mas agora me conta da viagem — disse Verônica, mudando o tom. — Você sumiu e volta como se nada tivesse acontecido.
Eu dei um meio sorriso, me jogando de volta na cama.
— Foi… cansativo.
— Cansativo tipo chato ou tipo insuportável?
— Os dois — respondi, rindo baixo.
Ela riu também.
— Imagino.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio, tentando organizar tudo que tinha vivido lá.
— Teve muita reunião… jantar… gente importante o tempo todo.
— Normal — ela disse. — Esse é o mundo deles.
— É — murmurei.
Mas, dessa vez, tinha algo diferente.
Eu suspirei fundo antes de continuar:
— Meu pai… tá com planos maiores.
— Como assim?
— Ele vai se candidatar.
— A quê?
— A governador… — fiz uma pequena pausa — e tá se articulando com gente de Brasília.
O silêncio do outro lado foi imediato.
— Você tá falando sério?
— Tô.
— Dalila… isso é gigante.
Eu encarei o teto, sentindo um peso estranho no peito.
— Eu sei.
E sabia mesmo.
Porque aquilo mudava tudo.
Mais exposição.
Mais cobrança.
Mais controle.
Muito mais.
— Agora faz sentido essa viagem — disse Verônica. — Ele tava fazendo contato, né?
— Exatamente — respondi. — Reuniões, alianças, essas coisas.
— E você lá no meio disso tudo…
Eu soltei um riso sem humor.
— Como sempre.
— E como você ficou com isso? — ela perguntou.
Eu demorei um pouco pra responder.
Porque nem eu sabia direito.
— Estranho… — falei por fim. — Uma parte de mim ficou… sei lá… orgulhosa.
E era verdade.
Era meu pai.
Ele tinha construído tudo aquilo.
Eu sabia o quanto ele tinha lutado.
— Mas… — Verônica completou.
Eu fechei os olhos por um segundo.
— Mas outra parte de mim só conseguiu pensar que… agora vai piorar.
— Piorar como?
— Mais regras. Mais cobrança. Mais “imagem perfeita” — respondi. — Se ele entrar nessa de verdade… eu vou ter que ser ainda mais… tudo aquilo que eles esperam.
— A filha perfeita.
— Exatamente.
O silêncio caiu por alguns segundos.
Pesado.
— E você quer isso? — ela perguntou, mais séria.
Eu não respondi na hora.
Fiquei olhando pro nada, sentindo aquela divisão dentro de mim de novo.
Porque eu queria ser motivo de orgulho.
Queria ver minha mãe feliz.
Queria que meu pai olhasse pra mim daquele jeito de aprovação mais vezes.
Mas…
eu também queria viver.
Queria errar.
Queria sentir.
Queria escolher.
— Eu não sei… — respondi, sincera.
Verônica soltou um suspiro.
— Isso só deixa tudo mais complicado.
— Muito.
— Principalmente se você continuar indo pro baile.
Eu dei um pequeno sorriso.
— Pois é.
Porque agora não era só desobedecer.
Era colocar em risco algo muito maior.
A imagem.
A carreira dele.
A família inteira.
— Dalila… — ela chamou.
— Oi?
— Você tá entrando num jogo que pode ficar perigoso de verdade.
Eu olhei pro teto mais uma vez.
Pensando em tudo.
No meu pai.
Na minha mãe.
Na vida que estavam construindo.
E depois…
no morro.
No baile.
Em Pablo.
Naquele olhar que ainda não saía da minha cabeça.
— Eu sei.
E sabia mesmo.
Mas, ainda assim…
eu não conseguia parar.