O carro parou lá em cima, numa parte mais alta do morro. Quando eu desci, a primeira coisa que fiz foi olhar ao redor. A vista era diferente… dava pra ver tudo lá embaixo, como se eu estivesse acima de tudo aquilo. As casas ali já não eram como as de antes — eram maiores, mais organizadas. Parecia até outro lugar.
— Chegamos — o cara falou.
Eu não respondi na hora. Fiquei alguns segundos só observando, tentando entender como eu tinha saído de um canto qualquer pra estar ali agora.
Paramos em frente a uma casa simples por fora, mas bem cuidada. O portão abriu fácil.
— Essa aqui agora é tua.
Ele jogou a chave, e eu peguei no ar. Fiquei olhando pra ela por um instante… como se ainda não acreditasse.
Entrei.
Por dentro, era outra realidade. Sofá, televisão, cozinha arrumada… um quarto com cama de verdade. Limpa. Organizada. Aquilo não era luxo… mas, comparado ao que eu tinha vivido nos últimos dias, parecia muito.
Passei a mão pelos móveis devagar, sentindo tudo. Absorvendo.
— O Timóteo não faz isso por qualquer um — o cara disse, encostado na porta. — Tu ganhou moral.
Soltei um leve sorriso de canto.
— Eu sei.
Ele saiu, e eu fiquei sozinho.
Silêncio.
Mas não era mais aquele silêncio pesado de antes. Era diferente. Era conquista.
Fui até a janela e olhei o morro lá embaixo. Pensei em tudo que tinha acontecido… tudo que eu tinha feito pra chegar ali. E, no fundo, eu sabia: aquilo não era o fim.
Era só o começo.
Dois dias depois, eu já não era o mesmo.
Entrei no carro sem precisar de ordem.
— Vamos buscar o resto.
Quando chegamos, o cara já abriu a porta rápido demais. Estava esperando.
— Eu consegui… consegui tudo…
Entrei devagar, sem pressa.
— Eu falei que ia voltar.
Ele me entregou o dinheiro com a mão tremendo. Eu contei ali mesmo. Trinta mil. Certo.
Guardei.
Fiquei olhando pra ele por alguns segundos.
— Viu como dá jeito quando quer?
Ele só balançou a cabeça.
Dei dois tapinhas no ombro dele.
— Agora tá em dia. Não entra nessa de novo.
E saí.
De volta, joguei o dinheiro na mesa do Timóteo.
— Certinho.
Ele nem contou. Só olhou pra mim.
— Eu sabia.
Ele levantou e começou a andar ao meu redor, como se estivesse me avaliando.
— Sabe qual é a diferença de você pros outros?
Fiquei em silêncio.
— Você entende o jogo.
Ele parou na minha frente.
— E quem entende… cresce.
Dessa vez, ele mandou trazer bebida.
— Hoje você bebe comigo.
Eu aceitei.
A gente brindou. E ali eu entendi… não era mais só teste. Era respeito.
Mas também era aviso.
Porque quanto mais alto eu subisse… maior seria a queda.
Naquela noite, quando voltei pra casa, o silêncio já não era vazio. Era meu.
Joguei a chave na mesa, tirei a camisa e me joguei no sofá. Fiquei olhando pro teto, pensando.
Em poucos dias… eu tinha mudado tudo.
Mas também sabia: naquele lugar, confiança não era presente.
Era dívida.
E precisava ser paga todo dia.
Na manhã seguinte, bateram no portão.
Abri. Era um dos homens do Timóteo.
— Ele quer te ver.
Nem perguntei nada. Só fui.
Quando entrei na sala, senti na hora que o clima era outro. Pesado. Tenso. Tinha mais gente ali, e ninguém parecia confortável.
— Chegou — Timóteo falou. — Senta.
Sentei, atento.
— Deu problema.
Fiquei em silêncio.
— Um dos pontos lá de baixo tá dando prejuízo. Dinheiro sumindo.
Cruzei os braços.
— E o que você quer que eu faça?
Ele chegou mais perto.
— Quero que você descubra.
Aquilo não era simples.
— Mas sem sair acusando — ele continuou. — Eu quero certeza.
Um dos caras tentou falar alguma coisa, mas o olhar do Timóteo fez ele calar na hora.
— Quem tá lá já tá envolvido demais — ele disse. — Você é novo. Ninguém vai te ver como ameaça.
Entendi na hora.
Eu não era só mais um ali.
Eu era peça nova no jogo.
— E se eu descobrir? — perguntei.
— Aí você volta e me conta.
Sustentei o olhar.
— Só isso?
Ele sorriu de leve.
— Por enquanto.
Levantei.
— Onde é?
Ele me deu o endereço.
— Vai sozinho.
Peguei o papel.
Antes de sair, ele chamou:
— Pablo.
Parei.
— Confiança se constrói… mas se perde rápido.
Assenti e saí.
Descendo o morro sozinho, senti o peso de verdade.
Aquilo não era mais sobre cobrar.
Era sobre entrar num lugar onde ninguém era confiável.
Quando cheguei no ponto, parecia tudo normal. Gente indo e vindo, movimento comum.
Mas eu sabia.
Nada ali era normal.
Respirei fundo… e entrei.
Agora o jogo era outro.
E eu também.