Eu subi pra parte mais alta do morro tentando afastar o barulho da festa.
Mas nem a distância fazia minha cabeça calar.
Lá embaixo o baile continuava pesado. Grave estourando nas caixas, gente gritando, moto subindo o morro sem parar.
Normal.
Tudo normal.
Só eu que não tava.
Eu acendi um cigarro e me apoiei na mureta, olhando as luzes da cidade ao longe.
Tentando pensar em qualquer outra coisa.
Dinheiro.
Trabalho.
Cobrança.
Arma.
Qualquer coisa.
Mas meu pensamento voltava nela toda hora.
E aquilo tava começando a me irritar de verdade.
Eu soltei a fumaça devagar, fechando os olhos por um instante.
— Que p***a é essa… — murmurei.
Não fazia sentido.
Eu m*l conhecia aquela garota.
Nem devia lembrar dela.
Então por que lembrava?
O problema era que ela não parecia pertencer àquele lugar.
Desde o primeiro segundo dava pra perceber.
O jeito de falar.
De olhar.
De andar.
Ela parecia limpa demais pro morro.
Delicada demais pra aquele ambiente.
Mas, ao mesmo tempo…
ela tava ali.
No meio do baile.
Como se estivesse procurando alguma coisa.
Eu franzi a testa, lembrando dela olhando tudo em volta naquele dia.
Curiosa.
Assustada.
Encantada.
Como uma pessoa que passou a vida inteira presa.
Eu dei outro trago no cigarro, irritado comigo mesmo.
Porque eu tava pensando demais.
Muito mais do que deveria.
Mulher nunca foi problema pra mim.
Nunca.
No baile tinha várias.
Lindas.
Disponíveis.
Fáceis.
Mas nenhuma delas fazia minha cabeça travar daquele jeito.
Nenhuma delas parecia carregar aquele olhar.
Como se tivesse escondendo tristeza mesmo cercada de luxo.
Luxo.
Foi aí que pensei de novo:
“Onde será que ela mora?”
Porque dava pra perceber que ela tinha dinheiro.
Muito.
Roupas caras.
Perfume bom.
Mão delicada demais pra realidade dali.
Ela devia morar em condomínio fechado.
Apartamento gigante.
Segurança na porta.
Motorista.
Essas coisas.
Muito longe daquele morro.
Muito longe de mim.
E talvez fosse exatamente por isso que aquilo incomodava tanto.
Porque ela era o tipo de garota que deveria sentir medo de homem como eu.
Mas não sentiu.
Ou pior…
voltou.
Eu passei a mão no rosto, tentando afastar os pensamentos.
Não adiantou.
A voz da Verônica também ficou martelando na minha cabeça:
“Ela perguntou de você também.”
Aquilo mexeu comigo mais do que devia.
Porque significava que eu não tava sozinho nessa confusão.
Ela também tava pensando.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
Eu olhei a cidade lá embaixo.
As luzes bonitas da área rica brilhando ao longe.
Talvez ela estivesse lá agora.
Em algum quarto enorme.
Dormindo em cama cara.
Enquanto eu tava ali, no alto do morro, cercado de arma, tráfico e gente pronta pra matar por dinheiro.
Nossos mundos eram completamente errados um pro outro.
E eu sabia disso melhor do que ninguém.
Talvez por isso…
eu deveria esquecer.
Mas o pior era justamente isso.
Eu não tava conseguindo.
O cigarro já tava quase no fim quando ouvi o primeiro movimento estranho.
Não foi grito.
Nem tiro.
Foi pior.
Silêncio demais.
Quem vive no morro aprende rápido a perceber essas coisas.
Quando a música continua… mas as pessoas começam a olhar muito pros lados.
Quando alguns caras param de rir ao mesmo tempo.
Quando o clima muda antes da confusão começar.
Eu tirei o cigarro da boca devagar, observando lá de cima.
E vi.
Dois carros subindo devagar uma das entradas do morro.
Vidro fechado.
Farol apagado.
Errado.
Meu olhar endureceu na hora.
Levei a mão até o rádio preso na cintura.
— Movimento estranho na entrada dois — falei firme. — Quero gente lá agora.
A resposta veio rápida do outro lado.
— Copiado.
Lá embaixo o baile ainda tentava seguir normal, mas os caras da contenção já começaram a se espalhar discretamente.
Ninguém queria pânico.
Muito menos correria.
Eu desci os becos rápido, a mão já próxima da arma.
O coração ficava frio nessas horas.
Sempre ficou.
Era automático.
Quando cheguei perto da entrada, os carros já tinham parado.
E os homens descendo deles eu não conhecia.
O que era pior ainda.
Um dos caras que tava comigo encostou do meu lado.
— Quer que fecha eles aqui mesmo?
Eu observei rápido.
Quatro homens.
Armados.
Tentando subir sem autorização.
Burros… ou desesperados.
— Espera — respondi.
Um deles deu dois passos à frente.
— Nós só queremos trocar uma ideia!
Eu quase ri.
Ninguém armado daquele jeito vinha “trocar ideia”.
— Então fala daí mesmo — respondi.
O clima pesou na hora.
Tenso.
O baile lá longe ainda tocando enquanto o morro inteiro parecia prender a respiração.
Até que um deles levou a mão rápido demais pra cintura.
Erro.
— Agora! — gritei.
O primeiro tiro saiu quase junto com minha voz.
O som ecoou pelo morro inteiro.
As pessoas começaram a correr lá embaixo.
Gritos.
Desespero.
Mais tiros.
Eu me joguei atrás de um muro enquanto os caras respondiam.
Curto.
Rápido.
Violento.
Como sempre era.
Um dos homens tentou correr pela lateral, mas foi derrubado antes de conseguir subir.
Os outros perceberam rápido que tinham entrado no lugar errado.
Em menos de minutos já estavam fugindo morro abaixo.
— Vai! Vai! Vai! — ouvi um deles gritando desesperado.
Mais alguns tiros.
Depois…
silêncio.
Pesado.
Apenas o eco distante da música, que já tinha parado lá no baile.
Eu respirei fundo, ainda observando a entrada.
— Tá limpo? — perguntei no rádio.
— Tá controlado.
Um dos caras se aproximou de mim rindo nervoso.
— Resolveram correr rápido.
Eu guardei a arma lentamente.
— Porque não eram daqui.
Meu coração já tinha voltado ao normal.
Como sempre.
Violência pra mim era rotina.
Parte da vida.
Mas, enquanto os caras comentavam a troca de tiros…
minha mente foi pra outro lugar.
Dalila.
E a imagem dela naquele baile apareceu do nada na minha cabeça.
Bonita.
Perdida naquele mundo.
Eu passei a mão no rosto, irritado comigo mesmo outra vez.
Porque ali estava a diferença entre nós.
Ela via o morro como aventura.
Liberdade.
Descoberta.
Mas aquilo…
aquilo era a realidade.
Tiro.
Sangue.
Morte chegando sem avisar.
Era nesse mundo que eu vivia.
E talvez…
ela ainda não tivesse entendido isso.