Capítulo 3

1035 Words
A noite tinha sido perfeita. Leve… daquelas que fazem a gente esquecer do resto do mundo. Risadas soltas, histórias antigas, o vinho fluindo sem pressa… quando percebi, já era tarde demais pra qualquer compromisso com horário. Na volta pra casa, eu e a Sophia estávamos… em sintonia. Não era nem preciso falar muito. Bastava um olhar, um sorriso de canto… aquele tipo de conexão que só a gente entendia. Como se tudo ao redor tivesse desaparecido e só existíssemos nós dois. Assim que entramos em casa, o silêncio tomou conta. Mas não era um silêncio vazio. Era cheio. Cheio da gente. Eu puxei Sophia pela cintura, sem dizer nada. Ela sorriu daquele jeito que sempre me desmonta… como se já soubesse exatamente o que eu queria. O beijo começou calmo. Lento. Carregado de carinho. Mas não demorou pra mudar… pra ganhar intensidade, vontade… como se a gente precisasse daquele momento. Como se fosse só nosso, longe de qualquer problema, de qualquer dúvida. E, por um tempo… foi mesmo. Depois, deitados juntos, ainda próximos, sentindo um ao outro, Sophia passou a mão pelo meu peito e se levantou. — Vou tomar um banho… já volto. Assenti, ainda meio perdido naquele momento. — Vai lá… Ela entrou no banheiro, e logo o som do chuveiro começou. O quarto ficou em silêncio de novo. E foi aí que tudo mudou. O celular dela, ali do lado da cama… acendeu. Eu olhei. Só olhei. Por alguns segundos, fiquei parado, como se meu corpo soubesse que eu não devia fazer aquilo. Mas minha cabeça… Minha cabeça foi mais rápida. Peguei o celular. A tela ainda estava acesa. Uma mensagem. De Mateus. Meu coração bateu mais forte na hora. Sem pensar muito… eu abri. “Gostei muito de hoje… mas confesso que não consegui parar de reparar na Sophia.” Eu li. E reli. E li de novo. Como se, de alguma forma, aquelas palavras pudessem mudar. Mas não mudavam. Meu corpo gelou. De verdade. Senti um aperto no peito que eu não esperava… um misto estranho de surpresa, incômodo… e algo mais pesado. Insegurança. O som do chuveiro continuava. E eu ali… parado, com o celular na mão, tentando entender o que aquilo significava. Era só um comentário? Ou tinha algo por trás? Respirei fundo. Apaguei a conversa. Na hora. Sem pensar direito. Coloquei o celular exatamente onde estava… como se nada tivesse acontecido. E me joguei na cama. Mas nada estava igual. Quando Sophia saiu do banho, com os cabelos molhados, aquele sorriso leve de sempre… eu fiz o possível pra agir normal. — Já deitou? — ela perguntou, se aproximando. — Já… tô cansado — respondi. Mentira. Eu não tava cansado. Eu tava… confuso. Ela deitou ao meu lado, encostou a cabeça no meu ombro. Ficamos em silêncio. Mas não era mais o mesmo silêncio. — Você tá estranho… aconteceu alguma coisa? Eu hesitei. Por um segundo, pensei em falar. Mas não falei. — Não… coisa do trabalho. Ela me olhou. Eu senti. Como se ela tentasse enxergar além. Mas, no fim, ela só assentiu. — Tá bom… mas se quiser falar, você sabe, né? — Sei. Mas eu não falei. E naquela noite… Eu não dormi. Fiquei horas olhando pro teto. Aquela frase repetindo na minha cabeça, como um eco que não queria parar. “Não consegui parar de reparar na Sophia…” Cada vez que eu lembrava… parecia pior. Mais pesado. Mais real. E aí vieram os pensamentos. Será que ela percebeu? Será que ela gostou? Será que… teve alguma coisa ali que eu não vi? Aquilo começou a me corroer por dentro. Devagar… mas constante. Na manhã seguinte, eu levantei mais cedo que o normal. Quase não tomei café. Sophia tentou puxar conversa… mas eu não tava ali de verdade. — Você tem certeza que tá tudo bem? — Tô, amor… só coisa do banco. Nem eu acreditava mais nisso. No trabalho… foi pior. Eu, que sempre fui centrado… seguro… Errei coisa simples. Perdi o foco. Fiquei encarando o nada mais vezes do que eu consigo contar. A imagem dela… a mensagem do Mateus… Não saíam da minha cabeça. A desconfiança começou a crescer. Silenciosa. Mas firme. E, pela primeira vez em muito tempo… Eu senti que algo dentro de mim estava mudando. Não só com ele. Mas com ela também. No dia seguinte, meu celular tocou logo cedo. Quando vi o nome na tela… meu estômago virou. Mateus. Por um segundo, pensei em não atender. Mas atendi. — Fala, irmão! A voz dele, animada… como se nada tivesse acontecido. — Tô indo pra casa de praia hoje. Vem com a Sophia. Vai ser bom, relaxar um pouco. Fiquei em silêncio por um instante. A mensagem voltou na minha cabeça. Mas, mesmo assim… — Pode ser… vou falar com ela. Quando contei pra Sophia, ela sorriu na hora. — Eu topo! Vai ser ótimo sair um pouco. Assenti. Mas por dentro… Eu já não estava tranquilo. Horas depois, estávamos na estrada. Por fora, tudo normal. Mas eu… Eu tava prestando atenção em tudo. Cada palavra. Cada gesto. Cada detalhe. Quando chegamos, Mateus veio como sempre. Abraço forte, sorriso largo. — Que bom que vieram! E lá estava ela também. A mesma mulher da noite anterior. Bonita. Confiante. Daquelas que chamam atenção sem esforço. — Prazer de novo — ela disse, olhando direto pra Sophia. Eu observei. Tudo. O jeito que Mateus falava. O jeito que Sophia respondia. Os olhares. Os espaços. Os silêncios. Nada parecia errado. E talvez fosse exatamente isso que me incomodava. Durante a tarde, ficamos perto da piscina. Bebida, conversa, risadas… Mateus fazia piada. Sophia ria. Tudo normal. Mas eu não conseguia desligar. Em alguns momentos… Eu juro que vi. O olhar dele demorando um pouco mais nela. Talvez fosse coisa da minha cabeça. Ou talvez não. Sophia parecia tranquila. Natural. Como sempre. E isso só piorava tudo. Porque eu queria confiar. Eu sempre confiei. Mas agora… A dúvida já estava ali. Plantada. Crescendo. E, naquele cenário perfeito de sol, praia e risadas… Eu não conseguia relaxar. Eu estava ali. Presente. Observando. Esperando. Talvez por um sinal. Algo que confirmasse… Ou destruísse de vez tudo aquilo que eu ainda estava tentando acreditar.
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