Capítulo 7

863 Words
Eu já não conseguia pensar direito. Era como se minha cabeça tivesse virado um campo de guerra — tudo misturado: raiva, dor, incredulidade. Meu coração batia descompassado, forte demais, como se fosse explodir. Minhas mãos tremiam… e aquela imagem não saía da minha mente. Sophia. Mateus. Juntos. Rindo. Aquilo me queimava por dentro. Quando percebi, já estava seguindo os dois. Nem lembro direito do caminho… só sei que cada passo parecia me puxar mais fundo pra um lugar onde eu não tinha controle de nada. E então eu vi. Os dois ali. Perto demais. Íntimos demais. Algo dentro de mim quebrou. — Sophia! Minha voz saiu mais alta do que eu esperava, rasgando o ar. Eles se viraram na hora. O rosto dela perdeu a cor. — Pablo… Aquilo só piorou tudo. — Você não consegue nem olhar pra mim direito? — eu disse, sentindo a voz falhar entre raiva e dor. — E você… Apontei pra ele. — Eu te chamava de irmão. Mateus levantou as mãos, como se aquilo fosse resolver. — Pablo, calma… a gente pode conversar— Mas eu já não escutava mais. Fui pra cima. O empurrão fez ele recuar. Sophia gritou, tentando entrar no meio. — Para! Pablo, por favor! Afastei ela, sem nem pensar. Eu só via ele. — Você me traiu! — gritei pra ela, os olhos ardendo. — Com ele! Mateus tentou reagir. — Cara, você tá fora de si— — Cala a boca! Avancei de novo. Dessa vez virou briga. Empurrões, socos m*l dados… tudo bagunçado, mas carregado de tudo que eu tava guardando. Sophia gritava. — Para com isso! Vocês vão se machucar! Mas já tinha passado desse ponto. Num movimento brusco, eu empurrei ele com toda força. E aí… Tudo desacelerou. Mateus perdeu o equilíbrio. Caiu pra trás. E o som da cabeça dele batendo no chão… Aquilo ecoa na minha cabeça até agora. Silêncio. Pesado. Errado. — Mateus…? A voz dela saiu fraca. Ele não respondeu. Não se mexeu. — MATEUS! Ela caiu de joelhos ao lado dele, desesperada. E eu… Eu congelei. A raiva sumiu na mesma hora. Foi como se tivesse sido arrancada de mim, deixando só um vazio frio. — Eu… eu não quis… Nem minha própria voz parecia minha. — Ele não tá acordando, Pablo! — ela gritou, olhando pra mim com desespero. — O que você fez?! Minhas mãos começaram a tremer mais ainda. Aquilo tinha ido longe demais. Muito longe. — Olha o que você fez! — ela gritou, agora com raiva. — Se acontecer alguma coisa com ele… eu acabo com você! Aquilo me atingiu como um soco. — Eu? — eu ri, mas não tinha humor nenhum ali. — Você ainda me culpa? — Você quase matou ele! — E você? — eu gritei de volta. — Você acabou com a gente muito antes disso! O silêncio que veio depois foi pesado. — Eu confiava em você… — falei mais baixo, sentindo a voz falhar. — Eu te amava… Ela não respondeu. Só olhou pra ele. — Some daqui, Pablo! — ela disse. — Eu não quero olhar pra sua cara agora! Fiquei parado. Por um segundo… talvez mais. Queria falar alguma coisa. Mas não consegui. Nada parecia suficiente. Então eu virei as costas… e fui embora. Eu nem lembro direito do caminho até o carro. Só sei que quando entrei, minhas mãos tremiam tanto que eu m*l consegui ligar. — Droga… droga! Bati no volante. A imagem não saía da minha cabeça. A queda. O som. Ela gritando. — Isso é culpa dela… — falei em voz alta, tentando me convencer. — Foi ela que destruiu tudo… Mas no fundo… eu sabia. Quando cheguei em casa, parecia que aquele lugar já não era mais meu. Entrei no escuro mesmo. Passei a mão no rosto. E dessa vez… eu não consegui segurar. Sentei no sofá… e desabei. — Eu matei ele… A palavra ficou ecoando. Matei. Meu coração disparou. Levantei na hora, andando de um lado pro outro, sem conseguir parar. — A polícia… ela vai chamar a polícia… O pânico tomou conta. Fui pro quarto e comecei a jogar roupa dentro de uma mochila. Sem pensar. Sem organizar. Só precisava sair dali. Peguei uma foto. Eu e Sophia. Sorrindo. Felizes. Aquilo doeu mais do que qualquer coisa. Meu olhar mudou na hora. — Tudo isso é culpa sua… Amassei a foto e joguei na mochila. Fechei com força. Acabou. Não tinha mais volta. Peguei a chave e saí sem olhar pra trás. A noite parecia mais pesada do que o normal. Entrei no carro e fiquei parado por alguns segundos. Sem pensar. Sem sentir direito. — São Paulo… Era a única coisa que fazia sentido. Ou pelo menos… a única fuga que eu tinha. Liguei o carro. E fui. A estrada era escura. E minha cabeça pior ainda. Sirene. Polícia. Prisão. Essas palavras não paravam. Cada luz no retrovisor me fazia travar. — Eu não posso ser preso… Repeti isso várias vezes. Mas no fundo… eu sabia. Não dava pra fugir do que eu fiz. Podia sair dali. Podia ir pra longe. Mas aquilo… Aquilo já era parte de mim.
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