Capítulo 25

1170 Words
O morro estava lotado naquela noite. Luz piscando, grave tremendo nas caixas, cheiro de bebida espalhado no ar… tudo como sempre. Dia de baile. E o baile fazia o morro parecer vivo. Eu subi os últimos degraus devagar, observando o movimento enquanto alguns caras me cumprimentavam no caminho. — E aí, Pablo. — Boa noite, chefe. Eu só fazia sinal com a cabeça. Minha mente não tava totalmente ali. Já fazia alguns dias que eu andava estranho comigo mesmo. Irritado fácil. Pensando demais. E eu odiava pensar demais. Principalmente por causa de mulher. Quando entrei na área principal da festa, o som bateu forte no peito. As meninas já dançavam no centro, os caras enchendo as mesas, bebida passando de mão em mão. Normal. Mas meu olhar procurou automaticamente. Instinto. E eu percebi isso tarde demais. Meu maxilar travou levemente. — Ridículo… — murmurei pra mim mesmo. Foi então que eu vi Verônica e as amigas entrando. Rindo alto, animadas, chamando atenção como sempre. Só que… ela não tava. Meu olhar passou pelo grupo outra vez. Depois mais uma. Nada. Dalila não estava com elas. Uma sensação estranha bateu na hora. Incomodando mais do que devia. Eu desviei o olhar imediatamente, tentando ignorar. — Cadê a patricinha? — perguntou um dos caras perto de mim, rindo baixo ao perceber que eu tava olhando. Eu lancei um olhar frio pra ele. — Tô perguntando? O cara levantou as mãos na hora. — Foi m*l. Mas aquilo já tinha me irritado. Porque ele tava certo. Eu tinha percebido. Do outro lado da festa, Verônica e as amigas já estavam dançando. Animadas. Mas dava pra perceber a ausência dela ali. Até elas sentiam. — A Dalila ia amar essa música — comentou uma delas. Verônica assentiu, olhando em volta por um instante. — Ela tá presa naquele Acre lá… As meninas riram, mas logo voltaram a dançar. Eu continuei observando o movimento por alguns minutos. Tentando focar em outras coisas. No trabalho. Na festa. Nas pessoas. Mas meu olhar voltava involuntariamente pro grupo delas. Como se esperasse ela aparecer do nada. E aquilo começou a me irritar de verdade. Marcela apareceu pouco depois, se aproximando com um copo na mão. — Você tá com cara fechada hoje. Eu peguei a bebida dela sem responder. Ela encostou do meu lado. — Problema? — Nenhum. Ela me observou por alguns segundos antes de sorrir de canto. — Então por que você tá olhando tanto pra entrada? Meu olhar foi direto pra ela. Marcela riu baixo. — Relaxa. Eu percebo as coisas. Eu dei um gole na bebida, ignorando o comentário. Mas ela continuou: — É a menina rica, né? Silêncio. Ela arqueou a sobrancelha. — Sabia. Eu soltei um riso curto, sem humor. — Você fala demais. Marcela deu de ombros. — E você pensa demais. Ela saiu logo depois, me deixando sozinho outra vez. Mas aquelas palavras ficaram na minha cabeça. Porque talvez ela tivesse certa. A música mudou. O baile continuava ficando cada vez mais cheio. As meninas dançando. Os caras bebendo. Gente subindo e descendo o morro. Tudo normal. Mas, pela primeira vez em muito tempo… alguma coisa parecia fora do lugar. Ou melhor… alguém. Eu passei a mão no rosto lentamente, olhando mais uma vez pra entrada da festa. Nada. Dalila realmente não vinha. E o pior? Eu tava incomodado com isso. O baile continuava explodindo de gente. A música fazia o chão vibrar, luzes coloridas cortavam a fumaça no ar e o morro parecia acordado de verdade. Mulher dançando até o corpo suar, garrafas passando de mão em mão, risadas altas, gente cantando junto com o funk como se não existisse amanhã. Era caos. Mas um caos que eu conhecia bem. Do alto da área VIP improvisada, dava pra ver praticamente tudo. Os becos cheios, os bares lotados, os grupos espalhados pela rua. E no meio daquela bagunça… Verônica e as amigas chamavam atenção. Não só porque eram bonitas. Mas porque claramente estavam leves. Curtindo sem medo, rindo alto, dançando entre elas. Só que a festa começou a mudar de clima quando um cara apareceu perto delas. Eu já conhecia o tipo. Bêbado demais. Cheirado demais. Aquele olhar torto de quem acha que pode tudo. Ele começou tentando dançar perto, puxando conversa. As meninas ignoraram. Mas o cara insistiu. Pegou no braço de uma delas. Depois tentou puxar Verônica pela cintura. Ela empurrou na hora. — Sai pra lá! Ele riu. Aquele riso irritante de homem s*******o. — Qual foi, princesa? Tá se achando muito— Vi quando ele tentou pegar nela de novo. E meu corpo reagiu antes da cabeça. Desci as escadas rápido, abrindo caminho no meio da multidão. Quando cheguei perto, o cara ainda tava insistindo. — Tá surdo? — falei, firme. Ele virou o rosto pra mim. Na hora a postura mudou. Todo mundo ali sabia quem eu era. Mesmo assim, o álcool deixou ele burro o suficiente pra tentar crescer. — Tô só trocando ideia— — Então troca lá longe delas. O olhar dele vacilou. Mas ainda tentou rir. — Ih, virou segurança agora? Eu dei um passo à frente. Só um. E foi o suficiente. O sorriso dele morreu na hora. — Some daqui antes que eu perca a paciência. Silêncio. As pessoas em volta já observavam. O cara olhou pros lados, percebeu que tava sozinho… e resolveu recuar. — Tá bom, tá bom… Saiu andando rápido no meio da multidão, tentando fingir que não tava arregando. Eu continuei olhando até ele sumir. Depois virei pras meninas. — Ele mexeu com vocês? Verônica soltou o ar preso. — Esse cara tava enchendo o saco faz tempo. Uma das amigas completou: — Ainda bem que você apareceu. Eu apenas assenti. — Se ele voltar, me avisem. Elas concordaram rapidamente. Mas Verônica ficou me olhando de um jeito diferente. Como se estivesse pensando alguma coisa. Até que sorriu de leve. — Você tá mais protetor hoje… — Tô fazendo minha parte — respondi seco. Ela riu baixo. — Sei. Eu já ia sair mas resolvi perguntar: — Cadê sua amiga Dalila,não quis vim com vocês hoje? — Ela viajou. Meu peito travou de um jeito irritante. — Viajou pra onde? — Acre. Com os pais. Eu fiquei em silêncio por um segundo. Então era por isso. Verônica observou minha reação claramente se divertindo. — Vai passar alguns dias lá. Eu desviei o olhar, tentando parecer indiferente. — Perguntei por perguntar. Ela soltou uma risadinha. — Claro. Aquilo me irritou mais do que devia. Porque eu sabia que ela tava percebendo demais. Então apenas balancei a cabeça e comecei a sair dali. Mas a voz dela ainda veio atrás de mim: — Ela perguntou de você também. Meus passos diminuíram por um instante. Só por um instante. Mas diminuíram. Eu continuei andando sem responder. Tentando ignorar a sensação estranha crescendo no peito. A música ainda explodia no morro. As garotas continuavam dançando. A festa seguia viva. Mas minha mente… tinha acabado de viajar pro Acre.
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